Outlander e o consentimento

03/11/2018

Já perdi a conta à quantidade de conceitos que Outlander me fez repensar. Um deles foi o do consentimento.

Ninguém muda de ideias, ou vê a mesma coisa por um prisma diferente, por causa de outrem. Só mudamos quando estamos psíquica e emocionalmente estruturados para mudar. Para aceitar, ver a mesma questão de outro jeito. Sem medo que nos afete a identidade.  consentimento

Sou das que acha que, na boa e velha arte da sedução, giro, giro é o não dito, a aventura dos sentidos. O que fica no ar, o ir indo até ver. O tatear. O toque leve e o ligeiro tremor que gera. A pista que fica no ar. A piada que esconde a luxúria que o olhar não disfarça. O sorriso silencioso do entendimento, da sintonia. A conquista, milímetro a milímetro, do espaço que dista entre os amantes. Num beijo, um afago, uma ligeira provocação…

A imaginação é uma das minhas maiores virtudes.

Depois, impera, tem de imperar, a conexão. Mesmo que a vontade seja a da satisfação pessoal, que é sempre, bom mesmo é a sintonia entre os amantes. O conforto de ambos, o prazer mútuo. A fusão… Caso contrário, fazíamo-lo sozinhos…

O consentimento está, então, implícito.

Na boa e velha arte da sedução, achava que, quando interrompida para perguntas tipo posso isto, posso aquilo, todo o entusiasmo se vai. Não é sexy, como dizia aquele personagem de The Affair. Um verdadeiro corta-tesão, digo eu… Quanto menos paleio, melhor…

Claro que se for um Jamie Fraser é mais fácil de acolher…

Ouvimos melhor quando o interlocutor é atraente… O que serve apenas para captar a nossa atenção. Se não convencer, não há Jamie que nos valha. Mas Jamie convence…

A verbalização é, então, um ato de respeito, de amor, de confiança, de uma imensa coragem. Jamie vulnerabiliza-se quando faz a pergunta. Depende da aprovação da outra. Estando, aparentemente, numa posição de inferioridade.

Esse é o grande erro que cometemos quando achamos que a vulnerabilização é uma rendição, um ficar na mão do outro.

A pergunta: posso tocar-te, posso dar-te um beijo, implica um assunção de vontade, de querer. E não há nada mais poderoso do que a assunção seja do que for. O poder volta para mim, quando eu assumo que gosto, quero, desejo. Esse gostar, esse desejar, essa luxúria, esse amor, essa paixão são meus, afinal.

E quando a gente assume o que quer, e o outro faz o mesmo, há responsabilidade no ato. Ninguém é omisso. Não há lugar a queixas. A insatisfação, a vazio… Que é o pior que nos pode acontecer depois do sexo. Um momento em que nos permitimos doar-nos ao outro, da forma mais íntima que nos é possível, sair com a sensação de vazio emocional é uma violência sobre a nossa alma. A nossa identidade.

Quando assumimos o que queremos, quem somos, como queremos, há, isso sim, um relacionamento, um caso, maduro, em que cada um sabe exatamente o que o outro gosta e não gosta, aceita, tolera e repudia. O que esperar dele e não esperar.

O que, parecendo que não, é poder pessoal.

Trazemos para nós a decisão sobre o que nos deixa e não deixa confortáveis. Só assim o relacionamento pode crescer, e cada um pode desenvolver-se mais e mais. Usando o outro como espelho, permitindo que nos traga notícias de nós…

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