Salvador Sobral

13/05/2017

salvador sobralTenho estado com o Salvador Sobral na cabeça, encantada, a tentar elaborar o que simboliza, independentemente do talento, da originalidade, da autenticidade, da descontração, de ser especialíssimo.

Não há nele raiva, coitadismo, vergonha ou queixume. Arrogância ou falsa modéstia.

Haver tanta gente a elogiá-lo só me enche de esperança. Consensual entre adolescentes, miúdas de vinte e tal anos, homens de barba rija, de coração peludo, e de poesia na alma, e cotas como eu. Depois da conquista do Euro, pode ser que a mentalidade portuguesa mude. E seja possível olhar para a vida de um jeito que não o do costume.

Ao contrário do Cristiano, não é o que o Salvador faz que me move, me causa admiração, me encanta. É a postura, quem é e o que representa*.

Independentemente de nutrir particular apreço por artistas e por músicos que sabem o que estão a fazer, têm bom gosto e são apaixonados pela arte a que se dedicam. Um tipo que toque piano leva logo vantagem em relação a outros. Se for giro e gostar de jazz não precisa de muito mais.

O Salvador tem tudo o que admiro, ainda mais na idade dele, cabeça ótima. Para além do frescor, do alívio, da brisa que é haver alguém a fazer sucesso sem reclamar, se queixar, sem falar da vida com raiva, se ver como vítima. Não me canso de repetir.

Toca, canta, faz a vida dele, não exige, não se acha cheio de direitos, a última coca-cola do deserto, e não chateia ninguém.

E quanto mais gente houver a fazer o que gosta, menos há gente a lamentar-se nas redes sociais, a arranjar discussões idiotas, a procurar briga com metade do mundo, a infernizar a outra metade.

Honestamente, Portugal ganhar ou não o festival é para o lado que durmo melhor. Mas se isso permitir ao Salvador fazer concertos e ganhar a vida com a música, que Portugal ganhe o Festival. O verdadeiro talento, a paixão genuína, não andam por aí a dar sopa, não dá para desprezar.

Do que os portugueses precisam é de mais Salvador Sobral e menos mimimi. E se perdermos, que se foda.

*Entretanto, não paro de ouvir o disco, que é incrível, da melodia ao tom, passando pelas letras.

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