Feminismo

03/10/2018

A imagem é a capa da revista Utne Reader, de Maio de 1967, com chamada para um artigo cujo título é:

o que é o feminismo hoje? feminismo

Na tentativa de definir feminismo, muitas das que se dizem feministas acabam a estrangular verbalmente muitas mulheres. Votando-as ao isolamento quando defendem causas e acusam mulheres de serem machistas por não subscreverem que uma mulher feminista e feminina é apenas o que dizem ser. Prejudicando mais do que contribuindo para a causa. Tentando inclusive afastar os homens da mesma.

Definindo o feminismo de acordo com a sua própria definição do que é ser mulher.

Quando fariam melhor se trouxessem os homens para o debate. Os incluíssem no processo, para que estes integrem as características do feminino nas suas consciências. Ajudando as mulheres a integrar o masculino nas suas próprias consciências.

Nos anos 60 como hoje…

Uma mulher não é menos mulher porque se casa e vive para o marido e o casamento. (Hera)

Uma mulher não é menos mulher porque escolhe ser sexualmente livre, sorrir, sentir-se bem no seu corpo, maquilhar-se. (Afrodite)

Uma mulher não é menos mulher por querer ser apenas mãe, como se fosse pouco. Por escolher ficar em casa a cuidar dos filhos e a cozinhar (Deméter).

Uma mulher não é menos mulher, nem lésbica, por não depender de homem nenhum, sequer de um relacionamento, para se sentir realizada. (Artémis)

Uma mulher não é menos mulher por se dedicar exclusivamente à carreira, optando por não ter filhos. (Atena)

Uma mulher não é menos mulher, nem bruxa, por ser introspetiva, quase infantil, por ter uma conexão com o inconsciente de onde obtém conhecimento e sabedoria, que não é menos conhecimento e menos sabedoria por não ser cientificamente provado. (Perséfone)

Uma mulher não é menos mulher por querer ficar em casa, não gostar de discutir os assuntos do mundo, preferir ficar na sua, ser sábia, de confiança, reclusa (Héstia)

Uma mulher não é menos mulher por fazer as suas próprias escolhas, mesmo que vão contra o que achamos pouco digno, superficial, uma perda de tempo.

Muito menos ser socialmente ostracizada pelas escolhas que faz.

Ou prejudicada no seu trabalho pelo simples facto de ser mulher.

Ser feminina, e feminista, é abraçar todas as causas das mulheres. É protegê-las, no sentido de as orientar, quando não têm idade ou maturidade emocional para tal. E, ainda assim, deixá-las livremente decidir o que é melhor para si. Sem paternalismo. Sem procurar controlar ou exercer qualquer tipo de poder sobre as suas companheiras de género.

Por mais que nos custe….

E a única coisa a fazer é dotar todas as mulheres de força emocional para que possam dizer sim, não, talvez ao que quiserem.

[Guest Post] Por um ativismo interior*

02/10/2018

*Por Rita Morgado, ontem.

Hoje mudei a foto de perfil da minha página de facebook para uma imagem negra. Aderi, portanto, a uma campanha que pretendia expor o abuso e a violência sobre as Mulheres, “eliminando as caras de Mulheres” do facebook para que se entendesse o quão pobre e triste ficaria o Mundo sem elas. 

Como os tempos têm sido demasiado polarizados e é essa polarização que nos tem devolvido tanta violência, queria esclarecer algumas coisas e talvez até ajudar à melhor compreensão do meu post da semana passada

(“Aos Homens e Mulheres da minha geração”).

Falei nesse post de um desequilíbrio ancestral das energias femininas e masculinas e da falta de Feminino fora e de Masculino dentro. Falei propositadamente em Feminino e Masculino e não de Homens e Mulheres. E porquê? Porque, como expliquei na intro do meu post, estas polaridades estão presentes nas psiques dos Homens e nas psiques da Mulheres e, por isso, este trabalho de reequilíbrio é uma responsabilidade de ambos os géneros.

Claro que a falta de equilíbrio destas energias internamente depois se reflecte fora (nas nossas relações, vidas, comunidades, sociedades, etc) e assim, penso que será útil concretizar de que forma isto se poderá traduzir, agora sim, nos Homens e nas Mulheres. Ler Mais…

Onde estão as mulheres?*

01/10/2018

Tem a certeza de que conhece as mulheres da sua vida?

