Os portugueses são pouco assumidos

03/04/2018

Desde sempre me identifiquei com o casual, o descontraído, o confortável. Agora, depois de velha, mais ainda. As roupas de mulher que me chamam a atenção nos filmes são sempre o clássico top branco e jeans. Ou casaco sweat. Moletom, como se diz no Brasil. Onde, pelo menos em São Paulo, é praticamente impensável sair com um à rua a não ser que se vá malhar. Ao ponto de a Tati Bernardi já ter escrito uma crónica acerca do assunto. Uma mulher é menos mulher se não sair de casa de saltos altos e vestido matador. Exagero, claro. E a realidade brasileira não é a portuguesa. Elas assemelham-se mais às espanholas, mais arranjadas, mais cuidadas. Mesmo agora, que as portuguesas mudaram e muito no que à apresentação em público diz respeito. E para bem melhor, diga-se.

Das mulheres mais bonitas, estilosas e femininas que conheci em SP, uma coreana-paulistana, que andava de skate e fazia surf, vestia-se de um jeito casual, descontraído e impecável. Jamais desleixado, descuidado. Muito menos masculino. 

Achava aquilo a coisa mais sexy do mundo.

Há de haver poucas coisas mais sexy do que uma mulher que chama a atenção de um jeito simples, sem se armar toda, desafiar as leis da gravidade em cima de uns saltos. Ou correr o risco de morrer na sequência de uma apneia por causa de um vestido que mal lhe serve.

Sem intimidar ninguém, pelo contrário, atrai, muitas vezes sem se dar conta do quanto…

Na linha de lojas casual, tenho-me encantado com a jovial Springfield, que ainda por cima tem um nome giro. Irrita-me um bocado que o barato não possa ter qualidade. O que não é o caso, a roupa deles tem qualidade, é gira, afirmativa, primaveril e juvenil. E faz-nos sentir sempre bem, com as mensagens super giras que põe nos sacos de papel.

E eu, que já tenho idade para ter juízo, insisto em não lhe resistir.

Curiosa, fui ver de onde era. Quase em choque, constatei que pertence ao grupo Cortefiel, uma marca espanhola muito farçola, muito careta, muito beije… Que, juntamente com a Springfield, têm também, entre tantas, outra de que gosto muito: a Women Secret.

Vai daí, comecei a pensar na quantidade de marcas espanholas de roupa, mais ou menos trashy, que invadem o mercado português: Zara, Massimo Dutti, Springfield, Mango, Bershka, Pull & Bear, Stradivarius, Desigual… De todas as marcas de roupa jovem, a preços acessíveis, a H&M é a única que não é espanhola…

E pergunto-me: onde ficámos nesta invasão?

Nós, que somos os maiores a fabricar sapatos de qualidade, que se vendem no mundo todo e estão nos pés de metade dele. E que, felizmente, conseguimos ir mantendo, parece ser a única indústria que escapou. Com uma indústria têxtil de elevadíssima qualidade, que fabricávamos em Portugal jeans Levi’s, que exportávamos para o mundo todo. Produtos de todas as marcas de qualidade, Calvin Kline incluído. E deixámo-nos engolir, mais uma vez, pelo síndroma do bom aluno, deixando-nos devorar pela UE e desmandos economicistas. Com imensas fábricas a fechar. Uma perda imensa para o setor. E a possibilidade de alguma autonomia pela via da exportação.

E que também somos sérios, de bom gosto, de qualidade, que não somos menos que ninguém, como é que não nos lembrámos de criar umas marcas com uns nomes em inglês, arranjar umas frases: since 1971, e invadimos o mercado mundial como os espanhóis?

Logo os espanhóis?

Sem desmerecer a Parfois, que nem sequer é de roupa, ou a Salsa, pouco nos resta. Mesmo muito pouco, para tanto potencial. Em troca de quê? Pancadinhas nas costas? Perda absoluta de autonomia económica? À mercê dos juros alheios? Endividados até morrer? Convencidos de que não conseguimos, de que dependemos dos outros para sobreviver? Chega de deixarmos que só um dite as regras do jogo. De sermos co-dependentes. Encolhidos, de nos escondermos. Se os espanhóis podem, nós também podemos. Homessa…

Always progressive, never conventional. 

