Sexta transplanetária

29/07/2019

Na sexta-feira passada ocorreu a festa transplanetária organizada pela minha amiga e guru de MBTI Mariana Portela. Que, com a generosidade que lhe é natural, convidou-me para ler no seu sarau. Aqui fica o que eu disse:

Obrigada à  Mariana, pelo convite e a honra; obrigada ao espaço, todo o mundo, e à mídia ninja, pela acolhida e a divulgação.

Hoje faria aniversário Carl Jung, que me salvou várias vezes, também ele um ET. Celebremo-lo pois então. Só vim aqui por isso.

Outra coisa que  também nos salva várias vezes, talvez todos os dias e nem nos damos conta, é o Amor, a mais sublime forma de redenção.

E de transcendência.

E Foi nesse estado de graça, do amor e da paixão, que escrevi o texto que se segue, cujo título roubei descaradamente aos Legião Urbana, e que se chama Eduardo e Mônica. Aqui vai, dedicado a todas as pessoas de coração grande.

Eduardo e Mônica*

De que nos serve o intelecto, mi amor, se não temos o carinho dos gestos? De que nos serve sermos éticos, exemplares, corretos, se nos falta a compaixão, a identificação com o outro, o humanismo, a capacidade de largar tudo e ir a correr cuidar dele? De que nos serve o sentido do dever, meu querido, sem a generosidade incondicional dos afetos, sem liberdade emocional? De que nos serve o que fazemos pelo outro, my love, se apenas o fazemos pelo nosso ego e não, nem que seja um bocadinho, para ver o outro feliz? Só para ver o outro feliz. De que nos serve a dedicação ao outro, se não conhecermos os nossos próprios limites? De que nos serve estarmos cheios de razão e nos faltar o coração? De que nos servem as ideias, a prossecução dos mesmos fins, se corremos em direções opostas? De que nos servimos, se não nos damos? De que nos servem as palavras, se nos faltam as ações? De que nos serve fazermos sentido, my darling, se nos falta tudo o resto? De que nos serve o desejo, se nos falta o sentimento? O prazer, se nos falta o envolvimento? De que nos serve a paixão, sem mais nada? De que nos serve amarmos o outro, se não for apenas pelo facto de existir?

O segundo, é um texto do meu segundo livro, um conjunto de cartas para Dr. Freud. Não sei se o Tom Sawyer era famoso no Brasil. Mas é uma referência da minha infância e até adolescência, [porque tinha irmãos mais novos que também viam]. Esta carta foi escrita pelo amigo do Tom, Huck, Huckleberry Finn.

Barco a remos

Um relacionamento, qualquer que seja, é como um barco a remos encostado à margem de um rio, preso com uma corrente e um cadeado ao corrimão de ferro da escada de pedra. Enquanto um segura no barco e no corrimão, o outro, também agarrado ao corrimão para não se desequilibrar, põe primeiro um pé, depois o outro. O que segurou o barco faz o mesmo, primeiro um pé, depois o outro. Já lá dentro, depois de soltar a corrente, um pega no remo e encosta-o à escada de pedra, fazendo força, para afastar o barco da margem, para que possam ambos levá-lo a bom porto. O barco é pesado, os dois precisam de remar até meio do rio, para poderem pôr o barco na direção certa e ir em frente. Se só um rema, o barco anda em círculos. Se ambos remam com a mesma força, vai direitinho. Se enfiam o remo mais fundo, o barco anda mais devagar, é preciso fazer mais força, se os remos ficam mais à superfície, a travessia é mais leve e o barco vai mais rápido. A força que ambos fazem tem de ser equilibrada, de contrário, o barco navega na direção das margens, onde há sempre pedras escondidas pelas águas verdes e nem sempre tão transparentes do rio, e onde o barco vai certamente encalhar. Pode ser que não seja preciso mergulhar no rio para o tirar de lá, pode ser que um dos ocupantes tenha de entrar dentro de água para descobrir que pedra está a encalhar o barco. As margens do rio também têm plantas, normalmente frondosas, compridas e emaranhadas, onde o barco poderá ficar preso e só com algum esforço, de ambos, poderá desprender-se e voltar ao meio do rio. Se só um rema, enquanto o outro descansa, para além de andar em círculos, vai cansar-se e desistir. Se ambos param de remar, o barco vai à deriva, e quem decide o seu rumo é a força da água e das correntes, sozinha, o que, já sabemos, não vai dar bom resultado, o barco vai acabar por encalhar, embicar numa margem, sem conseguir sair de lá sozinho. Se, a meio da travessia, um resolve saltar, dar um mergulho, o outro fica sozinho no barco, tentando segurá-lo. O que saltou está mais livre, nada um pouco até onde há pé, mas certamente vai acabar com os pés no lodo, enterrado até aos joelhos, de onde é difícil sair, para ambos os lados, barco ou margem. Ambos precisam decidir levar o barco até à praia fluvial, pará-lo e puxá-lo, para que não seja arrastado pela água para o meio do rio, sozinho, à deriva. Ambos precisam de sair, apanhar sol, nadar, se tiverem vontade. Um de cada vez ou os dois ao mesmo tempo. Ambos precisam voltar ao barco e fazer um esforço para o tirar da margem, o orientar no sentido certo e o fazer seguir em frente, para que possam chegar a bom porto, um que agrade a ambos. De contrário, pode ser que um nunca compareça na hora da partida.

Seu,

Huck

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