Ser mulher é, desde criança, jovem adolescente, ver e sentir o seu corpo inocente ser alvo de olhares lascivos e apenas sentir medo, por sequer saber o que está por detrás desses olhares.

É não saber o que fazer, como responder.

Ser mulher é permitir que a sua inocência infantil, a sua necessidade de afeto e amor, sejam usadas em nome do desejo animal e sexual de rapazes e homens mais velhos. 

Ser mulher é confundir afeto, carinho, com abuso, violência.

Ser mulher é pensar duas vezes antes de decidir o que vestir, por não querer ser abordada na rua com palavras e gestos grosseiros, invasivos e abusivos.

Ser mulher é achar que assédio é culpa sua, de tanto que está enraizado em cada célula do seu corpo, em cada memória coletiva, que os homens fazem o que querem e as mulheres têm de aguentar.

Ser mulher é perpetuar proibições, palavras sem sentido, castigos, ações, a filhas e netas de tanta culpa que carregam por terem um corpo de fêmea, como se fosse culpa sua ou sequer tivesse mal algum.

Ser mulher é aguentar abuso porque é o que é suposto aguentar de um marido, namorado, amante.

Ser mulher é pactuar com segredos, esconder-se, é não assumir um relacionamento por ser a outra e com isso proteger o marido/namorado infiel, em vez de exigir o que é seu por direito, chamando-o à responsabilidade.

Ser mulher é ser insultada por outras mulheres por ser a outra, enquanto o homem segue impune, porque isso é o que um homem é suposto fazer.

Ser mulher é ser chamada puta, vagabunda, vaca, ordinária, por transar com vários homens. Quando o contrário, um homem que transa com várias mulheres, é um herói e inclusive alvo de cobiça por outras mulheres, que só sabem valorizar-se assim.

Ser mulher é ser oprimida apenas porque se nasceu com o sexo errado.

Ser mulher é ter de adotar atitudes e vestuário masculino para ser respeitada na rua, no local de trabalho, às vezes, até em casa.

Ser mulher é ser constantemente rebaixada na sua condição, porque está de tpm, assim, assado. Condição essa contra a qual não há o que fazer. E por que haveria?

Ser mulher é ser constantemente desvalorizada, porque fica grávida, porque tem filhos, porque é emocional, por cada uma das suas escolhas.

Ser mulher é ser invadida o tempo todo, com olhares, palavras, gestos, abordagens de homens que acham que são os únicos a fazê-lo. Na rua, nos transportes públicos, em todo o lado há gajos que acham que podem sentar-se à frente de uma mulher e bater uma. Na minha vida, conto três. Uma era uma criança e nas outras duas tinha mais de 30 anos. Ser mulher é ter medo e vergonha de admitir isto em público.

Ser mulher é andar permanentemente com medo.

Ser mulher é muitas vezes sequer saber expressar-se, apesar de sentir em cada poro do seu corpo que algo não está certo. É ver-se amordaçada na sua expressão, por não ter força física ou emocional para travar o que a violenta. Por séculos e séculos de patriarcado.

Patriarcado esse que leva um sem número de mulheres a perpetuar a mesma lengalenga.

A permitir e a pactuar que mais e mais mulheres sofram o que elas sofreram, por ignorância ou sei lá por que tipo de neurose.

Ser mulher é aguentar barbaridades em nome de um casamento, porque só assim, com um homem ao lado, as mulheres são muitas vezes valorizadas e tidas em conta. Não somos propriedade de ninguém, como ninguém o é, nem os filhos. Mas, se aparecemos sozinhas somos umas putas oferecidas ou umas desgraçadas em quem ninguém pega.

Nós não queremos ser vítimas, nós não somos vítimas, nós não odiamos os homens, eu, em particular, adoro-os. Mas estamos fartas de negar, esconder e violentar a nossa essência para sermos aceites.

Chega.

*Na sequência deste artigo da Eliane Brum

 

Haddad x Bolsonaro

29/09/2018

Quem não vive debaixo de uma pedra tem acompanhado a campanha eleitoral para a presidência do Brasil nas redes sociais e nos meios de comunicação social e, por isso, sabe que o Brasil corre o sério risco de eleger Bolsonaro (PSL) na segunda volta, caso este passe com Haddad (PT). Eleições-Brasil-2018

A coisa está de tal forma polarizada no Brasil, desde o impeachment de Dilma, que os outros candidatos, entre eles Ciro Gomes, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Lima, quase desapareceram do debate político em nome das hashtags #Elenão e #Elesim.

