Mulheres super poderosas

20/08/2019

A vida é ingrata para com as mulheres, o mundo, melhor dizendo. Talvez seja a cultura ocidental…

Ao mesmo tempo que nascemos com  a possibilidade e o privilégio de gerar uma vida, sendo que somos as únicas a poder fazê-lo, a assegurar a perpetuação da espécie, quando não podemos mais fazê-lo, deixando de ter controlo sobre o nosso corpo e as nossas emoções, somos atiradas para a vala comum das mulheres indesejáveis. Chegando ao ponto de nos envergonharmos da nossa condição, de a querer esconder, como se fosse uma doença…

Em Fleabag há um discurso incrível sobre isso.

Sendo o género da sensibilidade, e esperado de nós que aguentemos tudo, com o alto patrocínio do patriarcal, chegámos a um ponto em que já não sabemos sequer como expressar o que sentimos.

Se é que sabemos o que sentimos, de tão acostumadas estamos a calar os nossos desejos e as nossas fraquezas. A racionalizá-los, para que não sejam questionados, diminuídos, desprezados…

Negando a nossa natureza cuidadora, nutridora, afetuosa, pagando o mais alto preço, como se todas essas qualidades fossem defeitos.

E sem as quais não há relacionamento que subsista.

E, quando as emoções estranguladas na sombra saem aos borbotões, ainda somos tratadas com paternalismo, desculpando-nos com a nossa natureza, as nossas hormonas, contra as quais nada podemos fazer. As hormonas masculinas são aceites, as femininas causadoras de todos os males do mundo.

Somos gozadas quando choramos, nos emocionamos, quando a nossa natureza feminina fala mais alto do que tudo o resto.

Invalidada pelo mundo externo, e por motivos de sobrevivência, aprendemos a calá-la.

A pedir desculpa por ela, aguentando não só o nosso feminino como o feminino no masculino. Responsabilizando-nos por tudo. Aguentando muito mais do que seria emocionalmente sustentável.

A divisão entre os casais não se refere apenas às tarefas domésticas, mas também aos fardos emocionais. A cada um, a sua justa parte.

E ainda temos de nos manter desejáveis…

Mais uma herança do patriarcal… Basta ver as esculturas de outros tempos, em que as mulheres tinham formas, e as modelos de agora. A imagem que se propaga até à exaustão do que é uma mulher desejável. Em revistas dirigidas por mulheres, supostamente para mulheres. Ignorando biologia, hormonas, herança genética, condição feminina.

Por isso a negação da idade, as operações plásticas, o botox. As crises existenciais em relação ao nosso próprio género, a negação do mesmo.

Os homens são como o vinho do Porto, as mulheres são trocadas por outra de 20 anos. Ou traídas, para que os homens possam manter a estrutura que lhes traz paz emocional. Para que possam chegar a casa e não precisarem de se incomodar com o que também é da sua responsabilidade, já que partilham casa, filhos e famílias.

A velhice costumava ser respeitada. Era sinal de sapiência.

Agora, é chutada para canto e considerada um problema. E se essa vai chegando cada vez mais tarde, a velhice dos corpos chega cedo demais para quem ainda se sente capaz de quase tudo, de amar com paixão, de correr maratonas, de ouvir até altas horas, de consolar uma noite inteira. De acolher sempre.

Tudo e mais alguma coisa, como se fossemos de ferro.

Sentirmo-nos bem na nossa pele, incluindo a aceitação da idade e respetivas consequências, é da nossa inteira responsabilidade. Mas quando há uma pressão social e consequências bem óbvias para as mulheres, é difícil. Independentemente de termos de lidar com o nosso complexo Peter Pan, também ele sinal dos tempos. Implicitamente, ao aceitar a idade, sentir-me forçada a aceitar que não mais serei desejável. Mesmo não tendo quaisquer tipo de razões de queixa. Continuo a atrair gajos dos 20 aos 60.

E mulheres também…

Talvez o problema seja meu, mas eu não posso tudo sozinha, o tempo todo. Estar permanentemente contra o mundo, insistindo em não me calar, em resistir, por saber que não posso, não consigo nem quero ser de outra maneira.

E ainda ter de ouvir, de médicas mulheres do SNS, que a idade, as hormonas, as alterações ao meu corpo e ao meu estado de espírito são normais. Como quem diz: aguenta. Mesmo não aguentando mais.

Nem física nem psicologicamente.

Também era normal morrer de sarampo no século 18 e não é por isso que paramos de tomar vacinas…

Passou na RTP 2, dia 16 de agosto, um filme sobre uma aldeia Suíça onde os movimentos de libertação dos anos 70 não chegou. E que mostra como mulheres mães de filhos lidaram com o desejo e a vontade de fazer valer os seus direitos. Como seres humanos. Chama-se A Ordem Divina.

Com enfoque particular na afirmação que leva o marido de uma delas a aperceber-se que também as mulheres têm direito ao prazer sexual. No século 21, a questão ainda se põe. Por o nosso tema arquetípico ser o relacionamento e pela quantidade de coisas de que abdicamos em nome dele. Sacrificando tudo e mais alguma coisa.

Ou correndo o risco de ficarmos sozinhas…

Ainda em Fleabag, e a propósito dessa pressão, a protagonista precisa que um padre quase a obrigue a entrar num confessionário para a encorajar a falar, a dizer tudo o que lhe vai na alma.

E isto está longe de ser um mimimi, embora possa não parecer…

Tenho só algo mais a dizer: não quero mais ser super poderosa. Quero ser eu, com fraquezas, vulnerabilidde, com tudo o que é meu, me compõe, me define. Sem precisar de ninguém que me resolva problemas, sou bem capaz de os resolver por mim mesma, que me arrange soluções. Apenas que ouça, acolha e se cale. Sem agenda nem segundas intenções. Que seja feminino… Sem paternalismo…

E, de preferência, que mulher nenhuma me exija mais do que isso.

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