Reconhecimento

16/06/2017

Dizia-me um dia destes amigo músico querido que se o CD dele não chega a lado algum, se não se ouve, se ninguém fala dele, ele, o meu amigo, não existe. Não vou tão longe, mas também eu sinto ausência de reconhecimento quando publico um texto que me sai do pelo, em que dou tudo, e não obtenho retorno.

Quando o texto me chega, não me toca muito, porque o retorno vem do ato de fazer, do contacto a que me permito quando crio, do lugar onde chego quando deixo que os dedos digitem sem filtro, sem parar. Da conexão que obtenho com o ato criativo.   reconhecimento

Por isso não é uma questão de ego, de nos dizerem que somos bons.

Uma questão de ego é o falem bem ou falem mal, mas falem de mim. Frase que sempre me fez confusão e que agora entendo na perfeição.

O trabalho artístico vem de um outro lugar que não a consciência, o mundo comum, a recompensa imediata, vazia de tudo.

É uma questão de conexão, de ligação, de alma, do mais autêntico de nós, do que queremos verdadeiramente que seja visto, reconhecido e aceite. O que vai além da persona e do ego, do externo. O que comunica diretamente com algo que existe no outro e de que sequer tem consciência. Trata-se de um outro nível de profundidade.

É uma questão de existência sim, está certíssimo o meu amigo.

O trabalho artístico não é mais do que uma tentativa de chegarmos a alguém pela expressão do que nos é mais precioso, seja porque o tememos seja porque nos deixa despidos de tudo, em carne e osso, sem máscaras nem disfarces.

É de um reconhecimento existencial que falamos. Não de elogio, congratulação, confetes. Medalhas ao peito, prémios e diplomas na parede. Aliás, quanto mais discreto, honesto e sincero for esse reconhecimento, melhor. Manifestado, de preferência. É o reconhecimento que chega com o riso, a comoção, o abraço, as palavras que não têm como sair.

O reconhecimento é sempre vital, fatal, até.

Pode é prender-se com o físico, e a consequência de ausência do mesmo é mais visível e consciente, ou com o psíquico, mais difícil de discernir.

Diz-se que um bebé que não é tocado nos primeiros minutos de vida, acho que 45, morre. Também se diz que corpo tocado é corpo amado.

Daí a importância do abraço. O reconhecimento da presença pelo toque: eu vejo-te e sinto-te, noto-te e quero que te sintas presente, e amado. O reconhecimento físico, corpóreo.

Por falar em ver, e a quantidade de pessoas que não olha nos olhos? Não olhar nos olhos é não ver nem querer ser visto. É ausência de reconhecimento, também, por mais que seja uma medida preventiva.

Protege, sim, mas mais do que isso isola e o isolamento é uma falsa sensação de proteção.

Há muito em Portugal a mania de que estragamos as pessoas se as elogiamos, preocupadíssimos que estamos com o ego alheio. O ego alheio é um problema alheio e essa é uma boa desculpa para nos mantermos fixados na ilusão de controlo e poder, em vez de deixarmos vir à tona o que verdadeiramente importa. E, ao contrário do que possamos pensar, não é o outro que estamos a salvar, a libertar. É a nós mesmos, da amargura, da crítica, da vigilância, do medo, da prisão emocional e mental em que nos encerramos. Voluntariamente, que é o pior.

Don’t kill yourself for recognition; Don’t hide yourself from Life.

Ref.: este e este

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