Bolsonaro é um ex-militar que defende crimes contra a Humanidade. Haddad é PT, o candidato do Ex-presidente preso por crimes de corrupção, entre outros.

Aquando da eleição de Trump, e indo um pouco além da histeria coletiva, perguntei-me, como já me havia perguntado aquando dos movimentos de candidatos de extrema-direita e de extrema-esquerda às eleições europeias, bem antes de Trump ganhar as eleições nos EUA, o que leva um povo a votar num líder extremista. Principalmente tendo em conta a História recente da Europa e não só, haja em vista o extremismo que se vê, e se viu, também na América Latina e na China.

Mas ninguém quer saber as causas de fundo

Por implicar uma reforma inteira do sistema. Por acabar com a neurose de poder.

Ninguém está preocupado em tentar perceber o que as pessoas querem, precisam, sentem, quando se arriscam a votar num extremista.

E a ignorar tudo quanto não é do seu agrado, que vai contra os valores mais básicos de um ser humano. Sendo extremista, acusando uns e outros exatamente do que dizem ser contra. Em nome de uma suposta ideologia.

O mesmo povo que elegeu Trump, elegeu Obama. O mesmo povo que elegeu Lula da Silva, está prestes a eleger Bolsonaro. É o mesmo povo.

Bolsonaro representa o arquétipo paterno na sua polarização negativa: ordem, autoritarismo, militarismo. Já vimos o resultado, o nazismo é a maior ferida da Europa e começou assim. Haddad, a polarização do arquétipo materno, proteção, desresponsabilização, dependência. Resultado que também conhecemos. A ex-URSS é dele o maior exemplo. Até hoje, os países que a compunham estão a recuperar de 50 anos de ditadura comunista-socialista. E não consta que tenham sido felizes.

Por isso, nenhum dos extremos serve ao Brasil.

O primeiro, porque lhe falta humanização. O segundo, porque pretende continuar a manter um povo dependente do Estado, sem alternativa à autonomia individual, à capacidade de decidir pela sua cabeça o que quer, à verdadeira liberdade. A co-dependência, que interessa sempre, por manter um povo inteiro refém. Nomeadamente o do Nordeste.

Bolsa presidio não é solução para família alguma

Do que o Brasil precisa é de educação. Uma educação que garanta aos pais de milhões de crianças a possibilidade de irem trabalhar e ficar sossegados porque os seus filhos estão na escola. E não sem vigilância, à mercê do tráfico, arriscando uma vida de crime, deixando a própria sobrevivência no fio da navalha.

Do que o Brasil precisa é de segurança. Do combate ao crime e à corrupção, sem mais crime.

Crime é crime, independentemente da ideologia. Terrorismo é terrorismo, independentemente da causa.

Do que o Brasil precisa é de uma polícia séria, responsável, de confiança, que não fique refém dos traficantes porque precisa de alimentar uma família.

Lamentavelmente, nenhum dos candidatos oferece alternativas viáveis. E o mal menor não é solução. Para não falar na tristeza que é o voto com base no medo. Que não representa livre escolha, mas sim manipulação.

O Brasil vive uma guerra civil. Com a população a incitar ao ódio, num discurso de acusações mútuas e cegueira ideológica. E é uma pena…

Vamos ver o que acontece a 7 de outubro próximo. O mundo está de olhos postos no Brasil, e a torcer por ele… E pela democracia.

No mais, recomendamos terapia, autoconhecimento, para aprendermos a lidar com os opostos em nós, em vez de os projetarmos nos outros, arriscando a própria vida.

Guerreira

27/09/2018

Descrevem-me amiúde como Guerreira. Até numa dedicatória de um livro me atribuíram esse epíteto. É o que veem de mim. E eu nem sei bem o que isso quer dizer.

Já para não falar que sequer me revejo nesse papel…

Às vezes, confesso, até me deixa impaciente. Embora lhe reconheça projeção. Por não corresponder à verdade. Por saber da missa toda, não apenas da metade… Conheço o lado obscuro, o lado sensível, o lado criativo, artístico, a dúvida, a auto-cobrança, a desconfiança. Conheço muita coisa que talvez não transpareça. 

Já para não falar na responsabilidade que tamanho atributo acarreta

Felizmente, não vivo para corresponder a expectativas. Ao que os outros esperam de mim, se é que esperam alguma coisa… Há muito tempo. Quem dita quem sou, o que quero, como me posiciono, o que faço, escrevo, digo, sou eu… Embora muitas vezes ainda caia na falácia da provocação. Há botões que persistem em ser acionados a cada vez que estão em causa valores que me são caros.

