Paternalismo nos relacionamentos

22/12/2016

Bem português também é o paternalismo nos relacionamentos, de todo o tipo. Há uma tendência para confundir cuidado com ingerência na vida privada alheia e, pior do que isso, nas tomadas de decisão.

Recordo com um sorriso no rosto e particular saudade uma certa noite na Amazónia, em que o B estava a contar qualquer coisa e, no fim, os amigos dele e acho que eu também começámos a responder e a reagir ao que tinha dito. Resposta dele, curta, simples e nada grossa: Eu não tô pedindo opinião…

Um dia destes falávamos num almoço de miúdas sobre o hábito tão português de avisar quando se chega a casa. Ou seja onde que for. Argumentava que um gajo de 40 anos jamais dá justificações ao paizinho e à mãezinha na Alemanha em França, em qualquer país do norte da Europa. E não é uma questão de frieza, é uma questão de as pessoas não se meterem na vida umas das outras. Apenas mais uma de nós parecia incomodar-se um pouco com isso, chegando mesmo a dizer: é ridículo. Todas as outras acham a coisa mais normal do mundo. Eu acho um ato de controlo gigantesco.

Responsabilidade pelo outro; Responsabilidade para com o outro.

Uma coisa é preocupação, cuidado, amor para com o próximo, até responsabilidade para com ele. Se vejo que o meu irmão ou um amigo está com os copos e vai pegar no carro, não posso deixar de lhe dizer qualquer coisa. Outra é paternalismo, querer mandar nele, decidir por ele o que ELE vai fazer.

Este é um exemplo radical e que envolve perigo de vida, para ele e eventualmente para alguém que possa atropelar. E viver com um crime nas costas não é algo que deseje nem ao meu irmão nem a qualquer outro amigo. Por isso talvez seja mais veemente, até porque provavelmente também estarei com os copos, o que ajuda sempre.

Mas há outros. E é aqui que atingimos níveis estratosféricos de esquizofrenia. Pessoas a querer opinar sobre os aspetos mais básicos, as ações mais banais da vida de todos os dias. Ou, pior ainda, sobre decisões que podem afetar o resto da vida do OUTRO, como a mudança de país, o casamento, um filho. Damo-nos ao desplante de dizer a amigos, empregados, alunos, filhos adultos, completos desconhecidos o que devem e não devem fazer com as suas vidas. O que devem dizer, comprar, como agir e o que podem e não podem comer, fumar, beber, o diabo. Ofendemo-nos se não nos obedecem e ficamos muito chocados quando ouvimos dois gritos, a ver se se acaba de uma vez com tanto paternalismo.

Se há coisa que põe a adolescente rebelde que há em mim de cabelos em pé, cega dos nervos e a tremer de ódio, é um: deverias, vai, tens de. Num relacionamento minimamente saudável entre adultos ninguém dá ordens a ninguém. Ou diz como fazer. Muito menos se insiste.

Esta absoluta ausência de respeito pelo espaço, pela individualidade, do outro, e negação de liberdade e de responsabilidade de cada um talvez esteja relacionada com o tal problema de co-dependência português. É um atentado à autonomia, à liberdade de ação, à criatividade. E não, nem um patrão tem de dar ordens a um empregado. Isso é coisa de sociedade paternalista, diria mesmo: ditatorial. Tem, quando muito, de o orientar. E deixar que se responsabilize pelas suas escolhas.

Pior, é de uma falta de noção aflitiva. Ultraje máximo é o apontar de dedo na cara do outro. É como se a própria vida não chegasse, se não tivessem com o que se preocupar. Dá vontade de oferecer espelhos pelo Natal a uma série de gente. Olhamos para a pessoa ali aos gritos e aos saltos, desesperada porque não nos controla, a vermos a cena toda e só nos ocorre: epá, e se olhasses para ti?

Não é uma questão de imposição de limites, é uma tendência de personalidade. Se a pessoa é controladora, vai sempre, sempre tentar controlar, dominar. Sempre. E não desiste, mesmo quando é avisada de forma indireta, direta, suavemente ou à bruta, aos gritos e se for preciso aos pontapés.

Vejo muito este instinto controlador nas mulheres. O casal em que ela manda nele é a coisa mais comum em Portugal. Mulheres controladoras, homens passivos. Talvez seja por isso que os portugueses sentem necessidade de um pai. E, na falta de um pai orientador, querem um que lhes diga o que fazer. O que nos torna infantis e irresponsáveis. Qualquer coisa que aconteça, só obedeci a ordens. O que está completamente enraizado na sociedade civil e em absolutamente todos os meios profissionais.

Na preocupação, um ato de amor, de cuidado de carinho, falamos e respeitamos a decisão do outro. Não o responsabilizamos pela nossa neurose, ansiedade, medo, pondo nas suas mãos a capacidade de nos acalmar. Quando é um ato do ego, de controlo, de poder, insistimos, e ainda nos ofendemos quando o outro exerce o livre direito de simplesmente não querer.

A isso chama-se ser tóxico e manipulador. E há quem só se relaciona assim, achando que é amor. Foi esse exemplo que teve e se não tiver ninguém a controlar cada passo que dá, não se sente amado. Se não controlar tudo e todos, não se sente seguro.

Num relacionamento não é suposto pedirmos autorização ou permissão para termos a nossa própria personalidade, individualidade, responsabilidade. E quem tem um problema com isso precisa urgentemente de se tratar.

  • margarida 23/12/2016 at 19:29

    Bem, então eu acho que preciso de me tratar. Ou pelo menos de estar mais atenta às minhas exigências paternalistas.

    Isa, queria desejar-te Feliz Natal. Continua a escrever, adoro ler-te.
    Um abraço.

    • Isa 24/12/2016 at 14:08

      Aqui que ninguém nos ouve, eu também :)
      Bjos minha querida obrigada e Bom Natal para ti e os teus <3

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