#Metoo

04/10/2018

O movimento #Metoo tem o mérito de trazer para a vista de todos o que ficava entre quatro paredes, num beco escuro, num gabinete oficial, num escritório fechado.

Inúmeras mulheres têm vindo a denunciar comportamentos abusivos por parte de estrelas de Hollywood, de homens de poder, que usaram a sua condição e a sua masculinidade para se aproveitarem de mulheres, que, na posição em que se encontravam, dificilmente poderiam resistir. Não pactuar, não aceitar. 

Ainda que sendo apenas passivas

Estamos a falar de um tempo, não tão longínquo assim, em que era pratica corrente, sequer se questionava, porque era suposto ser isso o que os homens fazem.

Eu, e uma série de mulheres da minha geração, fomos vítimas disso. Havendo meios profissionais mais propícios do que outros para que isso aconteça. E sequer era escondido, era à frente de toda a gente.

As mulheres perderam segurança emocional e voz, o que as impedia de dizer o que sentiam e de agir de acordo. Muitas vezes, com o patrocínio das próprias mães, que, influenciadas pelo patriarcado, acabavam por pactuar com os agressores em vez de defender e proteger as suas crias, como faz qualquer fêmea no mundo animal.

Mulheres da minha geração continuam a aconselhar, muitas vezes a proibir, as filhas a não se vestir de determinada maneira.

Além da posição desfavorecida da qual partiam, as mulheres são fisicamente mais fracas do que os homens. Isto é biologia, não é achismo.

Felizmente, não em todas as famílias. Infelizmente, na grande maioria delas. Essa cultura vem muitas vezes de casa. A maioria das mulheres não tem voz por ser um comportamento que não lhes é estranho, ainda que sintam em cada poro que não pode ser normal.

O patriarcado é isso. É infantilizar homens emocionalmente e dar-lhes todo o poder a todos os outros níveis. E as mulheres têm muita responsabilidade nisso também. Tudo começa em casa, tudo.

O problema é o que tem sido feito em nome de uma causa tão nobre

Com o conluio e a participação ativa de muitas mulheres, nomeadamente as feminazis.

O #Metoo não é vingancinha. Não serve para dar poder às mulheres sobre os homens. Eu, particularmente, não é o que quero. Quero igualdade, justiça e consciência masculina e feminina do que é real vontade. Quero segurança emocional para as mulheres e consciência para mulheres e homens. Mesmo que não o entendam, que adorassem ser abusados pela Scarlett Johanson ou a Nicole Kidman. Não é a mesma coisa. E eu sei que dificilmente poderiam pôr-se no nosso lugar. Pensem nas mulheres da vossa vida, mães, irmãs, filhas, sobrinhas, netas. Se calhar fariam o mesmo, a maioria dos abusos é perpetrada por pessoas que a vítima conhece.

Muitas mulheres não se identificam com o feminazismo por isso. Não se trata de trocar de lado no poder, trata-se de igualdade, de consciência.

No Brasil há uma lei, a lei Maria da Penha, que protege as mulheres de abuso e violência. Há inclusive uma delegacia da mulher. Chegou a propor-se um vagão, o primeiro, do metro, só para mulheres. O que acho mais um desserviço. Homens e mulheres têm de aprender a conviver juntos, de igual para igual. E não separados. Isso só gera mais abuso e mais violência.

Tal como o #Metoo, instituições como as referidas são fundamentais para criar consciência, não para alimentar neuroses de poder. Que afetam tanto mulheres como homens. Uma mulher não tem razão só porque é mulher. Usar meios e instituições ao serviço da neurose particular de poder é pôr em causa todas as mulheres que foram e continuam a ser abusadas e assediadas todos os dias. E isso é o pior que pode fazer-se a uma mulher. Continuar a descredibilizá-la. Perpetuar ad aeternum o patriarcado. Chega.

Eu não quero homens com medo de mulheres.

Quero que continuemos a poder seduzir-nos mutuamente. A luta por poder já fez estragos demais. Há caminhos alternativos, a colaboração, em vez da competição.

Ameaçar mulheres, ainda que de forma velada, ou estás comigo ou contra mim, és machista e não és solidária com outras mulheres, é manipulá-las. E exercer poder sobre elas.

Não há valor mais masculino do que esse.

A consciência de homens e mulheres em relação a si mesmos e ao que querem é fundamental.

Educação emocional é imperioso.

Dotem as mulheres de recursos. façam-nas procurá-los. Dêem-lhes estrutura emocional, só assim poderão decidir o que querem para si. Decisão essa que é individual e intransmissível.

Criem consciência nos vossos filhos, vejam bem o exemplo que lhes dão. Eles imitam tudo, independentemente do que lhes digam. Se as vossas palavras contrariam as vossas ações, eles imitam as ações. A forma como falam com as vossas mulheres. O que exigem a filhos do sexo masculino e feminino. Promovam a igualdade, não o privilégio.

 

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