O caminho arquetípico do masculino – Guerreiro II

05/08/2019

Felizmente, a maioria dos homens não precisa viver o arquétipo do guerreiro num campo de batalha. Mas precisa de saber quando é apropriado e em que circunstâncias pode usar a sua agressividade.

E fá-lo através da clareza de pensamento, do discernimento.

Quando Claire (quase) é violada por um desertor britânico, à sua frente, Jamie, com uma arma apontada à cabeça, confia que Claire, tendo aprendido a defender-se com um punhal, consiga safar-se. Assim é. E, nesse momento, Jamie reverte a situação. Consegue sacar a arma ao oficial inglês e corta-lhe a garganta no mesmo segundo.

Quando Angus aponta uma faca ao pescoço de Claire, recusando-se a ser julgado por uma sassenach wench, Jamie evita uma desgraça, e poupa a mulher que ama, dizendo: se ela não quer, deixa-a, sobra mais (comida) para nós.

O guerreiro está sempre alerta, sempre desperto.

Jamie dorme com um olho aberto e outro fechado… Acorda ao mínimo barulho.

Sabe como se concentrar física e mentalmente.

Quando Black Jack Randall tenta excitá-lo, provocar-lhe uma ereção, Jamie, enojado, subjugado, consegue controlar o que seria uma manifestação de anuência face aos avanços de Randall. E só é dobrado quando Randall não lhe dá a mínima hipótese e o viola brutalmente até obter de Jamie uma reação.

Um guerreiro sabe o que quer e como alcançá-lo.

Jamie quis Claire desde o momento em que a viu. Mas soube esperar. Alcançou o seu objetivo por um meio diferente do habitual, casando com ela por indicação de Dougal, e, pouco a pouco, conquistou-a.

A clareza de pensamento faz dele um estratega, um tático.

Por isso, consegue avaliar com precisão as circunstâncias e adaptar-se à situação no terreno.

Há um exemplo excelente deste tipo de inteligência do guerreiro. Durante o gathering, em que os membros do clã Mackenzie vão, um a um, jurar fidelidade a Colum. Jamie, sabendo se Fraser e com um moto diferente, tal como um tartan, Laird das suas próprias terras, Broch Tuarach, esconde-se. E assim pretende ficar até ao dia seguinte, quando já não corria perigo. Quando Claire tropeça nele, e este a leva de volta ao castelo, é apanhado por membros do clã que de o forçam a fazer o juramento. A sala estava pejada de homens do clã Mackenzie, prontos a cortar-lhe a garganta caso ousasse desafiar Colum.

Perante Colum, seu tio, Jamie apresenta-se com o seu tartan e o seu alfinete, Je Suis Pret. Não jura fidelidade a Colum, porque a fidelidade dele está com o seu clã, Fraser, mas dá-lhe o que tem: ajuda e boa vontade. Obediência, devida pelo laço de parentesco, pondo-se às suas ordens, apenas enquanto pisar as terras do clã Mackenzie.

O guerreiro sabe quando tem a força para derrotar o adversário, usando meios convencionais, e quando precisa de adotar uma estratégia não convencional.

Sabendo que não teria força para derrotar os adversários, tinha menos homens e menos armamento, Jamie adota uma dessas estratégias não convencionais. Junta uns tantos homens do seu clã, dirigem-se, na calada da noite, ao acampamento onde estavam os ingleses, às vésperas de Culloden, e retiram-lhes os pinos dos canhões. Que os fez, aos escoceses, ganharem essa batalha.

Ou a cena das vacas, quando Rupert, Murtagh e Angus resgatam Jamie de Fort William.

O guerreiro avalia com precisão a sua força e as suas capacidades.

Se entende que um ataque frontal não vai resultar, desvia-se da agressão do seu oponente. Identifica-lhe o flanco e avança para a batalha.

Jamie usa muito o sentido de humor para dobrar Claire quando esta está furiosa. É um meio de não a atacar frontalmente, não é isso que quer. Desvia-se da agressão, verbal e física, Claire é assim mesmo, mas não permite que isso o deixe numa posição de vulnerabilidade de onde não conseguiria sair. De uma posição que lhe afete a masculinidade.

Esta é a diferença entre o guerreiro e o herói.

O homem (ou o rapaz) em contacto com o arquétipo do herói não conhece as suas limitações. Romantiza a sua invulnerabilidade. O guerreiro, no entanto, com a clareza de pensamento que lhe é característica consegue ser realista em relação às suas capacidades e limites, quando a situação se apresenta.

Além da prática, do treino, o que permite a um guerreiro alcançar a clareza de pensamento é viver com a consciência da sua morte iminente.

Sabe que não vai durar muito.

Jamie tem essa consciência desde o início da história. Com a cabeça a prémio e a memória da violência de Black Jack Randall marcada nas suas costas, sabe que a vida é curta e frágil. E dorme o tempo todo com um punhal debaixo da almofada. É a primeira coisa de que saca ao mínimo sinal de perigo.

Mas, em vez de isso o deprimir, essa consciência condu-lo a uma força de viver impressionante. E que os outros desconhecem. Não há tempo para nada a não ser atos significativos, quando vivemos com a morte como nosso companheiro eterno. Não há tempo para hesitar. A sensação de morte iminente leva o homem que aceder à energia psíquica do arquétipo do guerreiro a ações decisivas. O que quer dizer que ele nunca foge da vida. Não pensa demasiado, porque pensar demasiado pode levar à dúvida, a dúvida à hesitação e a hesitação à inação. Que pode levar à perda da batalha. O homem guerreiro evita a autoconsciência tal como a definimos comummente. O que faz das suas ações reflexos inconscientes. Mas ele treinou para essas ações, exercitando-se com uma autodisciplina notável.

(Continua…)

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