O medo é um péssimo conselheiro

23/10/2018

Ainda sou do tempo em que o arqui-inimigo mortal dos Estados Unidos era a Rússia. Vivi para ver Rocky Balboa derrotar o seu maior rival, russo, e para ver o cinema americano em geral ser usado como propaganda contra os russos, criando a ideia no imaginário coletivo americano, e não só, de que a Rússia era inimigo comum, unindo uma nação inteira, e não só, contra a Rússia. Por medo. medo

Medo da concorrência, de perder poder.

Na época em que ainda se mandava gente para o espaço, a Rússia caminhava juntamente com a América para tentar explorar o que ia além da Terra. Era o único país que o fazia além dos EUA.

Quando temos medo, o mais natural é negar contacto com o que nos ameaça.

Ou, dependendo do tipo de personalidade, tentar aniquilar quem concorre diretamente connosco para o mesmo fim. Tudo o que põe em risco o poder que detemos é potencial alvo a abater.

A concorrência, desde que honesta, é saudável. Obriga-nos a ser e a dar o melhor de nós.

O medo pede proteção.

E não está escrita a quantidade de gente que confunde proteção com controlo…

No outro dia fui a uma consulta com uma médica ortomolecular. Gostei da ideia de ser vista como ser único e individual e não como um conjunto de sintomas a encaixar num diagnóstico. E de ter alguém disposto a ouvir-me. Em vez de querer despachar-me para atender o cliente seguinte. Fiquei lá umas três horas. Num médico tradicional, ao fim de meia hora estaria na rua, com uma receita na mão.

Os russos pegaram numa pessoa saudável, com tudo no lugar, criaram um padrão com base na informação das células do corpo dessa pessoa e usaram como modelo para ver o que estava desequilibrado nas células das pessoas.

Com essa informação, e de acordo com esse programa, veem que células estão acima do padrão e equilibram-nas para corrigir problemas.

Fiquei fascinada com aquilo.

E, depois de pagar uma fortuna pela consulta e outra fortuna em medicamentos naturais para tentar resolver o meu problema, veio-me outra vez à cabeça o tal do medinho da concorrência.

O maior patrocinador da neurose do poder instituído é o sistema.

Que só nos garante descontos no IRS e o patrocínio do SNS desde que alinhemos pela sua cartilha. Tudo o que sai fora, mesmo sendo medicina, é pago a peso de ouro. Descontos esses que, na verdade, já pagamos, com impostos e pagamentos à Segurança Social.

E isso vê-se em todo o lado. Na Academia é escandaloso. Alguém que queira fazer diferente e com resultados verificados, é imediatamente posto de lado. Desencorajado, de certa forma, expulso do sistema.

Mas também noutras práticas. Como a medicina.

O sistema diz que é para garantir seriedade. E não poderia estar mais de acordo. Poucas coisas me tiram mais do sério do que a falta de seriedade e a quantidade de gente que anda para aí a ganhar dinheiro de forma irresponsável, sem saber o que anda a fazer. No entanto, o que há mais para aí é gente certificada sem as mínimas condições emocionais e psíquicas para ajudar quem quer que seja a resolver a sua vida.

Mas uma coisa é garantir qualidade, outra é boicotar tudo quanto nos ameace. E, pior que tudo, mandar a credibilidade, a seriedade, a honestidade, para o espaço desde que possamos garantir o monopólio da atividade que exercemos.

A estagnação é o maior inimigo da psique e do desenvolvimento e crescimento pessoais. E um sistema que pactua com ela é um sistema que não quer ver ninguém crescer. Porque, já se sabe, gente independente e autónoma dificilmente aceita ser controlada.

Agir com base no medo não é agir de forma consciente. Livre. É aceitar ser controlado por inimigos ocultos que só existem no imaginário de cada um. E o maior inimigo do sistema é a liberdade e a autonomia individuais.

A luta é interna, é psíquica. A projeção da sombra num suposto inimigo externo é um desserviço psíquico. É estagnação. É neurose pura e dura.

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