Nunca cansa

11/02/2020

Ainda dizem que o trabalho dignifica. Um homem talvez, já uma mulher é o diabo, salvo seja…

Desde que voltei ao mundo dos adultos, nunca mais corri ou caminhei. Consegui uns dias no verão, mas muito pouco.

É impressionante a capacidade criativa de um cérebro preguiçoso.

A desculpa que me dava era a de que estava farta do mesmo percurso. Não me apetecia pegar no carro para ir correr, parece-me um contra-senso. E faz-me impressão fazer esforço físico e inspirar monóxido de carbono ao mesmo tempo. Pelo que ir a pé até ao próximo paredão disponível, o que se faz tranquilamente, está fora de questão.

Porque o acesso só se faz pela Marginal.

Voltei há uma semana. Pouco de cada vez, mas nunca menos do que os 30 minutos criativos recomendados. É um bocado esse o objetivo, desentorpecer o corpo para libertar a criatividade.

E depois, quem sabe num futuro próximo, voltar a fazer da corrida uma rotina.

A preguiça espreita em cada esquina. No entanto, dou por mim a ter comportamentos obsessivos.

Pulsões de vida, desta vez.

Ao mesmo tempo que o monstro da preguiça tenta convencer-me de todas as formas a ficar quieta, visto-me o mais rápido que posso. Procuro o velho iPhone 5S com os podcasts da Amote rádio todos descarregados, para não ter de precisar de dados, e, já com a música a bombar, é todo um outro alento, calço os ténis e saio de casa.

Os agarrados só percebem que o monstro obsessivo compulsivo tomou conta deles quando acordam com um maço de cigarros na mão. Ou um chocolate. Começa com um monólogo interno de conversa mole e suficientemente convincente, tão automático que nem damos por isso. Uma mão pousa suavemente entre as nossas omoplatas, e, quase sem nos tocar, nos guia até ao local do crime, fala e paga por nós, abre o produto do vício em causa, para não dar para devolver, e só nesse momento acordamos. Demasiado tentados para voltar atrás.

Eu acordo com o beat da amote radio.

Até ao paredão, os primeiros 5 minutos, é para aquecer. Quando chego ao passeio de tijolos amarelos, já o ritmo acelera um pouco.

Mas, assim que ultrapasso o muro que me separa do mar, que antevejo pelos quadrados recortados na pedra, lembro-me porque o meu preguiçoso cérebro é vencido pelo monstro obsessivo compulsivo que mora em mim. Ajudado pela memória muscular e criativa, que se lembra de que aquilo é bom, me faz sentir bem durante e depois.

Estava eu preocupada com o facto de o percurso ser sempre o mesmo. 

As pessoas não são, o que é bom, não porque fale com elas, mas porque me distraem das muitas de mim.

Mas o que muda todos os dias, e por isso nunca cansa, é o cenário.

Mesmo quando está nublado, quando não há nuvens, quando Poseidon está irritado como ontem e as ondas estoiram contra as rochas, num festival de água e espuma, que às vezes invade o paredão. E, nos dias de tormenta, a própria Marginal.

O pôr-do-sol nunca é igual, as nuvens nunca têm as mesmas formas, o céu nunca é riscado com as mesmas cores, da mesma maneira, à mesma hora.

Nem aqui, nem do segundo andar da nossa senhora do monte. O céu, apesar de o ser, nunca é o mesmo. Como as nuvens, o sol, a lua, as estrelas e o mar. Nem as marés…

É um espetáculo gratuito e sempre original.

E inspirador. Podia fazer disto vida, ler a poesia do céu, das estrelas, dos mares, das nuvens e da Lua, que ontem se refletia, cheia, no Tejo, iluminando-o como a um caminho.

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