Precisamos de falar sobre assédio

10/01/2018

Depois da adesão em massa ao discurso #Timesup e #metoo nos Globos de Ouro, um manifesto francês, publicado no Le Monde,  encabeçado por Catherine Deneuve e assinado por mais 99 artistas, vem defender o direito à sedução. À “liberdade de importunar indispensável à liberdade sexual”.

Mais importante do que criar um clima de paranóia na cabeça das mulheres e de insegurança na cabeça dos homens, é deixar claro

O que é assédio. assedio

Qualquer manifestação de caráter moral ou sexual com o intuito de condicionar mulheres na sua liberdade de dizer não. Ou de as fazer agir contra a sua vontade. Coação esta que pode estar implícita caso o agente da mesma exercer, sob qualquer forma, algum tipo de poder sobre a mulher. For seu chefe, seu patrão, seu superior hierárquico, for seu familiar, muito mais velho. For fisicamente mais forte. Sempre que esse “não” é ignorado ou respeitado, o assédio passa a abuso. Ou violação, nos casos mais graves.

Mais importante ainda é dotar as mulheres de recursos próprios. Incutindo na cabeça das meninas, de TODAS as classes sociais, de todos os credos, desde a mais tenra idade, que podem e devem dizer que não, e fazer respeitar esse não, sempre que se sentirem desconfortáveis. Mesmo que não encontrem motivos racionais para tal. Há desconforto, há não. Porque não. Ao contrário do que nos diziam quando éramos crianças,

“Não” é resposta, sim.

E incutir na cabeça dos meninos que não têm o direito de forçar ninguém a nada. Que, por muito que lhes custe, não podem fazer com ninguém nada que essa pessoa não queira fazer. Que forçar alguém a alguma coisa não os torna poderosos nem fortes, mas cobardes e manipuladores

Não aprovo o piropo, acho-o invasivo e nojento, na grande maioria das vezes; considero o assédio, principalmente no local de trabalho, de uma cobardia sem nome; dificilmente me envolveria com um colega sem que eu ou ele mudássemos de escritório, mas não só aprovo como bato palmas à boa e velha sedução. Ao jogo amoroso, do qual faz parte o galanteio, que se estabelece entre duas pessoas que se atraem uma pela outra. E acho o maior corta-tesão do mundo ter de parar para responder que sim, podes isto, não, não podes aquilo. A linguagem corporal fala por si e só não a entende quem não quer, ou tem más intenções.

E concordo em absoluto com a posição do manifesto intelectual francês quando se refere à possível infantilização das mulheres, insinuando que são seres indefesos e que precisam de proteção. É precisamente pela via contrária que o problema tem de ser abordado. Para que saibam e decidam por si mesmas o que querem, quando, como e onde. Atribuindo às mulheres uma consciência emocional que lhes permite ter força intelectual e verbal para dizer Não.

Nesse caso, e em todos os outros, não é SEMPRE não.

Vale acrescentar que é igualmente digna de repúdio e de condenação sem pudores a conduta de algumas mulheres que, para dar vazão a caprichos e a neuroses de poder, abusam do sistema e respetivos instrumentos de proteção a vítimas de assédio e abuso, descredibilizando mulheres que venham a precisar desses instrumentos de proteção, como é o caso da Lei Maria da Penha, no Brasil.

É tão repugnante um homem que abusa de uma mulher, como uma mulher que abusa de um homem.

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