Patriarcado e Matriarcado

18/12/2019

Pior do que a apropriação indevida e abusiva de símbolos universais, como a estrela, no caso, a vermelha, fazendo deles símbolos políticos, poucas coisas contribuem mais para a ignorância generalizada, prestando um péssimo serviço ao indivíduo e à comunidade, do que a apropriação de palavras, que encerram em si mesmas conceitos, usadas indevidamente por gente que não faz a mínima ideia do que está a falar.

E que, apesar de ignorante, as propaga de forma neurótica.

Contribuindo assim para associações erradas e, dessa forma, criando, nas pessoas que não se identificam com elas, medo de as usarem para não serem mal interpretadas.

Falta autoconhecimento. Se eu sei quem sou, quero lá saber do que os outros pensam a meu respeito, muito menos o que dizem de mim baseado nos símbolos que ostento.

A apropriação de um símbolo e o seu uso indevido, é, como diz Bernardo Soares no Livro do Desassossego, como se nos roubassem bocados exteriores da alma.

Depois de me ver com um novo símbolo ao pescoço, que substitui a estrela vermelha, ao despedir-se de mim, o meu BFF disse:

ainda vou conseguir que deixes de usar a palavra: patriarcado.

Prometi a mim mesma que não dava mais aulas de psicologia de borla. Nem aqui nem em lado algum. Na grande maioria dos casos, são pérolas a porcos e eu tenho mais que fazer. Mas não posso nem devo, em sã consciência, ceder à ignorância e à pressão coletiva.

Resistirei, no meu espaço, fazendo a minha parte.

Não por me sentir responsável pela propagação da verdade, mas por respeito pelos anos  e o dinheiro que gastei a investigar, estudar e até vivenciar a psicologia junguiana. Por algo que é maior do que eu.

Portugal tem um problema acrescido, o Bruno Nogueira falava disso um dia destes no Alta Definição. A capitalização das pessoas que dão audiências ou são populares, tenham ou não capacidades e conhecimento para falar sobre determinado tema, convidadas para falar sobre tudo e mais alguma coisa. Pessoas essas que, sem um mínimo de noção, apenas movidas pelo ego, e o dinheiro, aceitam.

Contribuindo de forma completamente irresponsável para a propagação da ignorância.

Depois da demonização do ego, da banalização e esoterização da palavra arquétipo, é cada barbaridade que até aflige, o patriarcado é a palavra que se segue.

Tem sido abusivamente usada por gente que não faz ideia do que está a dizer.

O patriarcal, por si só, foi e é muito benéfico para a humanidade em geral. Foi o que permitiu o avanço da ciência, o estudo das coisas, o ir além da crendice.

O problema nunca é o patriarcal, ou o matriarcal, por si sós. É a sombra dos mesmos.

E não há maior e pior exemplo de possessão pela sombra do que a tentativa de domínio, de controlo, dos outros.

O matriarcal, sozinho, já é conhecido e a volta ao mesmo é um retrocesso civilizacional incomportável. É essa gente que diz que a Terra é plana, que ignora a ciência com base no que Deus diz, no eu sinto/acho que, porque a energia flui desta maneira.

É essa gente que fala do que não sabe, sem um mínimo de base ou conhecimento científicos. 

A palavra patriarcado tem hoje uma conotação feminazi e, por mais que eu queira falar sobre o tema com seriedade, a verdade é que só o facto de a mencionar levanta defesas por parte de quem ouve, precisamente por causa dessa conotação com o feminismo radical, que nada mais é do que uma das piores manifestações do patriarcado, o domínio pela força. Que pode não ser física, mas emocional, mais difícil de detetar e, por isso, de combater.

Dada a natureza dual da psique, é natural que, ao livrarmo-nos de uma coisa, tendamos para o seu oposto. O que não contribui para qualquer tipo de avanço pessoal muito menos civilizacional, mas para ainda mais retrocesso.

O patriarcal por si só e sozinho é abusivo, demasiado rígido. Tal como o matriarcal, demasiado emocional. Um não funciona sem o outro. Ambos precisam um o outro para se equilibrar.

As dicotomias, todas, servem apenas para nos sentirmos melhor, menos perdidos.

Mas a identidade é completa, não dual.

A convivência amena entre os opostos é a chave. Chama-se alteridade. E é mais um conceito da psicologia junguiana que anda a ser mal usado e pior interpretado.

Gente com problemas de ego sérios e que apenas quer dominar os outros usa e abusa da dicotomia. Mas se há coisa que tenho por certa é que a psique não desiste até que se veja equilibrada, na amena convivência entre masculino e feminino. E faz o que for preciso para tal, se nos mantivermos presos na armadilha do ego, com consequências dramáticas.

Acredite-se ou não, concorde-se ou não. É facto e ciência, resultante de anos de estudo e de obras de 20 volumes publicadas. Não é mera opinião. Muito menos achismo. E está bem longe da neurose.

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