Ossos

07/03/2019

Há uma cena na mitologia grega em que os deuses estão reunidos à mesa com os homens e Zeus encarrega Prometeu de arranjar maneira de definir os privilégios entre eles. Prometeu desencanta um boi enorme, sacrifica-o e divide a parte para dar aos deuses e a parte que cabia aos homens. Que definiria o estatuto de uns e de outros. Prometeu esquarteja o bicho e separa os ossos da carne. Na travessa dos ossos, cobre-os com a gordura mais apetitosa e suculentas. Na travessa das melhores carnes, cobre-as com as partes mais repelentes. E dá a Zeus para escolher. Zeus escolhe a primeira e fica furioso ao descobrir que Prometeu o enganou.

À primeira vista, o comum mortal também se congratula com a ousadia.

Mas quem precisa constantemente de comer são os homens, não os deuses. Afinal, o que Prometeu deu a Zeus foi a força animal, a eternidade. Os ossos são a única coisa que fica da existência, a força vital, que nunca morre.

Zeus, provavelmente, teria escolhido os ossos…

A capela dos ossos, em Évora, cuja frase muito divertiu o meu forever sweetheart, diz o mesmo: Nós, que aqui estamos, pelos vossos esperamos.

Um dos melhores livros que li sobre escrita chama-se precisamente: write down the bones. Escreve até aos ossos. Fura tudo até lá chegares.

Aí está a tua verdadeira voz.

E a junguiana Jean Shinoda Bolen usa a mesma referência para distinguir o que é conhecimento intelectual do que é conhecimento que vai além da explicação racional, aquele que nós sabemos que é nosso, e só nosso, porque o sentimos nos ossos. É difícil de explicar, de ser partilhado ou entendido com quem não o sente em todo o corpo, até aos ossos…

A água mais gelada é a que nos dói nos ossos…

O conhecimento arquetípico dos padrões existenciais dos deuses gregos, os seus arquétipos, fala-nos diretamente aos ossos. É de pura existência que se trata. A que vai além das exigências sociais, do ego, da persona. É a nossa verdadeira natureza e contém tudo de que precisamos para nos sentirmos nós. De verdade, sem buracos ou vazios existenciais.

*Conheci o texto da imagem no Outlander, um dos momentos mais épicos da relação dos dois.

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