Outlander e a cultura da violência

24/10/2018

A reação de Claire ao som dos disparos das armas do exército escocês, que se prepara para enfrentar os britânicos na batalha de Culloden, bem como à preparação conduzida por Murtagh, fez-me lembrar uma conversa que tive hoje com um amigo brasileiro, que resumi na cultura da violência.

Claire viveu os horrores da segunda guerra. E não está preparada para outra.

Um dos candidatos à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, defende, tal como Trump, autênticos atentados contra a democracia e os direitos humanos. Inclusive o porte de arma.        

Perguntava-lhe como era possível.

Como é que o candidato ainda não tem um processo, ou vários, nas costas. E como se permite que continue na corrida à presidência. São atropelos constitucionais, incitamento ao ódio e à violência, e crimes de todo o tipo, uns atrás dos outros. Não é suposto um presidente ter ficha limpa pelo menos até chegar ao cargo?

Respondia-me que Bolsonaro já tem processos por conta dos absurdos que dizia, mas tinha imunidade parlamentar, teve que pagar multas para fundos difusos de direitos da mulher negro etc., à parte disso, esses crimes eleitorais são “menores” e na justiça brasileira tudo demora.

Insisti…

Mas essa imunidade parlamentar mantém-se na corrida à presidência? Um atentado à democracia é um crime menor? É um crime eleitoral? Não é anticonstitucional? É estranho que esse movimento não possa ser travado. Individualmente, enquanto cidadão, pode defender o que quiser, dizer as barbaridades que lhe apetecer, e ser responsabilizado por elas, inclusive criminalmente. Mas as afirmações dele esta semana, pelo que vi ontem nas notícias aqui, seriam suficientes para não ter competências para se candidatar ao cargo…

Via providência cautelar…

Não sei qual o termo jurídico brasileiro para isto, mas é algo que impediria a candidatura por motivo de perigo iminente contra a democracia… entre outros… As coisas que ele defende, que diz que vai fazer, são crime, afinal…

Responde-me que: tradicionalmente, o povo brasileiro gosta de candidato durão (A Dilma era durona) e que grita. E tão pouco vivemos revoluções de cunho político…

É facto que ninguém é melhor do que ninguém, e há gente desequilibrada em todo o lado. Na Europa, em Itália, Hungria e Holanda, os movimentos de extrema-direita têm surgido cada vez mais. Mas há limites no discurso e até a maluca da Le Pen já veio dizer que o Bozo se estica e que não é admissível o seu discurso.

A minha questão é de perplexidade perante o tipo de discurso de um futuro presidente.

Uma coisa é ser durão, outra é ser criminoso. E incitar ao ódio e à intolerância. Pondo em causa a democracia e valores absolutamente inquestionáveis como os que se prendem com os direitos humanos. Isso é sagrado. Trump choca pelo mesmo motivo. O da total e absoluta irresponsabilidade social e política.

Tal discurso é inadmissível na Europa.

Talvez por ser o velho continente e esse tipo de discurso já não se admitir, por causa do histórico europeu do século XX. E do resultado absolutamente devastador, como o holocausto.

Primeiro a Sociedade das Nações e depois a ONU foram criadas precisamente por esse motivo. Evitar a guerra a todo o custo.

Espero que o Brasil, enquanto nação, não mais precise da barbárie para chegar ao equilíbrio. Ao estabelecer de limites intransponíveis e sagrados. É como se o Brasil e os EUA fossem adolescentes e a Europa fosse madura, no quesito consciência.

Está, por exemplo, absolutamente estabelecido que jamais pode vir a acontecer, a repetir-se, o que aconteceu na segunda guerra. Isso é ensinado a todas as crianças na Alemanha. Talvez por isso, a Europa não corra esse risco, de certa forma, porque a guerra está muito presente na memória coletiva dos europeus.

Talvez a guerra, as duas, tenham tido esse propósito último, essa consequência para o futuro do continente…

Até a revolução aqui foi desarmada, apesar de ter partido do exército. Os golpes – tanto o 25 de abril quanto o 25 de novembro, que restabeleceu a democracia, de facto, aqui – não são armados. O que faz toda a diferença.

Mais uma vez, o desarmamento, o facto de não haver armas na rua, é o que nos distingue. Não há culto da violência na Europa, como há no Brasil e nos EUA, com a possibilidade de qualquer um andar armado.

Estima-se que haja 14 milhões de armas ilegais, segundo reportagem de ontem da SIC, a circular no Brasil.

Os atentados terroristas na Europa são inaceitáveis muito por isso. Nós já tivemos o nosso tempo de barbárie.

As fake news e a ditadura do like e do clickbait abundam por aqui também. Mas há, de certa forma, um limite à violência. E nem mesmo a economia e o mundo empresarial seria capaz de apoiar um candidato que dissesse o que o Bozo diz. Essa empresa iria falir em três segundos.

Mesmo que, isoladamente, as pessoas, individualmente, digam as maiores barbaridades na internet, há, coletivamente, um limite estabelecido. Ainda que inconsciente.

Qualquer um que dissesse o que Bozo diz seria trucidado publicamente. E as instituições encarregar-se-iam de impedir que chegasse sequer a candidatar-se a um cargo público. E, caso isso acontecesse, seria absolutamente trucidado nas eleições.

Leandro Karnal, no artigo de hoje do Estadão, fala nessa cultura da violência, que se extrema em períodos eleitorais.

Só isso justifica que haja mulheres a fazer aquele gesto da arma em público. Não é possível que quem tenha filhos ou possa gerá-los defenda uma estupidez dessas. Não pense no futuro dos filhos, não queira uma sociedade sem violência. Parece que o povo não percebe que a coisa funciona para os dois lados… Que a arma que usas hoje vai matar o teu filho amanhã.

“Quem assumir a presidência vai pegar um país dividido, infelizmente. Nenhum apresentou um discurso de união. É como se o barco afundasse só de um lado… isso não existe”.

É inadmissível um Bolsonaro como é inadmissível um candidato que defende a ditadura de Maduro. Por isso é tão difícil a escolha dos brasileiros no próximo domingo. E eu não queria estar no vosso lugar…

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