Os Heróis e o Cinema

13/06/2018

O cinema segue sendo o meio mais eficaz para veicular informação e retratar momentos e movimentos sociais, psicológicos, culturais. Como tal, e apesar de usar arquétipos, o que quer dizer que temas e personagens, heróis incluídos, são universais e existem desde os primórdios dos tempos, acompanha as questões que estão debaixo de foco social. Na verdade, quase se antecipam. 

Prova disso são os filmes para crianças, da Pixar/Disney.

Como o Brave (2012), Inside Out (2015) Maleficent (2015) Moana (2016), Coco (2017), que desconstroem estereótipos arquetípicos de meninas dependentes e frágeis, aludindo a deusas vulneráveis, que precisam do relacionamento para sua realização, substituindo-as por outros, como o de Artémis (Brave e Moana), deusa independente. Que apelam ao equilíbrio entre o matriarcal e o patriarcal, humanizando a mãe (Maleficent), que humanizam os heróis, considerando emoções como medo, raiva, tristeza (Inside Out). Ou que exultam valores como o da família, em vez da conquista épica, o da colaboração, e não do individualismo, o da humildade (Coco).

Os filmes, os desenhos animados, são o primeiro contacto que as crianças têm com os símbolos do inconsciente coletivo e a primeira forma pela qual apreendemos conhecimento. O reconhecimento psíquico pelo símbolo tem um impacto mil vezes maior do que o que apreendemos pelo intelecto. Por ser inquestionável, não estar ao alcance da dúvida do ego. O que apreendemos pela arte – seja ela a música, o cinema, a literatura, que ressoa e nos transforma, nos traz paz, tranquilidade, reconhecimento, ainda que não consigamos explicar intelectual ou racionalmente, e que nos outros não tenha o mesmo impacto – é inquestionável, mesmo que não encontre eco nos outros.

O ego sucumbe sempre perante algo que se encaixa emocionalmente.

E o mesmo acontece com os filmes para adultos. Independentemente do género, que, na verdade, é o jeito pelo qual recebemos, aceitamos e acolhemos informação. E, por isso e nesse sentido, é eficaz, gostemos ou não. Apreender conhecimento de forma lúdica, criativa, intuitiva, sem necessariamente infantilizar, continua a ser a forma mais inteligente de passá-lo.

Nada de bom se consegue à força, negando essência e alma. Nada…

Os arquétipos continuam então a refletir temas e potenciais comportamentais, e a acompanhar os tempos. As necessidades sociais.

E hoje, é clara a substituição dos heróis épicos pelos heróis humanizados. Homens e mulheres, que, por sua vez, são representadas de forma cada vez mais autónoma. Não descurando ou negando o relacionamento, que faz parte da vida. Mas substituindo o padrão arquetípico. Que antes era de vulnerabilidade (Hera, Deméter e Perséfone), que já foi de independência (Artémis, Atena e Héstia) e que cada vez mais é alquímico, Afrodite, que reúne características de ambos os tipos de consciência: relaciona-se, mas não depende de um homem para se sentir realizada, para ser salva… Sendo livre para escolher. Saiba mais

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