Indiozinho

08/08/2017

Num manuscrito de um livro que julgava pronto e a que não sei o que fazer vem uma referência à minha predileção pelos índios. No momento em que o escrevi, ainda não tinha ido à Amazónia. O que quer dizer que a fantasia que tinha criado em relação a eles estava intacta.

Depois da Amazónia, o meu entusiasmo refreou um bocadinho.

Já não fantasio viver numa casinha na árvore com um. Mas continuo a achá-los lindos. E, secretamente, a querer um indiozinho só para mim. A melhor combinação genética que conheço: índio, negro e português. indiozinho

Este fim-de-semana, deparei-me com um, lindo, os olhos, o nariz, a boca, o tom de pele, o físico, perfeito. Lamentavelmente, tinha idade para ser meu filho, por isso não me despertou instintos libidinosos. Mas não consegui deixar de ficar fascinada a olhar para ele, de uma beleza infinita, como certo índio por quem me apaixonei um dia.

Uma simpatia, perdeu o sotaque brasileiro mas o charme é-lhe inerente. Pedi-lhe para tirar uma foto e, quando lhe disse que era lindo, agradeceu-me educadamente, tratando-me por senhora.

Não tenho culpa de na minha cabeça ainda ter 30 anos… E a foto não lhe faz jus. É daqueles casos de pessoas em que o sorriso não melhora. Mas, como bom brasileiro que se preze, não resiste a sorrir.

Grandes feitos heróicos

07/08/2017

vidaEste fim-de-semana, o meu irmão mais novo publicou um vídeo que havia feito há quase dez anos por ocasião do aniversário redondo dos nossos pais. Revi-o e, para além de chorar e rir ao mesmo tempo como nunca, fiquei com a sensação de que a vida afinal era aquilo.

Make it through the day

Expressão inglesa de que gosto muito e que resume a ideia de que o grande ato de heroísmo é sobreviver.

Aos desaires, aos desafetos, aos desamores; às drogas, ao álcool, à comida em excesso, aos cigarros; aos sogros, aos cunhados, aos colegas sacanas e aos chefes tirânicos; à prestação da casa, às contas da luz, às férias das crianças, ao seguro do carro, às contas do dentista; às vontades individuais, aos desejos narcísicos; aos ímpetos, às tentações da carne; aos motins psíquicos, à tirania dos filhos, aos amigos de um, de outro e dos dois. Ao fim da paixão, da ilusão, do enamoramento. Aos monstros que habitam em cada um. Às heranças familiares emocionais de um e de outro. Às perdas e aos ganhos. Às obsessões e às compulsões. Às expectativas e aos ideais. Às castrações e às decisões de todos os dias.

Juntos, até que a morte os separe.

E que a fantasia tem a sua função, é preciso uma certa dose de ilusão para aguentar, mas não pode determinar os rumos do coração, castrar a alma ou arruinar o sonho.

Muito menos ditar a vida, que é soberana e impiedosa.

Late Date

07/08/2017

Coloro todos os dias; não sei muito bem como fazer um livro para colorir. Também coloro o cabelo a cada três semanas, um mês no inverno, serve? De resto, não, não tenho mimado o meu artista-criança com paixões infantis, lamentavelmente. A não ser as que me despertam todos os dias, de geração expontânea, basta-me existir…

colorir

Artist’s Date 213/365 – Make a coloring book

É verdade. Valoriza-se pouco a alegria no lar, no relacionamento, nos companheiros de estrada e de cama. Ainda que a arte venha eventualmente de um sítio sofrido – vem sempre de um questionamento, de uma angústia – e o processo criativo seja doloroso por causa disso, também o é prazeroso, e muito. Prazer esse que tem pouco a ver com práticas sadomasoquistas e muito a ver com o prazer da conquista, que vem naturalmente depois de muita dor.

Emocional, psicológica, física, às vezes, existencial, seguramente.

Não sou adepta do sofrimento, não concordo e repudio absolutamente que só com ele chegaremos ao reino dos céus. Recuso-me a pactuar com esse tipo de vida e de escolha. Sei que faz parte e considero-o apenas e justamente nessa medida. Em mais nenhuma outra. Jamais para manipular. Deus me livre de campeonatos de sofrimento, cada vez tenho menos paciência, e de menosprezar o prazer em detrimento do dever.  Aprendi assim, primeiro o dever depois o prazer e acho que faz sentido, desde que haja prazer.

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O Casal Dinamarquês

06/08/2017

Ontem, na minha saída noturna sazonal, estive na Ribeira das Naus onde ainda não tinha estado desde que se modernizou.

Estava com três amigas, a uma delas um rapazinho pediu para lhe tirarem uma foto e à namorada. Só nesse momento reparámos o que tinham preparado, e por isso o afastamento entre ambos. Ali, no meio da rua, de frente para o rio, em cima da pedra onde eles mesmos estavam sentados, havia queijo, vinho e outras iguarias dispostas com o requinte e a delicadeza dos apaixonados. Dos que têm todo o tempo do mundo e uma apetência para a beleza, a poesia. Podia ser uma cena de cinema…

Aproveitei e pedi à Inês que lhes tirasse uma foto com o meu telefone. Não é todos os dias que nos devolvem a esperança na humanidade.

A juventude, pelo menos a dinamarquesa, não está perdida.

E os miúdos eram lindos.

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