Sentido

04/10/2019

Um dia destes, dei por mim a pensar que as pessoas espirituais e/ou religiosas têm a vida mais facilitada do que a de quem não acredita em grande coisa.

Numa força superior, que cuida e sabe o que é melhor para nós. 

Que nos conhece e ao sentido da nossa vida. E tudo o que nos acontece faz parte dos seus desígnios. Que estamos aqui para aguentar. Mas ao menos não estamos sozinhos. Nem o fazemos em vão.

Pois tudo isto tem um propósito maior.

Mesmo sabendo o sentido, e tendo como principal religião a psicologia junguiana, que prevê essa figura divina, esse arquétipo, a quem chama Self e que mora em cada um de nós. É quem sabe qual o propósito da existência individual.

E principalmente em momentos de crise, em que duvido de tudo, até da fé…, dei por mim a sentir uma certa invejinha dessas pessoas. Cuja existência não parece atormentá-las tanto.

E senti-me ainda mais sozinha do que é costume.

Acresce que sou INFP, ou seja, não vivo sem um sentido. Só que o sentido que descobri para a existência agora já não me chega.

Essas pessoas acreditam mais em mim do que eu.

Têm mais fé em mim do que eu, que conheço o tamanho do meu mostro da preguiça e o meu parasitismo emocional. E têm um motivo para acordar todos os dias. Eu, às vezes, não tenho…

Até ter lido um livro chamado Man’s search for meaning…

Escrito por um psiquiatra judeu num campo de concentração. Era um rapazinho quando para lá foi. E podia ter escolhido entre os EUA e a morte. Escolheu os campos de concentração. Porque os pais, que não tinham escolha, já lá estavam.

O livro não foca nos horrores no nazismo, porque já se escreveu e filmou demasiado sobre o tema. Mas sim na psique de homens que sabem que vão morrer asfixiados numa câmara de gás.

Que é uma questão de tempo.

E descoberto que não estou completamente desprotegida, nesta minha ausência de espiritualidade. Que o máximo que aguenta são uns convívios em dupla na natureza, para repor a energia física drenada pelo convívio inevitável com extrovertidos e suas carências.

Estar convencida de que não temos todo o poder sobre quase tudo não é uma questão de fé, é uma questão de humildade.

O Universo é demasiado grande para tamanha pretensão.

De acordo então com este psiquiatra, parece que nos salva a criatividade. Ou a fantasia, não me lembro bem.

A capacidade de voar para um mundo próprio para evitar lidar com a realidade, enquanto o ego ainda não está preparado para a aceitar. Normalmente, uma nova versão do mesmo ser.

O velho é chato, mas é seguro.

E o cérebro é preguiçoso para mudar. A sua principal função é poupar recursos, como se nos preparasse para uma guerra, para a escassez, garantindo que o que temos é suficiente para combater o perigo e a ele sobreviver. Não interessa como, desde que não morramos.

Descobrir como viver é problema individual de cada um.

Para não lidar com isso, ajuda então essa capacidade de nos voltarmos para um mundo de paz e harmonia, cores garridas e cabelos ao vento, emoldurando sorrisos esgazeados, como se vivêssemos num teledisco de uma canção dos Beatles.

A miudagem de hoje já não deve saber o que é um teledisco.

Numa experiência extrema, de fome, frio, absoluto terror e o pânico de quem sabe a data certa da sua morte, o autor observa as reações dos seus companheiros de infortúnio e depreende, chega à conclusão, que considerando tudo, e na mais fraca e frágil das condições físicas e humanas, o que deita um homem abaixo e o mata em menos tempo do que aos outros é a sensação de ausência de sentido. Mesmo na morte o encontrando.

Observa as minhas estantes e terás uma noção bastante precisa sobre as minhas obsessões. Uma delas ocupa um dos quadrados das estantes básicas do Ikea: soul e meaning são as palavras de ordem desse buraco da estante em particular. Que acumula livros ao alto e ao atravessado, em duas linhas, aproveitando a profundidade da prateleira, em detrimento do seu comprimento.

A verdade é que se não fosse o meu mundo interno, e a capacidade que tenho para a fantasia, sabe deus o que teria sido de mim estes anos todos.

Seja como for, já não me chega.

Parece que agora não tenho outro remédio senão começar a viver, ou lá o que é. O que me deixa confusa em relação ao que andei a fazer com a minha vida estes anos todos…

Às vezes acho que foi um enorme desperdício todo o tempo que dediquei e dedico ao ócio. Mesmo quando me digo, e seja verdade, que faz parte do processo criativo. E que mesmo que não o sinta, o inconsciente está a trabalhar para o meu próximo livro. Daí a uns dias, quando a tormenta passar, lhe descobrirei o sentido. O propósito.

E que toda a ficção que consumo, na grande maioria lixo televisivo, não me ocupe demasiado espaço no disco rígido mental e me sirva de alguma coisa.

Ultimamente, nem a mim convenço…

Mas o autor do livro quase me convenceu de que a minha fantasia e os meus momentos de dormência não são, afinal, um desperdício de existência.

Cabe-me a mim a coragem de fazer deles algo de útil. Ou, pelo menos, criativo.

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