Mentiras grandes e pequenas

10/10/2017

De como a publicidade não solicitada entra por todas as frinchas da nossa vida. Disfarçada, não assumida, camuflada. Fazendo que vivamos cada vez mais numa mentira, almejando a uma vida que não existe. Desrespeitando em absoluto o código da dita, que diz que toda a publicidade, em que meio for, tem de ser assinalada. E que os jornalistas, pelo seu código deontológico, não podem fazer publicidade. De como a ilusão da perfeição tem exatamente o mesmo efeito.

mentiras

Na ficção – Um filme, um telefilme e uma série.
O filme

Chama-se Uma família com etiqueta, The Joneses, no original. Passou um dia destes no Fox Movies, o que justifica a existência da Fox no mundo. De um jeito exagerado, como deve ser, para chocar, o filme conta-nos de uma suposta família feliz e bem sucedida, manipulando um bairro inteiro no sentido de fazê-lo acreditar que a felicidade e o sucesso estão em estourar dinheiro, em consumir. Até ao dia em que um dos influenciados se mata, por não conseguir encarar o facto de não poder corresponder ao padrão exigido, que, vale lembrar, é falso, não existe. É uma ilusão criada por atores que se fazem passar por uma família, comandados pelo número de produtos que cada um consegue vender. Todos presos à ilusão do poder, do dinheiro, do sucesso, enquanto grande solução para a vida. Muito bom.

O telefilme

É uma daquelas bostas que passa na Fox Life. Um nojo de fotografia, tudo mais falso que a roupa “de marca” que se vende na feira de Carcavelos. Mas como era sobre uma mulher que tinha um blog, fiquei a ver. Outro exagero. A blogger em causa completamente nas mãos da agente, não dava um traque sem fazer um vídeo para o blog, desde anunciar o noivado a sabe deus mais o quê. O quão condicionados ficamos quando vendemos a alma a troco de meia dúzia de milhares de euros. Tudo com base na necessidade de sermos vistos e reconhecidos. Tudo falso.

A série

Chama-se Big, Little Lies. Comecei a ver por me ter chamado a atenção o facto de concentrar três atrizes muito conhecidas: a legalmente loura, que ainda não me convenceu, a Nicole Kidman e a Laura Dern.

Elenco de luxo numa produção, claro, da HBO, que tem mais qualidade nas séries que hospeda do que todos os filmes do FOX Life juntos e misturados. Cinematográfica. Adaptação para TV escrita pelo mesmo tipo do Sexo e a Cidade, David E. Kelly.

Prendeu-me de tal maneira, e não sei explicar porquê, que não aguentei esperar. Fui à net e vi a primeira temporada toda de seguida. Muito boa. As casas onde vivem estas três personagens são uma coisa do outro mundo. Nenhuma delas trabalha fora, todas riquíssimas, sem que ninguém perceba o que fazem os maridos. A personagem da Nicole Kidman apanha do marido. A Laura Dern, desejosa de arranjar um bode expiatório, de uma crueldade para com as crianças, colegas da filha, tenta dar cabo da vida da mais humilde das cinco personagens mulheres e protagonistas da história, apesar de esta se centrar mais em três delas. A ilusão da perfeição (que a publicidade explora até à exaustão). A ostentação e a podridão bem espelhadas. E mais não digo, vale muito a pena ver. Grande enredo.

Na realidade

Publicidade descarada à Marlboro, quando a publicidade ao tabaco na TV é proibida há anos e o ato de fumar até dos filmes e novelas foi banido, no telejornal da RTP, o canal público de TV.

Gente que se diz jornalista, que trabalha em revistas em que supostamente noticia todo o tipo de serviço, que assina artigos em parceria com clínicas.

Não é uma questão de paternalismo, mas de co-responsabilidade.

Safa-se o Casal Mistério, abençoados.

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