Setembro*

01/09/2016

Em Setembro lembramo-nos dos canaviais. Cheira a terra húmida e a apara-lápis, e o vento faz tombar sobre a terra os primeiros ouriços, precoces ainda.

Sei que entra Setembro porque ouço os pneus dos automóveis sobre o asfalto húmido. Há um arco-íris no céu, folhas de plátano pelo chão e nos rostos das crianças uma doçura.

Em Setembro casam-se as segundas oportunidades, e não há nada tão redentor como elas. E também é em Setembro que ficam deprimidos os que não suportam o silêncio.

Setembro é vindima e é crepúsculo. O crepúsculo foi sempre assim.

Nos grandes e calmos dias de Setembro, como lhes chamou o poeta, comem-se os últimos tomates, o resto do milho doce e o mel da Fajã da Serreta. Compram-se sapatos novos, tiram-se os casacos do armário e o Q.B. torna a fazer torrões de pistácio.

Tenho saudades de torrões de pistácio. E de chá de néveda. E de tempestades.

No mês de Setembro estreiam os filmes de Woody Allen. Voltam o jazz, o teatro e as noites sem programa, e também há festas em São Bartolomeu, com o José Eliseu cantando ao desafio.

Tudo é mais romântico em Setembro. As lavadias abrandam, o mar mantém-se cálido, as praias ficam desertas. E nós lembramo-nos dos canaviais.

Tudo é mais romântico e belo em Setembro, e é por isso que nos lembramos dos canaviais. E de casacos.

Lá mais para o final de Setembro abrem as primeiras beladonas, engordam os primeiros araçás, partem os primeiros cagarros. Talvez possamos até acender a lareira, lá mais para o final de Setembro – mas os ouriços continuarão precoces, como uma expectativa do que está para vir.

Amanhã entra Setembro, e Setembro traz sempre consigo a expectativa do que está para vir. Eu ainda sinto a expectativa do que está para vir.

*In “A Vida no Campo”, Joel Neto.

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