Não matem já o ego*…

07/09/2019

Para Freud, a noção de ego é, num cenário que ilustra bem e aparece recorrentemente em filmes e histórias, a situação do anjo bom (superego) e do anjo mau (Id, que espera gratificação imediata), em ombros alternados, a sussurrar ideias aos nossos ouvidos.

O ego tem necessariamente de ouvir os dois lados e fazer uma escolha.

A noção de escolha é um componente importante do ego.

“A análise não torna reações patológicas impossíveis. Dá isso sim aos pacientes a liberdade de escolha por parte do ego para decidir por uma via ou por outra.” Freud

Também para Jung, esta ideia de liberdade de poder fazer escolhas é central para o ego.

Oposta é a ideia de compulsão.

Na medida em que nos experienciamos compulsivos, e talvez a compulsão mais fácil de visualizar seja a da adição, na medida em que somos uma vítima de uma adição, parece que a adição é quem faz as escolhas – a adição está no controlo.

Sou muito sincero quando digo que não quero ser vítima da minha adição.

Que pode levar a resultados desastrosos. Destruir aspetos da minha vida, relacionamentos, confiança. E a confiança em mim mesmo, podendo sentir-me desesperadamente infeliz como vítima da minha adição.

Posso comprometer-me a resistir à minha adição.

Ou não ceder a ela e trabalhar contra a experiência da adição. No entanto, quando tenho crises de abstinência do produto da minha adição e ele me visita, encontro-me sem forças para lhe resistir.

[Sim, é possível]

A medida na qual somos capazes de resistir à compulsão – de certa forma, escolher livremente – aumenta e somos capazes de fazer algumas escolhas. E de agir de acordo com as nossas crenças em relação à forma como deveríamos ser e o que deveríamos fazer.

Esta propriedade, capacidade ou privilégio da livre escolha está diretamente ligada à função do ego.

No modelo psíquico de Jung o ego é descrito como arquétipo.

Como outros aspetos da psique junguiana: a sombra, a anima, a persona, o self, o ego é uma presença arquetípica. É um ator no psico-drama. Um psico-drama para o qual olhamos como se tratasse da nossa vida.

Na psicologia junguiana, o ego desempenha um papel no cenário de um filme.

Podemos pensar no ego como o realizador do filme.

São chamados vários atores para dar um passo em frente e representar várias cenas, trazendo determinadas características, qualidades, maneiras de ser, talentos, etc. para os seus  papéis.

Só que o realizador está nos bastidores.

A dirigir e a coordenar estes vários atores psíquicos, que são equivalentes a outros arquétipos ou complexos na nossa psicologia.

O ponto aqui é que o ego é chamado para realizar o filme.

Quando o ego desempenha o seu papel ideal, que é como e onde deve funcionar, faz a gestão do processo e dirige os outros atores.

É suposto ser o maestro de uma orquestra.

Sintetiza diferentes impulsos, atores, e complexos para garantir que o filme acaba como é devido.

O ego é chamado para distinguir o nosso eu e a nossa individualidade única.

É papel do ego entender o que é e o que não é.

*Título e tradução minhas, do original inglês por Stephen Farah.

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