E ainda bem…

Reconheço-me forte, reergo-me das cinzas com uma força e um entusiasmo de certa forma admiráveis, por não permitir que a minha essência se anule em prol do que me acontece. Não sucumbo perante as dificuldades, há em mim uma vontade férrea de me manter de pé.

Mas não me revejo no atributo de guerreira

Porque o meu lado sensível, emocional, sentimental é muito mais forte e muito mais condizente com a minha verdadeira natureza.

A nossa cabeça pode enganar-nos, iludir-nos, mas o corpo não mente. E a prova inequívoca é o que se me é revelado na vivência das aulas de Biodanza.

Já desconfiava, mas, na última terça-feira tive a confirmação. Vi-me e senti-me a dançar, de vestido vermelho e cabelos longos, indomável, sensual. Numa celebração qualquer. Alheada de tudo, apenas entregue à dança, ao movimento, às sensações, indiferente aos olhares alheios, em volta de uma fogueira, num tempo que não reconheço, numa civilização que me é estranha. E, nessa dança, vi todo o meu potencial. Reconheci todo o meu poder. É esse, que vem de dentro. Que é confiante, sem ser intimidante. E em perfeita sintonia e conexão com a natureza.

Entre Atena e Afrodite, prefiro Afrodite.

Com um bocadinho da natureza selvagem de Artémis. Confiante, mas com um sorriso. Inteira, mas não distante, inacessível, inatingível.

E Atena é alheada do sentimento, que lhe confere poder. Eu não quero o poder per se, não me interessa. prefiro de longe a autenticidade, a espontaneidade, à persona.  I crave connection. Que só se consegue com aproximação, não com distanciamento, isolamento, alienação do que se passa no coração.

Inconsciente Coletivo

26/09/2018

Um dos mais significativos contributos de Carl Jung para a Humanidade foi o conceito de Inconsciente Coletivo. Apenas reconhecido pela sua linha de psicologia, a psicologia analítica.

Corresponde à camada mais profunda e mais ancestral da nossa psique e diz-nos, no fundo, que todos somos um. Com base na teoria dos arquétipos, os personagens que habitam este inconsciente, Jung defende que os seus padrões, potenciais, estão presentes em cada um de nós e determinam muitas vezes inúmeras das nossas ações e inações. inconsciente coletivo

A maioria das pessoas chama-lhe vidas passadas

Provavelmente, por não conseguirem explicá-lo de outra forma. Dada a ausência de relação com a experiência individual. Pois o que está armazenado na nossa memória coletiva é tudo o que foi vivido e não processado pelos nossos ancestrais.

Causando sombra, medo, castração, inibição.

Uma forma de nos apercebermos dos potenciais arquetípicos em nós, vivenciados ou não, é conhecer os mitos gregos (no caso da civilização ocidental, outras civilizações têm outros mitos, mas com base nos mesmos arquétipos).

E os padrões de personalidade dos respetivos deuses.

Ontem, a ler sobre a parceria Artémis-Perséfone, os arquétipos mais presentes na minha consciência, apercebi-me de como o patriarcado me influencia. E porque me irrita tanto a conversa esotérica, sem base científica, lógica, racional (características do patriarcado, que anulou o feminino).

Quando um grupo qualquer é perseguido ou vitimizado, aprende a sentir-se impotente e culpado por aquilo que pode ou não ter cometido. Isso é, sem dúvida, o que aconteceu no final da Idade Média com os milhões de mulheres Perséfone-Artémis, que eram curandeiras, parteiras, xamanesas, videntes ou simplesmente excêntricas. (…) Na sociedade comum, a antiga paranoia cristã ainda paira na consciência patriarcal, disfarçada de desprezo racionalista.

É importante a consciência crítica de Atena

A mais racionalista das deusas e, por isso, a preferida do pai Zeus, para dar fundamento ao que pulsa no inconsciente. E, acima de tudo, para que os seus conteúdos possam ser acolhidos pela comunidade. Que ainda é quase exclusivamente patriarcal. Ainda sofre com a memória do que aconteceu a milhares de mulheres Artémis-Perséfone, que ameaçavam o masculino e a sede de controlo e poder.

