Outlander

28/02/2017

Na segunda temporada de Outlander, há uma cena em que uma miúda, adolescente, que tinha sido violada e portanto desonrada e perdida para sempre, encontra o seu violador, o homem com quem iria casar-se, por ordem do padrinho, por não ter muito por onde escolher. A miúda não sabe que iria casar-se com o homem que a desonrou. Até Claire, Sassenach, inglesa em gaélico, reparar na mancha da mão do homem e o reconhecer.

outlander

Nisto, aparece o escocês gato que vai salvar as laides em apuros.

Já depois de ter aviado umas murraças valentes na tromba do violador – só se perderam as que caíram no chão, deus me perdoe, mas quem é ogre só deve entender essa linguagem, e a merecer -, o escocês gato de seu nome Jamie lida agora com o chefe das operações, o padrinho da miúda que havia encomendado o assalto.

No meio desta confusão, a miúda tinha agarrado numa faca e, pela cara dela, deu para perceber que tinha tido uma boa ideia. Possuída por uma força maior que a deixava calmíssima, dirigia-se para o homem que a tinha violado e se levantava a custo, depois do aviamento do escocês gato. Sem hesitar, espeta-lha no flanco e acho que o mata.

E eu fiquei com uma sensação boa

Não que defenda o olho por olho e que resolvamos a vida à naifada. Para alguma coisa a civilização há de ter servido. Mas, ao menos, aquela miúda não se convenceu de que era uma vítima. Indefesa, incapaz de enfrentar quem a quer comer viva, de se defender. Pelo menos aquela miúda não vai passar o resto da existência a fugir da vida porque sofreu um ataque do qual não teve mesmo como se defender. Mas não deixa que aquele momento a defina e acima de tudo a convença de que é indefesa.

É menos um abusador no mundo e mais uma mulher que, um dia, quando for preciso, há de lembrar-se que é pessoa para se bater de igual para igual, talvez não tanto pela força física, mas algum jeito há de arranjar, o feminino. Para ser quem determina a vida que quer viver, não permitindo que um animal qualquer o faça.

O pior que há na vida de um ser humano é o convencer-se de que é incapaz de uma série de coisas porque algum cobarde, controlador e infeliz que não consegue viver sem atazanar a vida alheia para se sentir minimamente gente assim o determina.

E o mundo está cheio disso.

Aliás, para além da música do genérico, de ingleses gatos de uniforme real e de escoceses gatos de tronco nu e kilt, o melhor de Outlander é a transformação do feminino, em 1743. As melhores cenas têm a ver com isso, como quando Sassenach, que ainda por cima é a protagonista, aparece com um vestido vermelho altamente decotado para ir a uma festa; uma mulher tira os pelos com cera e ainda Sassenach põe o marido escocês gato na ordem quando este tenta tratá-la como uma vaca parideira. É bonito de se ver…

error: Content is protected !!