Outlander e o #Metoo

30/10/2018

Foi preciso ver, primeiro em Mary, depois em Fergus, o efeito que a violação e o abuso sexual provocam nas suas vítimas. E assim conseguir estabelecer uma ligação com o movimento #metoo.

O pior das vítimas de abuso sexual é o sentirem se envergonhadas, e muitas vezes culpadas, pela violação. Já não basta a violência física e psicológica de que foram alvo, ainda se torturam com pensamentos horríveis, muitas vezes, a vida toda. Por isso, muitas vezes se calam. 

Só terapia salva da autotortura

Foi preciso ver Outlander para ganhar essa consciência. A do risco inerente ao trauma sofrido pelo abuso, nomeadamente no que se refere a relacionamentos de todo o tipo.

Não desconsidero obviamente a violência, que repudio em absoluto, interessa-me mais a consequência da mesma.

Como influencia a vida de homens e mulheres

A falta de autoestima, que é sempre uma consequência de algo, e não a causa em si, de autoconfiança, de força emocional. O quanto dita o futuro dos relacionamentos destas pessoas. O que determina e não determina intimidade. O que se faz com essa intimidade, quando foi violentada do pior jeito possível. Como a definimos. O que as pessoas vão aguentar nos seus relacionamentos, por falta de elaboração psíquica do ato. Que irá conduzir a uma pacificação com a parte de nós que se culpa. O que irão permitir-se, por não terem verbalizado o que as consumia.

As reações do público em relação a quem se chega à frente para denunciar abuso refletem muitas vezes a culpa que as vítimas sentem.

É preciso elaborar a culpa, que, obviamente, não é sua. A vergonha. Até à pacificação absoluta e irreversível com quem na sua cabeça acredita e se culpabiliza pelo ocorrido.

Até à maturidade psíquica

Deixando crescer a pessoa que permanece infantilizada nessa área da sua vida. Que se sente impotente, incapaz de enfrentar o seu agressor. De um jeito adulto.

Não querendo reparar, porque é impossível, mas pelo menos recuperar a autonomia psíquica que se perde sempre que nos vitimizamos e permanecemos na consciência da vítima.

Esta é a verdadeira importância do movimento #metoo

Se este movimento conseguir que as vítimas de abuso saiam da consciência da vítima de forma a permitir mais autonomia emocional, vale por tudo e todos quantos buscam poder sobre os demais pela via da vitimização.

Parafraseando Jung: eu não sou o que fizeram comigo, mas o que fiz com o que fizeram comigo.

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