Solidão e solitude

14/01/2019

Para um introvertido, a solidão é lugar sagrado. Vital, de verdade. É o que nos permite criar, discernir, fora do ruído externo, o que nos é ou não precioso. É o meio de nos conectarmos connosco. E o espaço de que precisamos para respirar. Por isso, a minha solidão, ainda que esteja habituada a ela, é o que me salva. Não me faz impressão alguma. Prefiro-a mil vezes a estar sozinha numa sala cheia de gente, que não me diz nada e se alimenta de conversas vazias, de maledicência, de coscuvilhice, de assuntos do mundo, em discussões acesas que escondem vulnerabilidades imensas e nos isolam ainda mais.

Os introvertidos precisam de ficar sozinhos para conseguirem sobreviver no mundo.

Mas a solidão dos outros faz-me impressão.

Principalmente durante as festas, o Natal.

Se o ano novo concebo passá-lo sozinha, encho-me de tristeza de saber que outros o passarão. O Natal é-me inconcebível. Embora prefira passá-lo sozinha, apesar de me custar, a fazê-lo com famílias que não são a minha, por piedade, sem presentes nem histórias comuns, por mais que adore ouvir histórias das vidas dos outros. Histórias que marquem momentos, que definam caráter, que determinem escolhas. Custa menos a passar.

E na doença, e na velhice.

A solidão entre os doentes e os velhinhos, por estarem vulneráveis no seu ponto máximo, parte-me o coração.

Também me faz impressão a solidão na morte. O estarmos entregues a estranhos, porque os nossos não conseguem aguentar a nossa impotência e a inevitabilidade do fim. Faz-me impressão, imensa, saber que morreremos sozinhos, sem ninguém para nos dar a mão. Um beijinho na testa de boa viagem, nada…

À minha solidão, chamo-a pelo nome. À dos outros, embora fosse a pessoa que melhor a compreendesse, chamo solitude. Por me parecer sempre involuntária, mais uma resignação. Ou talvez seja ao contrário. A primeira involuntária e a segunda escolhida, ainda que por necessidade. Embora o dicionário as dê como iguais.

Estar sozinho requer alguma coragem.

A reclusão pode ser assustadora, somos nós sozinhos com os nossos demónios. Mas também é lugar de paz, e de vida. Uma vida imensa. Que sai da escuridão onde coabitamos. Porque, na dança com os nossos demónios, os corpos fundem-se e tornamo-nos num só. E, nessa fusão, novos seres surgem. Criativos, luminosos, cheios de cor, fantasia e liberdade.

A fantasia também é realidade.

É uma realidade diferente da do mundo das notícias. Mas é uma realidade total, por ser a nossa. Com tudo o que a compõe. Fantasmas, escuridão, desejos ocultos, fantasias insanas, mundos incríveis onde tudo acontece.

A idade vai dando uma convicção cada vez maior de que os fretes não valem a pena. Que nada compensa a sensação de estar num lugar onde não nos sentimos confortáveis. Muito menos com gente que pouco ou nada nos diz.

Ficar sozinho talvez requeira apenas resignação. E, para essa, talvez seja precisa ainda mais coragem…

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