Onde estão as mulheres?*

01/10/2018

Tem a certeza de que conhece as mulheres da sua vida?

Ser mulher é, desde criança, jovem adolescente, ver e sentir o seu corpo inocente ser alvo de olhares lascivos e apenas sentir medo, por sequer saber o que está por detrás desses olhares.

É não saber o que fazer, como responder.

Ser mulher é permitir que a sua inocência infantil, a sua necessidade de afeto e amor, sejam usadas em nome do desejo animal e sexual de rapazes e homens mais velhos. 

Ser mulher é confundir afeto, carinho, com abuso, violência.

Ser mulher é pensar duas vezes antes de decidir o que vestir, por não querer ser abordada na rua com palavras e gestos grosseiros, invasivos e abusivos.

Ser mulher é achar que assédio é culpa sua, de tanto que está enraizado em cada célula do seu corpo, em cada memória coletiva, que os homens fazem o que querem e as mulheres têm de aguentar.

Ser mulher é perpetuar proibições, palavras sem sentido, castigos, ações, a filhas e netas de tanta culpa que carregam por terem um corpo de fêmea, como se fosse culpa sua ou sequer tivesse mal algum.

Ser mulher é aguentar abuso porque é o que é suposto aguentar de um marido, namorado, amante.

Ser mulher é pactuar com segredos, esconder-se, é não assumir um relacionamento por ser a outra e com isso proteger o marido/namorado infiel, em vez de exigir o que é seu por direito, chamando-o à responsabilidade.

Ser mulher é ser insultada por outras mulheres por ser a outra, enquanto o homem segue impune, porque isso é o que um homem é suposto fazer.

Ser mulher é ser chamada puta, vagabunda, vaca, ordinária, por transar com vários homens. Quando o contrário, um homem que transa com várias mulheres, é um herói e inclusive alvo de cobiça por outras mulheres, que só sabem valorizar-se assim.

Ser mulher é ser oprimida apenas porque se nasceu com o sexo errado.

Ser mulher é ter de adotar atitudes e vestuário masculino para ser respeitada na rua, no local de trabalho, às vezes, até em casa.

Ser mulher é ser constantemente rebaixada na sua condição, porque está de tpm, assim, assado. Condição essa contra a qual não há o que fazer. E por que haveria?

Ser mulher é ser constantemente desvalorizada, porque fica grávida, porque tem filhos, porque é emocional, por cada uma das suas escolhas.

Ser mulher é ser invadida o tempo todo, com olhares, palavras, gestos, abordagens de homens que acham que são os únicos a fazê-lo. Na rua, nos transportes públicos, em todo o lado há gajos que acham que podem sentar-se à frente de uma mulher e bater uma. Na minha vida, conto três. Uma era uma criança e nas outras duas tinha mais de 30 anos. Ser mulher é ter medo e vergonha de admitir isto em público.

Ser mulher é andar permanentemente com medo.

Ser mulher é muitas vezes sequer saber expressar-se, apesar de sentir em cada poro do seu corpo que algo não está certo. É ver-se amordaçada na sua expressão, por não ter força física ou emocional para travar o que a violenta. Por séculos e séculos de patriarcado.

Patriarcado esse que leva um sem número de mulheres a perpetuar a mesma lengalenga.

A permitir e a pactuar que mais e mais mulheres sofram o que elas sofreram, por ignorância ou sei lá por que tipo de neurose.

Ser mulher é aguentar barbaridades em nome de um casamento, porque só assim, com um homem ao lado, as mulheres são muitas vezes valorizadas e tidas em conta. Não somos propriedade de ninguém, como ninguém o é, nem os filhos. Mas, se aparecemos sozinhas somos umas putas oferecidas ou umas desgraçadas em quem ninguém pega.

Nós não queremos ser vítimas, nós não somos vítimas, nós não odiamos os homens, eu, em particular, adoro-os. Mas estamos fartas de negar, esconder e violentar a nossa essência para sermos aceites.

Chega.

*Na sequência deste artigo da Eliane Brum

 

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