A memória do que aconteceu com essas mulheres está enraizada no inconsciente coletivo. O medo delas também. Do que representavam: a liberdade, o acesso ao inconsciente, fonte de sabedoria milenar, a sabedoria feminina, intuitiva, que ameaça a sociedade de consumo e demais instâncias de poder e co-dependência.

Autoconhecimento segue sendo urgente…

Nomeadamente, o contacto com a intuição, a sabedoria feminina, que equilibra com o patriarcal e traz Eros para todas, todas as decisões e discussões. Sem Eros não há vida, há projeção, neurose, ignorância, radicalismo, fundamentalismo.

Negar o inconsciente coletivo é perder uma oportunidade imensa de nos apaziguarmos com o que não conseguimos explicar, apenas sentir. O que tem feito por mim vai além do mágico, é sublime.

Os mitos gregos parecem uma realidade demasiado distante para que os tenhamos na devida conta.

No entanto, estão presentes em cada escolha.

Em cada medo, em cada projeção, em cada neurose, em cada área que consideramos vida. Tudo o que é vida é arquetípico. E é um desperdício de potencial não conhecer o que cada arquétipo traz para a vida de todos os dias. Acima de tudo, para os nossos relacionamentos, causando isolamento, self-doubt, ausência de conexão. O que resulta em dependência, pois deixa-nos à mercê dos outros, das suas escolhas, decisões, medos, fobias, neuroses…

Pode ser confortável, mas não é real. A vida que temos para viver continua à nossa espera. E vai cobrar-nos, de uma forma ou de outra, que a honremos e a vivamos. Com autenticidade.

The Crown

25/09/2018

Tenho andado a ver The Crown e cheguei à triste conclusão de que jamais poderia ser Rainha de Inglaterra…

O que é toda aquela mulherada a entrar-me pelo quarto todos os dias de manhã?

Era ver gente a decidir a que horas acordo e a abrir-me as cortinas e corria-os a todos a gritos e palavrões… Já para não falar no quererem vestir-me e despir-me como se tivesse dois anos. Poupem-me… 

Depois, de que serve ter um gajo e não poder dormir com ele de conchinha? Ter de abdicar do meu relacionamento por causa do povo? Das obrigações profissionais? Do público? Casei-me com o Filipe, não com o povo, valha-me deus… Armei um banzé porque era o Filipe que queria e troco-o assim, por quase nada que me satisfaça? Deus me livre… E está bem que sou discreta, mas não poder manifestar-me ou expressar afeto em público era coisa para me dar muito nos nervos…

Nunca poder tomar decisões por mim, há sempre um conselheiro a dizer-me o que fazer. Gente a dar-me ordens é motivo para sair correndo e gritando… E se não for a murros e pontapés, no meio de uma grande chinfrineira, estão cheios de sorte…

E o que são aqueles jantares oficiais?

Aquelas mesas gigantescas, com dez talheres para cada um, mais quatro copos? Só a quantidade de gente envolvida à mesa era suficiente para a introvertida que há em mim se enfiar no quarto e não sair nunca mais. Já para não falar no facto de só poder falar com a pessoa que está à minha direita. E se for um chato do caneco? Não disser nada de jeito?

Medirem-me o vinho? Isso é que era bom…

Ter filhos e não poder estar com eles? Estrafegá-los de beijos e abraços? Ter de deixá-los aos cuidados de uma qualquer? Para que a reconheçam antes de me reconhecerem? À mãe que sofreu nove meses sem poder pintar o cabelo? A engordar como uma lontra para os ter? E depois não poder curti-los? Filhos por obrigação? Porque é suposto? Já conheço o resultado, não obrigada…

Era o que faltava…

E aquela educação que não me alimenta a sede de conhecimento? O intelecto fervilhante? Que me obriga a bordar e a saber de cor a Constituição? Que vida chata do cacete…

E, pior que tudo, não poder reclamar porque o meu marido, a quem não dou a mínima importância, anda por aí em encontros com os bêbedos dos amigos, encontros esses que envolvem bailarinas e atrizes? Não poder chamá-lo à pedra, enquanto ele se diverte, eu aqui, a cumprir obrigações? A levar com gente chata, assuntos que não me interessam?

Comigo não, violão…

Está bem que não sou de ficar na sombra de gajo nenhum, apesar de odiar o palco e as luzes da ribalta. Mas daí a aceitar que o meu gajo ande sempre dois passos atrás de mim vai uma distância grande.

Na boa, Elizabete, podes ficar com a Coroa.

error: Content is protected !!