A Fly London (e a Foreva) e a Gold Mud já os empurraram para um canto, Camper incluída. Só faltam os trapos.

  • LadyKina 03/04/2018 at 18:40

    Sacoor Brothers.

    • Isa 03/04/2018 at 18:54

      prova a qualidade mas não chega. As mulheres gastam muito mais dinheiro em roupa do que os homens, é nas lojas femininas que a aposta tem de ser feita, como fizeram os espanhóis.

  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 06/04/2018 at 00:17

    Só não me agrada essa de ter que usar publicidade em língua inglesa. Ainda para mais agora que, a acontecer Brexit – e tudo indica que Mrs. May está determinada e a maioria dos Ingleses apoia – não haverá na Europa um único país falante de inglês. As línguas de etimologia latina são suficientemente ricas para encontrar palavras sedutoras. Nem é preciso que correspondam a algo de real. Veja-se o caso dos deliciosos gelados Hagen Dazs (?) que são a minha perdição! Os espanhóis são mestres nisso. Basta ir ao Gourmet do Corte Inglês. Tudo o que por lá há, de uma criatividade sugestiva e primorosamente embalado, podia ter sido feito por em Portugal.
    Com a roupa é mais complicado porque a roupa corresponde sempre a estilos de vida internacionais. Gente ‘descomprometida’ veste o que lhe dá na gana e há vasto mercado para isso ( que nem sequer é barato); executivos/as têm padrões e designs apropriados, geralmente muito geométricos ( que visam ser elegantemente discretos); ’sedutores/as’ vestem-se não para si próprios mas para os outros (embora por vezes não seduzam nada…); ‘dondocas’ vestem-se para se distinguirem das anteriores (que abominam); ‘beatas’ vestem-se de acordo com a modéstia, frequentemente tristonha, de quem transporta uma cruz. O que se pretendeu com jeans e T-shirts ( o que de mais prático alguma vez se inventou) foi uniformizar socialmente o gosto e, consequentemente, a mensagem. Mas continua a haver ‘blue collars’ e ‘white collars’ em todas as mentes. As marcas – a coisa mais espertalhona que os estilistas inventaram – conseguem dar o tom social pondo os pagantes a fazerem por eles a publicidade dos artigos, e crescem como logotipos independentemente da qualidade do produto.
    A verdade é que encontrar roupa simples fora destes padrões é cada vez mais complicado. Gosto imenso de camisas brancas – iguais às dos homens mas com os botões ao contrário- e não é nada fácil encontrar tal coisa. Têm sempre que ter um ‘enfeite’ que estraga tudo, Quando encontro abasteço-me logo.
    Dantes havia as costureiras e as modistas e era possível inventarmos a nossa roupa, não por desejo de ter exclusivos, mas porque era uma espécie de ‘apetite’. Agora é tudo industrial! Muito difícil será Portugal conseguir romper num mercado internacional quando as suas mulheres já estão de há muito viciadas na importação das marcas.
    Para mim, que sou de outra época, o conjunto deve ser harmonioso. Não gosto de olhar para o espelho e ver-me uma paleta de cores. Duas ou três chega. Também não gosto, odeio, roupa rota e amarrotada… embora a moda pareça ir nesse sentido. Dá sempre o ar de quem não cuida de si, de quem não gosta de si o suficiente para se embrulhar saudavelmente.
    Os Gregos, Romanos e as suas túnicas tubulares são, penso, o máximo da elegância e simplicidade. Só que isso correspondia a um ritmo que contemplava a total liberdade do corpo mas exigia uma postura que não é compatível com os complicados ambientes decorativos que se seguiram. O mais parecido são aquelas lindas e coloridas túnicas e turbantes das africanas. Como gosto daquilo! A minha neta Rita, marido e filhas, foram passar a Páscoa à Amazonia. Estou ansiosa por saber o que vestiam as índias que por lá viram!

    • Isa 06/04/2018 at 11:29

      Também adoro camisas brancas, de homem, roubava imensas ao meu pai. As frases em inglês tem a ver com o facto de eventualmente venderem mais…

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