Privacidade

09/04/2018

Na senda das questões relacionadas com violação de privacidade levantadas recentemente, e não que tivesse alguma ilusão quanto à idoneidade de senhores como Zuckerberg e outros.

Um dia destes, a tentar ajudar uma amiga de São Paulo a escolher lugar para ficar em Lisboa, fui abrindo links de apartamentos que me mandava pelo whatsapp. Estava no telefone. Passado um bocado, abro o facebook no computador e qual o meu espanto quando vejo exatamente os mesmos dois apartamentos em link patrocinado. 

Achei verdadeiramente assustador…

Porque rapidamente me ocorreu que a vida que acontece fora do nosso alcance vai muito além do algoritmo, indo diretamente à fonte, o IP. Agora que escrevo, ocorre-me que, por pertencerem ao mesmo grupo, whatsapp e facebook podem bem trocar informações. Saber que o meu número de telefone anda à mercê do mundo, já não me bastava que andasse à mercê de Portugal, apavora-me.

Sou obcecada com privacidade.

Não porque tenha alguma coisa a esconder, mas porque ninguém tem nada a ver com a minha vida. Há muito que controlo o que publico, as informações que passo adiante. Foi nessa condição que voltei ao facebook, depois de seis meses de experiência e de mais de quatro anos fora da rede. No twitter, por exemplo, não deixo conversas à vista. Apago-as todas, só deixo tweets. No facebook, deixo apenas links para posts. Apago posts com fotos e/ou texto uns dias depois de os ter publicado. Irrita-me que as pessoas não saibam distinguir um momento de uma postura de vida. E que possam usá-lo contra mim. O meu instagram é privado e não tem muita gente. Um dia destes, também me deu a louca e apaguei uma série de imagens. Adoraria que desse para selecionar umas quantas e apagar várias de uma vez. Varria aquilo tudo.

Não dá para ficar fora do mundo, mas dá para minimizar o impacto.

Quando a mencionei no post, acrescentando apenas: creepy… ela sugeriu-me que baixasse uma aplicação chamada Ghostery. Fi-lo imediatamente para o telefone e o computador. A primeira coisa que notei foi o desaparecimento da publicidade que pisca de todos os lados e me inunda o cérebro de informação inútil.

Aguardo os resultados quanto aos efeitos físicos.

É impressionante o que acontece em cada página, e a quantidade de lixo associado, sem que nos apercebamos. O Ghostery vai contando a quantidade de sites associados a cada link que abrimos. Dá para bloquear e aceitar, por exemplo, o connect do facebook, o gravatar para comentar no meu site. Mas publicidade, addclicks? Tudo com o diabo, tudo bloqueado.

Não ter coisas a piscar a toda a hora, artigos a tentarem-me a cada segundo, é um descanso. É como deixar de viver a vida rodeada de pessoas que não me dizem nada, me acrescentam zero, e passar a vivê-la rodeada de pessoas com quem me identifico, colaboro, de quem gosto, que me ajudam a crescer. Que contribuem ativamente para que a minha vida melhore. Em vez de deixar que me distraiam do essencial, me iludam com promessas vãs, felicidade associada a consumismo desenfreado e exacerbado, me dominem pela crítica, a rejeição.

Só nos apercebemos quando deixamos de ter e por algum motivo, mudamos de browser, a coisa volta a aparecer.

É a diferença entre ter o mundo na nossa mão. Escolher a partir da nossa vontade, e deixar que o mundo escolha por nós. O que nunca, nunca, é em benefício nosso, mas do que serve ao coletivo, ao mundo, a um empresário gordo, ganancioso e com o rabo cheio de dinheiro. Acima de tudo, entre ser vítima e protagonista das minhas escolhas.

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