Pequenas obsessões

20/10/2016

Tenho andado com vontade de fumar, cigarrilhas, umas ganas valentes, Clubmaster. Vai daí, fui caminhar, não sem antes me ter envenenado com um milka oreo inteiro, dos pequenos. Não aguentei e corri um bocadinho. Há séculos que não corria. E tinha saudades. Imensas saudades, de respirar ar puro, da brisa, do cheiro do mar. A CMO havia de mandar uns tratores para a praia depois da chuva, estava um nojo, cheia de plásticos, paus, algas e alforrecas mortas.

Vou voltar a caminhar, meia hora por dia está de bom tamanho, caminho um quarto de hora e corro outro tanto. Mais do que isso já me começa a dar seca. E se o fizer todos os dias, já não está mal. Meia horinha, meia horinha passo eu a embrutecer em frente ao computador, sem aprender nada de jeito e sem dar por isso. Meia horinha não custa nada. Não posso correr muito, por causa de um nervo ou de um tendão ou lá o que é que me dói, mesmo quando nem sequer me mexo. Enquanto não for ver o que é, não arrisco.

É possível que ande slightly obsessed por livros sobre escrita. Contrariamente a tudo o resto, todos os autores que leio sobre o tema são mulheres. Já tenho mais dois livros encomendados, mas não pedidos, de uma autora da qual já li um e ainda ontem me chegou outro. Foi o que me aconteceu com a psicologia, temo o pior. Felizmente, o tema é menos vasto. Ainda sou do tempo em que o correio vinha duas vezes por dia, agora vem dia sim dia não e parece que há inclusive carteiros que não se incomodam a subir a casa das pessoas para lhes entregar avisos. Não me apanham a viver em Lisboa tão cedo.

Um dos meus amigos mais queridos passa-se com o meu preciosismo em relação ao uso das palavras. No outro dia falava com outro que me dizia para ter cuidado com as más influências que provêm da leitura de livros e artigos noutros idiomas que não o meu. Melhor usar idiomas do que línguas, deixemo-las para outro contexto, os brasileiros são mais precisos no uso das palavras do que nós e este é apenas um exemplo. Dizia-lhe que talvez esse risco não corresse, bastou que me desse um ou dois exemplos para que percebesse que não só corro como nem sequer tenho noção de que já o corri, ao risco. Dizia-lhe que o perigo no meu caso era usar palavras noutra língua precisamente por causa do meu preciosismo, vício de tradutor, parte do caráter obsessivo do escritor em relação às palavras e talvez mania de artista, preocupado com a criatividade, a originalidade, a não repetição. Esqueci-me de lhe dizer que também o faço por gostar da sonoridade de algumas palavras, da forma como se pronunciam, de sotaques e da riqueza, da abundância de palavras, expressões e sons que existem nas línguas que conheço. Se puder escolher, a harmonia pesa sempre um bocadinho. A estética outro tanto, a precisão decisiva. O que quero transmitir é exatamente o que quero dizer. Alguma há de servir os meus intentos. Tecnicamente, as palavras são sinónimos, emocionalmente estão longe de o ser.

Deixei de correr e de tudo porque caminhar sem correr parecia-me a coisa mais tediosa do universo. Mas o livro que ando a ler sobre escrita diz que pelo menos meia horinha por dia tenho de me mexer. Não preciso que mo digam, não tenho 5 anos, mas às vezes preciso de me relembrar. Há dias em que não saio de casa, esta minha introversão ainda um dia me há de matar. Hoje, bastou-me abrir a porta da rua e sair para apanhar o elevador e imediatamente me veio uma resposta a uma questão que agora nem me lembro qual era. Na grande maioria das vezes, não quero mexer-me muito, acho que se me mexer, alguma coisa vai perder-se, mas a verdade é que nada do que verdadeiramente importa, nos faz falta, se perde. Tenho preguiça de beber água, adoro água, a sensação de me matar a sede, o sabor, mas passo a vida a ter de me levantar e por isso evito, com medo de perder alguma coisa, uma frase boa, uma ideia gira. No livro de escrita que ando a ler diz que temos de beber 64 onças de água, já fui ver, é tipo um litro e meio. Só de pensar nas vezes que tenho de me levantar na sequência de tanta água, perco a vontade, mas diz que é como quem desentope canos, leva com ela um monte de lixo que se nos acumula no corpo. Também diz que acelera o metabolismo e acaba com a retenção de líquidos. Acho que o meu corpo retém líquidos por defesa, precaução. Esta louca não me dá líquidos, deixa-me cá garantir a sobrevivência de nós todos. Talvez me tenha convencido.

Arranjei maneira de ler tudo quanto me apetece sem ficar a pensar que estou a prejudicar uma área em detrimento de outra. Escrita, psicologia e literatura, momentos diferentes, tempos diferentes, todos os dias. Foi a obsessão com as distâncias e os tempos que quase me matou, me acabou com os tendões ou lá o que é que me dói no joelho e me insuflou as coxas até quase me parecer um praticante de culturismo. Não estou para isso, perdi uma quantidade absurda de volume assim que parei de correr. E sou coxuda, não há nada a fazer quanto a isso. Nem do que me envergonhar.

As obsessões, pequenas ou grandes, controláveis ou não, são a forma que o nosso ego arranja para se sentir poderoso, seguro e confortável. Fazem de nós intransigentes e nada flexíveis, dando mais e mais poder ao nosso predador particular, que só está à espera de uma brecha para se posicionar e nos fazer comer, beber e fumar tudo quanto há. Sem controlo, sem freio, o cabrão. Quem manda na minha vida sou eu, quem decide o que, quando, como, onde e com quem sou eu, não a minha neurose. Já deu para perceber que o ego sozinho não dá conta do recado e ainda nos mata a todos. Ou, no limite, nos deixa entrevadinhos numa cadeira de rodas. Meia horinha, meia horinha e está muito bom.

  • Tiago 21/10/2016 at 13:43

    Engraçado, voltei a correr esta semana. Moro num bairro cheio de morros e uma pracinha minúscula onde as pessoas ficam dando voltas feito baratas tontas, morria de preguiça de correr nesse entorno preciso ver coisas diferentes. Então resolvi correr pelos morros, as subidas e descidas e, meu, como meus dias estão melhores.
    “Meia horinha”, acho tão engraçada esta expressão, porque meia hora é meia hora, exata, 30 minutos, mas a gente sabe que ela pode virar “meia horinha” ou trinta FUCKING minutos. =D

    • Isa 21/10/2016 at 15:00

      ahahahahahaha :D FUCKING minutos :) gabo te a coragem de correres morros acima, na única parte que tenho de subir, ando… e estou contigo nas voltas à pracinha, meu deus, morreria de tédio à segunda ou terceira volta. Eu não posso pensar, sabes? E se já conheço, fico na cabeça e não no ambiente em volta :) não na corrida, na corrida nem sei onde fico… (estou à procura de um texto para responder ao teu e-mail, me aguarde :) and cheers).

    error: Content is protected !!