O galo

11/01/2018

Nos galinheiros, só um galo reina. Se algum incauto tentar pôr lá outro, fechar a porta e deitar fora a chave, eles lutam até à morte. Só um sobrevive, sempre.

Na vida dos Homens é mais ou menos a mesma coisa…

Quem nunca viu dois machos na presença de uma mulher que desperta a atenção de ambos? Reparou com certeza que o mais aguerrido incha o peito de ar, tal como os galos, para mostrar, ainda que inconscientemente, que está preparado para ser o galo da vez.

Um dos maiores contributos de Jung para a psicologia foi a descoberta do inconsciente coletivo. O seu maior contributo para o ocidente foi a constatação de que existe um lado masculino em cada mulher (animus) e um lado feminino em cada homem (anima).

Completamente inconscientes, como deve ser.

O (arquétipo do) animus é o Galo na vida de todas as mulheres. Se estiver devidamente integrado, faz a ponte entre a mulher e o mundo. Se não estiver, faz tudo quanto pode para afastar todos os potenciais galos da vida dessa mulher.

Qualquer arquétipo que não esteja integrado degenerou num complexo e funciona como uma possessão. À revelia da consciência, toma o espaço que não lhe compete e faz o estrago correspondente. No dia seguinte, como que livres do efeito de psicotrópicos, perguntamo-nos quem era aquela que disse aquelas coisas. Na pior das hipóteses, identificamo-nos com ela e não nos reconhecemos na nossa natureza feminina, que, inclusive, nos deixa desconfortáveis. E que aflora na presença de um macho que nos interessa.

Na passada quinta-feira, na minha linha de vivência preferida, e se é difícil escolher, dançámos a transcendência. No início, demos a nossa definição da mesma e, durante a aula, o Nuno sugeriu que transcendêssemos a nossa própria definição.

Eu, que a havia racionalizado, ainda que a minha definição seja a psicológica, dei por mim a vivê-la. A dar de caras com o ser feminino em mim, transcendendo não só o ego como dando a volta ao animus para a ele chegar.

E senti-me em casa na minha verdadeira pele

Como se fosse a coisa mais natural do mundo e nenhuma outra tivesse alguma vez existido.

Por todos os motivos e mais alguns, mesmo as mulheres mais femininas exteriormente, somos passíveis de ser prejudicadas pelo nosso animus, que ocupa mais espaço do que o que lhe compete e nos impede de nos relacionarmos, por não nos deixar mostrar quem verdadeiramente somos.

Lembro-me com particular saudade de uma frase do meu terapeuta junguiano de São Paulo e que agora ressoa em todo o meu corpo: Isabel, cara nenhum quer relacionar-se com outro cara…

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