São Paulo em Lisboa

07/01/2018

Continuo a apaixonar-me 20 vezes por dia, como quando tinha 15 anos e achava que as paixões duravam para sempre. Que o para sempre acontecia num instante, que era possível viver no alvoroço. Todos os dias. E estou convencida de que é o que me salva da morte. Esta paixão desenfreada, a capacidade de maravilhamento, apenas cabível às crianças e aos artistas, resgata-me do flirt que mantenho com a morte desde que me conheço, à razão de uma vez por mês.

Ou de 15 em 15 dias.

Com o vestido de ontem, o cabelo em desalinho e a cabeça entorpecida pelo vinho, saio do Rato e decido ir a pé até ao Cais do Sodré, num dia que acordou cheio de um sol resplandecente de inverno, no mais azul dos céus. Refletido nas pedras da calçada, quase me cega, na mesma medida em que me aquece o andar meio trôpego dos saltos e do sono. Só o instinto me salva nestas horas. E o ser sempre a direito. Meia hora depois, estava dentro do combóio.

Numa noite de despedidas e sotaques do sul, reencontro-me com São Paulo em Lisboa. Inebriada pelas palavras dos poetas, pela sua sensibilidade e coragem, encantada com os reencontros que me relembram que, com a morte, apenas podemos flirtar.

É nessa dança entre o abismo e a faísca da alma nos olhos de um estranho, entre o buraco escuro e um sorriso franco, que nos damos conta de que estamos vivos. É esse flirt ocasional com a morte que nos mantém a cabeça livre, o coração aberto e as pernas em movimento. Para encontros que estavam previstos nas estrelas, em suspenso, à espera que estivéssemos prontos para os reconhecer.

Num casamento perfeito entre o intelecto e a poesia

Que não estamos sós se nos permitirmos ouvir e ficar com quem fala a nossa linguagem. A que vai além da cabeça e das definições, do coletivo imediato. Da cátedra, das pré-conceções. A que faz sentido sem precisar de explicações ou contextos. A dos símbolos e do humor, da sensibilidade e da coragem, da verdade com poesia. A linguagem sem hierarquia. Que fala com o nosso corpo todo, que o ilumina, o aconchega, o identifica e o reconhece. Orgânica, como deve ser.

Que há um lugar para todos os sotaques, todos os interesses, todas as vontades, todas as descobertas, todas as aventuras, todas as jornadas, todos os heróis.

E que teremos sempre Lisboa.

Lisboa

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