Primeiros Passos

11/09/2017

É tão difícil dar o primeiro passo. Mesmo quando somos crianças e aprendemos a andar. Não me lembro dos meus, literalmente, mas levar uma vida de recomeços implica uma série de primeiros passos. E, por mais que goste, não me habituo.

Custa-me sempre horrores

Deixar o velho, por mais que esteja longe de servir, para abraçar o novo; a ausência de palco, os fantasmas que assolam sempre, um bloqueio físico como se tivesse alguma coisa agarrada aos pés que não deixa caminhar, como as correntes e bolas de ferro dos presos antigos. primeiros passos

A única pessoa que vi dar os primeiros passos fê-lo porque a atraí com um carrinho que gostava de empurrar. Atingia velocidades alucinantes agarrada ao hipopótamo, mas quando o largava, parava.

Lembro-me que estava sentada na cama dela, a abanar o hipopótamo para trás e para a frente, fazia um barulho que a atraía. E ela a olhar para mim e para o hipopótamo. Até ter dado três passos, se ter agarrado a ele e ter seguido a vida dela como se nada fosse. Agarrei-a e levantei-a ao alto, de lágrimas no solhos, quase histérica.

Falta-me a impulsividade que para tantas outras coisas me caracteriza, me atira para a frente. A de me lançar e só depois ver se há rede. Cada vez me falta mais. Associo por exemplo o medo da velocidade à consciência. Quanto mais velhos vamos ficando, mais consciência temos de que somos falíveis e que qualquer coisa nos pode acontecer, como aos outros.

Mas uma coisa é um perigo real, outra um medo criado.

A fantasia que tanto prazer me dá quando vivo todo o tipo de coisas na minha cabeça, é como quem me mata nestes momentos. Criando vilões que não existem, cenários de guerras que não chegaram a acontecer, batalhas sem campo e duelos sem rivais.

Não há lógica que combata

Aliás, argumentos e tentativas de convencimento lógicos para travões emocionais não só não ajudam como ainda nos convencem mais de que somos incapazes.

Ontem vinha de carro e em determinados momentos da estrada não se via nada por causa do sol a pôr-se. Era uma rua de moradias, com apenas uma faixa para cada lado, e o perigo de bater de frente contra um carro no sentido oposto era real. Mantive-me dentro dos limites da minha faixa, vendo apenas a parte do caminho que estava imediatamente à minha frente.

Acelerei e segui

E se calhar é isso que falta, acelerar. Fazer sem parar para pensar.

Speed Kills the Censor é a frase de hoje.

Artist’s Date 251/365 – Try a Skateboard

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