Setembro

05/09/2018

Ainda sou do tempo em que as aulas começavam em outubro. Por isso, setembro nunca me disse grande coisa. É um mês que nem é carne nem é peixe, é verão, mas também é outono, mais ou menos. Os dias são visivelmente mais pequenos, o que me deprime sempre imenso. Normalmente nem dou por ele, por me parecer menor do que os outros, apesar de ter os mesmos 30 dias. 

O tempo de estudante já lá vai há muito.

A última vez que o fiz, com calendários, aulas e obrigações, foi em São Paulo, onde o ano começa quando deve começar, em janeiro. E nem o magnífico texto do Joel me convenceu. Independentemente de o achar belíssimo e de me dar vontade de gostar de setembro só por causa dele.

Essa coisa da rentrée foi inventada pela comunicação social para justificar a silly season, as férias do pessoal. E aproveitar para mumificar o espectador mais um bocadinho.

Os meus recomeços são em janeiro.

Em outubro, na verdade, que é quando completo mais um ano de vida. Janeiro serve para renovar a esperança. Que cai logo por terra de tão comprido e frio é esse mês.

Mas agora que pratico uma atividade que se guia pelo ano letivo, mas com muito menos férias, graças a deus, acabo de descobrir uma forma de amar setembro.

Ontem, voltei às aulas de grupo regular de aprofundamento de Biodanza.

Apesar de ter um sentido de humor imenso e de ser engraçada, o que acontece de forma natural com as pessoas espontâneas e expressivas, sou uma pessoa séria. Não tenho a menor paciência para palhaçadas, brincadeiras, perdas de tempo.

Não vim a este mundo a passeio, já disse.

Também me faz impressão a dispersão, a ausência de foco. E desde que descobri o que vim aqui fazer, não perco muito tempo com o que ou quem não me acrescenta. É tempo que me falta para fazer o que realmente me faz sentido, me fala à alma, me descansa, me nutre, me alimenta, a todos os níveis.

Por tudo isso, e muito mais, não aguentava de saudades das minhas aulas de terça-feira. Um grupo pequeno, como eu gosto, comprometido, disponível. Com o melhor dos mestres. Que ontem nos conduziu, com a mestria de que só ele é capaz, por uma viagem pela sombra, em que me senti total como nunca antes havia experienciado. Estava toda, inteira, ali, com a plena consciência do meu corpo, das minhas emoções, dos meus pensamentos, era uma só, uma sensação que quase me tirou o fôlego.

Para, logo de seguida, me sentir e ver como uma fénix.

Foi indescritível, quase saí a bater as asas pela sala fora.

Todas as sensações são absolutamente nossas, apenas induzidas pela música e as consignas, a introdução verbal que é feita antes de cada dança.

Não poderia ter começado da melhor forma. Uma viagem ao numinoso, que passa necessariamente pelo contacto com a sombra. A prometer muito, num ano em que me proponho consumar, em vez de consumir.

Como é bom voltar a respirar…

Obrigada, Nuno, és o rei disto tudo.

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