O Mundial

12/07/2018

O Mundial de futebol, como o Europeu, é assim uma espécie de férias. Jogos a toda a hora, equipas muito diferentes, futebol na TV sempre que a ligamos. Tenho muitas e boas memórias de pré adolescência e adolescência, no tempo em que os verões eram intermináveis, havia tempo para tudo, mas eu escolhia ler, exceto quando havia bola. E jogos olímpicos.

O meu pai era aficionado de todos os desportos

E era quem mandava no comando da TV. Nos últimos tempos, adormecia com ele na mão. Por isso, os comandos lá de casa ou estavam todos enrolados em fita-cola à volta da tampa das pilhas. Ou nem tampa tinham. Um clássico.

Lembro-me das horas intermináveis da Volta à França, a Itália, a Portugal… Não conseguiu convencer-me a gostar daquilo. Nem de hipismo, na rtp2, quando não havia mais nada.

Mas convenceu-me a gostar e a perceber de tudo o resto. Fórmula 1, Ténis, quase todos os desportos olímpicos, até luta greco-romana, que só via para o ouvir a rir-se dos atletas com a cara no rabo uns dos outros, e dedos… Só comecei a gostar de atletismo muito mais tarde, que ele via por horas infinitas. E, claro, de futebol, desde sempre, nomeadamente desde 1982, tinha eu 10 anos.

Nunca conseguia fazer grande coisa em tempo de Mundial e Europeu.

E se num momento estou a reclamar que há jogos demais, no minuto em que começam, esqueço tudo e vejo o que posso.

Ainda sou do tempo em que passavam todos os jogos na RTP e era uma festa.

Que havia invasão de campo pelos adeptos e os jogadores ficavam praticamente nus. (Agora, os filhinhos deles brincam no relvado onde os pais disputaram e ganharam jogos. O jogo da vitória da Croácia contra Inglaterra foi a coisa mais bonitinha). E que Portugal raramente chegava às fases finais. E, quando chegava, ficava logo na fase de grupos. Por isso, habituei-me a ver tudo e todos. E a adorar.

No ano em que morreu, e que fomos campeões europeus, fez anteontem dois anos, já não estava aqui, desliguei-me. Não vi muitos dos jogos e parei de escrever sobre os eventos futebolísticos. Costumava cobrir todos os jogos. Mas estava em luto profundo, e tinha mais que fazer.

Este ano, voltei a ver tudo. E a ressaca monumental que se abate sobre mim quando, depois de dias e dias de jogos, deixa de haver é quase insuportável. Conto literalmente os dias para as rondas seguintes, tamanha a crise de abstinência.

De futebol a sério, de atletas a comer a relva, a lutar pelas suas nações. E até a entrar em campo de cabeça aberta e uma faixa em volta, a parecerem queijos da serra. Enfim, daquela garra, daquela paixão, que não se veem nos jogos dos campeonatos nacionais.

Num minuto há jogos todos os dias, no minuto seguinte acordo e já é a Final.

Por mim, havia disto todos os verões. São as minhas férias de mim.

E que a Croácia seja campeã do Rússia 2018.

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