Principezinho

09/10/2017

É comum acusar-se o Principezinho de ser uma das obras mais sobrevalorizadas da história da literatura. Tem quem padeça de urticária a cada vez que se menciona e quem deposite os olhos num horizonte longínquo numa nostalgia nem sabe bem de quê. Principezinho

Von Franz, uma das junguianas que mais respeito, tem um livro inteiro praticamente dedicado ao Saint Exupery, identificando-o com o aviador e usando-o como exemplo do arquétipo do Puer Aeternus, a eterna criança, de que o Peter Pan é o melhor e mais conhecido exemplo. Num tom nem sempre simpático para se referir a quem tem este arquétipo ativado. Em comparação com James Hillman, que nos dá uma perspetiva mais integrada do mesmo.

Este fim-de-semana, vi o Principezinho em teatro amador, encenado por um amigo.

Cheguei a emocionar-me em alguns momentos

Eu e os atores, que, apesar de fazerem teatro por desporto, deixam a alma em cada espetáculo que apresentam. Para não falar no que não se vê, as horas passadas a ensaiar, os adereços, os cenários, os fatos. No que eles de desdobram em nome da mesma paixão, o teatro.

Música, literatura e poesia fizeram a festa.

E tenho a dizer que precisamos de mais Principezinho em cada um de nós. Não no sentido exclusivo, de nos recusarmos a crescer, a ter responsabilidades, a renegar o mundo adulto e suas vantagens. Mas de resgatar o que de facto é essencial. E  tantas vezes invisível aos olhos. O ver com o coração. O tempo que dedicamos às nossas rosas e que faz delas únicas. A paciência para nos cativarmos uns aos outros. O sedimentar das relações. O ficar.

De não nos deixarmos levar pela ilusão de que somos importantes, que a emoção e os sentimentos, a consideração e a beleza das coisas, a poesia da vida são de somenos importância. O sucesso, os milhões, são como nós, efémeros. Que a nossa passagem por aqui tenha um bocadinho de tudo.

É disso que o equilíbrio é feito

E é sinal de sabedoria. Curiosamente, o arquétipo que está na polaridade do Puer Aeternus, o Puer Senex, o arquétipo do sábio. Para onde a eterna criança evolui, se não morrer novo, como acontece com a grande maioria dos Peter Pans. Que não aguentam o impacto da vida adulta. Como foi o caso de Saint Exupery.

There is no flower that cancels the need for another

Gosto de flores de lis, mas também gosto de miosótis e de margaridas. De girassóis e de flores selvagens. E de rosas vermelhas. Não há incompatibilidade nos jardins, as flores convivem todas umas com as outras. Como não há no céu, as estrelas não se acotovelam para ver qual brilha mais.

Nós temos de arranjar maneira de o fazer também…

Artist’s Date 279/365 – Buy Tulips (nesta altura do ano não há) Escolhemos rosas. No canto inferior esquerdo. Usadas na peça, cujo cenário é o da foto.

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