Pronto, já sei o que é sentir-me Cinderela.

31/08/2016

Num momento em que o verão começa a querer despedir-se lentamente, já temos uma hora de luz a menos outra vez, e talvez quando já tenham passado de moda, eis que encontro finalmente as minhas sandálias estilo alemão, aquelas iguais às de toda a gente, em 2014.

Houve uma fase recente da minha vida em que andava virada pros brilhos. Eram os meus 7 anos, aos 40. Pintava as unhas com brilhos e tudo. Nessa fase, atraiam-me imenso os sapatos com brilhos, sem nunca ter tido coragem para comprar, mais ou menos… Olhava com um misto de inveja e desprezo para os pés das miúdas de 4 anos e pensava: fizeste bem, aquilo não é para a tua idade. Entretanto, achei que tinha passado. Até que a fúria do brilho me atacou em grande estilo e foi logo de todas as cores.

Também houve uma fase em que tentei entender o fenómeno birkenstock. Só me faziam lembrar os chinelos de pau que a minha mãe usava quando éramos pequenos, e não eram boas memórias… Dediquei uma hora à causa, percorri todas as sapatarias de que me lembrei que pudessem ter as originais, experimentei, achei aquilo a coisa mais dura e desconfortável do mundo, era como andar com duas tábuas nos pés, eu a querer dobrar os dedos e nada daquilo dobrar também, confirmei que tinha pés de princesa, desisti de tentar entender e esqueci mais essa forma de pertencer, aquela que te diz que tens de andar igual aos outros ou não entras para o clube. Não deixando de olhar para as brancas e com os olhos a fugirem-me para algumas com brilhinhos de todas as cores. Quase comprei umas douradas uma vez, lindas… Como são de couro, nunca tive de me preocupar com tentações.

Hoje, por piada, entrei numa loja com a filha de uma amiga, de sete anos, a miúda, não a minha amiga. Estavam lá umas dessas que parecem brikenstock mas não são. Era o pé direito. A miúda, vendo-me pegar nelas, disse-me para experimentar. Como sabia que me iam magoar, experimentei. E foi nesse exato momento que percebi o que a Cinderela sentiu. E o Príncipe. A sandália serviu-me que nem uma luva, todas as partes do pé assentes e aconchegadas. Como o meu pé maior é o esquerdo, tive esperança que, como o direito estava perfeito, o esquerdo haveria de sobrar. Nada… Pelo contrário, outra luva. Com a miúda, de sete anos, a dizer: leva, leva, ficam-te bastante bem. Com estes brilhos todos? Sim, com esses brilhos todos… Era o único par, aquela, a única cor. Não as tirei mais. Acho até que vou dormir com elas…

E foi assim que acabei com a sandália alemã da moda, carregadinha de brilhos de todas as cores, nos pés. Pensei que fossem de uma marca italiana, que por acaso ao início não é lá pesmuito confortável, muito menos tão barata quanto isso, mas é gira, e depois passa e é até se desfazerem, marca que não encontro em todo o lado, só em dois bairros diferentes… Quando cheguei a casa é que reparei na caixa, são portugueses. Melhor ainda. Se há coisa que fazemos bem, para além de comer e beber, é sapatos, benza-nos deus. Essa indústria, de alta qualidade, ainda por cima, felizmente, perdura. Com boas marcas a calçar meio mundo, por esse mundo fora.

Depois, é como diz a Madalena (20 anos), parece que a fase dos brilhos já passou, que já acabou, que agora é que é, mas ela vem, sorrateira, como se tivesse estado sempre ali, sem nunca se ter ido embora. E aí é impossível. Outro dia tive de ir comprar umas paez brancas cheias de brilhos, dizia ela. Aquelas que parecem espelhos? Ela anuiu com a cabeça, resignada, olhos baixos e tudo. Percebi-a perfeitamente…

  • Barbara 01/09/2016 at 14:47

    Confesso que fiquei curiosíssima pra ver o sapato!

    • Isa 01/09/2016 at 15:05

      Juro que mostro, quando pintar a unha do pé :D

    error: Content is protected !!