Plenitude

27/08/2018

O vazio sempre me causou ansiedade, quase pânico, levando-me a fazer qualquer coisa para evitar o confronto direto. Driblando a alma com falsas ilusões de plenitude, de conforto, de satisfação, até à náusea.

Há quem use o sexo, o dinheiro, o poder, as drogas, o rock ‘n roll. Anti-depressivos, a noite, o dia, o trabalho, a folia. Confundindo co-dependência com amor, proteção com controlo, cuidado e preocupação com castração.

Eu escolhi comer e fumar compulsivamente para (não) lidar com vazios insuportáveis. Que me dilaceram por dentro e me acabam com a megalomania. Para a eles voltar, a cada vez que os foras de mim se esfumam e me vejo, de novo, vazia de tudo.

Jung salva-me mais uma vez plenitude

Numa releitura de “Memórias, Sonhos e Reflexões”, que em boa hora pedi e em melhor hora recebi de presente – e que só em parte está disponível para download gratuito na internet, quem é o sádico que faz uma coisa destas – descubro, com o corpo todo, que o vazio é, afinal, plenitude.

Ao ler a frase revelação, vejo-me por momentos de pé, com a sensação de que uma enxurrada de vazios ilusórios me sai pela raiz, os pés, em direção à terra. E, entre o espaço que os dista da mesma, aproveitam para dispersar pelos ares. Não faço qualquer esforço para os reter ou deter. Apenas me espanta a facilidade com que, enfim, saem de mim.

São vazios, afinal.

Os que me iludem com a sua presença. Ocupando espaços de mim que lhes não pertencem e me enchem de vazio, impedindo-me de chegar, então, à plenitude.

A que encontramos quando nos despimos de nós, deixamos que a enxurrada leve falsos ideais, soluções compradas, ilusões insanas, bombardeamentos coletivos. A que permite a permeabilidade, a aceitação, a novidade, a criação, a recriação, até.

A plenitude que só o desconhecido proporciona, o que nos conduz na busca de soluções, concretizações, conquistas, novas decisões, sem reflexos de Pavlov, que se adequem à alma renovada que ora se mostra, plena de novos quereres, sem medo ou temor, armadura ou escudo, livre, verdadeiramente livre.

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