Portugal, a Co-dependência e eu.

21/12/2016

Talvez tenha chegado à conclusão de que a co-dependência é um problema português, do nosso inconsciente coletivo nacional.

No outro dia, falava com o meu BFF* sobre como toda a gente se conhece no seu meio. Todos são amigos uns dos outros e caso te incompatibilizes com alguém estás automaticamente fora do círculo, porque todos falam com todos, se conhecem, ninguém se dá ao trabalho de aferir quem, o quê, onde e por que motivo, e assim vamos. Normalmente, para te incompatibilizares com alguém basta que tenhas uma opinião diferente e a expresses. A esquizofrenia chegou a tal ponto que a diferença de opinião ofende, imagine-se. 

Não é uma questão de coletivo, de regra social, de educação, de não dizermos tudo o que nos passa pela cabeça como os malucos. É mais do que isso. É medinho de nos expressarmos, temendo represálias, que não gostem de nós, não nos convidem, nos marginalizem, e o nosso frágil ego não aguente. É medo de não vender, não vencer, não sermos chamados, escolhidos. Pior, é medo, precisamente, de boicote, de manipulação para que nem sequer sejamos lembrados, os nossos livros não figurem nas prateleiras das livrarias, os nossos nomes estejam de fora das listas de convidados.

Esta infantilidade da vida civil é apavorante, não abona em favor do mérito, da qualidade, da autonomia de pensamento, da liberdade de ação, de nada. A não ser do compadrio. E que seja assim na política ainda se compreende, na política o que interessa é o poder. Mas em todo o lado, em todos os meios?

Só quando atingimos um estatuto tipo Saramago nos é permitido tudo e mais alguma coisa. E como não fomos acostumados a filtrar o que é aceitável e não é, aí sim, dizemos tudo, como os malucos. Sem o mínimo respeito pela audiência, o povo do país que visitamos e nos recebe com pompa e circunstância.

Dizia ao meu BFF que muito provavelmente não duraria uma semana fosse em que meio fosse. Há quem lhe chame infantilidade, loucura, falta de filtro, de espinha dorsal, não saber viver no coletivo, falta de esperteza, de inteligência, nem sei o que mais e pouco me interessa. Prefiro ver-me como autêntica, genuína, honesta, espontânea, verdadeira. Que saibam com o que podem contar. Não é auto-elogio, orgulho besta muito menos regra para viver, mas é o que sou e não tenho vergonha. Até porque não sei ser de outra maneira. E aqui que ninguém nos ouve, embora me desse imenso jeito, me facilitasse imenso a vida, não quereria sê-lo.

Sou mulher de paixões assolapadas, micro-obsessões, algumas compulsões e saudáveis embirrações.

Não sou falsa, fingida, deus me livre de ser esperta e inteligência não me falta. Não elogio quando não gosto, prefiro na grande maioria das vezes o silêncio, ou uma meia resposta, em vez do categórico: não gosto, quando me fazem uma pergunta.

Não hesito em elogiar quando gosto e só o faço nessa ocasião. Por minha única e expressa vontade. Não aceito encomendas nem pedidos. É por isso que é fácil confiar em mim. Não minto, nem de forma piedosa, prefiro o silêncio, recusar fazer, mudar de assunto, falar do tempo.

Não sou calculista, todos os meus elogios são sinceros, todos. E, ao contrário da maioria dos portugueses, que seguram o bom mas não hesitam em cascar forte e feio no mau, chutando cachorro morto e tudo, tenho alguma facilidade em fazê-los. Tenho um lado crítico horrível mas nunca, nunca sou cruel, pelo menos em consciência, jamais gratuitamente. Sei ser má, como toda a gente, mas não quero, a última coisa que quero neste mundo é viver na e da sombra.

Não tenho medo de dizer o que penso, de me posicionar. Quando os meus valores básicos e primordiais são ameaçados, viro bicho. E não estou nem aí para quem tenho à minha frente. Seja o Papa, a Rainha de Inglaterra, o meu patrão, um juiz. Enfrento qualquer um, desde que não tenha uma arma na mão. Sou fiel até ao osso, incapaz de trair alguém de quem gosto e mortificar-me-ia se o fizesse. E dificilmente perdoo traição, sendo que jamais volto a confiar num traidor. Jamais. Foi suficientemente burro para me trair uma vez, sou suficientemente inteligente para não voltar a entregar-me.

Talvez por isso a vida não me reserve grande futuro. Mas sou dessas, estou dentro do sistema mas não me vendo a ele. O que implicaria abdicar da minha liberdade e sem ela não sei, não posso, não consigo nem quero viver.

Voltando à infantilidade que é a co-dependência, e da qual sofro emocionalmente em alguns momentos, cada vez menos, assim espero, não vejo isso acontecer noutros países. E choca-me que em Portugal, país velho que não haveria de ter o que temer, esteja tão enraizada. Não se separa o lado profissional do lado pessoal, tudo é uma amálgama de tudo, toda a gente espera que colegas de trabalho sejam também amigos, ficando ofendidos se por acaso ousamos não frequentar espaços pessoais de gente com quem não temos qualquer relação a não ser de trabalho, a intimidade ao deus dará e ninguém parece chocar-se com isto a não ser eu.

Um querido amigo recente dizia-me no outro dia, com as melhores intenções: devias estar aqui, para fazeres networking. Por ele e com ele iria a qualquer lado, confio o suficiente para tal. Mas só de ouvir essa palavra até tremi. Como diz o meu BFF, eu encho uma sala, mas não tenho a menor paciência para conversa de circunstância. Sou capaz de falar horas e horas sem fim com alguém, mas é se a conversa for minimamente interessante. Se houver profundidade. Caso contrário, começo a ficar impaciente, a beber demais, a falar alto e com uma vontade de fumar tremenda. É para a própria segurança das pessoas, e da minha, que fico em casa a grande maioria o tempo. E quanto mais velha vou ficando mais seletiva me vou tornando.

Não acho que tenha de me violentar para facilitar a vida do próximo, mas isso é matéria para outro artigo.

BFF* Acho isto de BFF meio infantil e coisa de jovem adulto, fora, portanto, do meu escalão etário. E tenho ideia de que nem quando era adolescente tinha uma melhor amiga. Mas se tivesse um BFF, homem, naturalmente, o meu BFF jamais poderia ser uma mulher, serias tu.

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