Talvez me falte a corrida…

04/10/2016

Pouco mais de quatro meses depois de ter deixado de fumar tudo, eletrónicos e outros, a vontade de sentir o sabor e o cheiro é nula, quase de repugnância por tudo quanto envolve o fumo, os cigarros, a cinza, o nojo que tudo aquilo é. Os eletrochoques deixam-nos mesmo como se nunca tivéssemos fumado na vida, fisicamente, pelo menos. E se durante a grande maioria do tempo nem me lembro que alguma vez fumei, quando bebo uns copos ou estou com algumas pessoas que fumam dá-me alguma vontade. Se não bebo, controlo perfeitamente, se bebo, é mais difícil. O efeito dos copos, como das drogas, é o de retirar alguns filtros, que são impostos pela persona e controlados pelo ego, o responsável também pelo nosso autocontrolo. Onde há descontrolo, o ego falhou, foi tomado pelo complexo, superado pelo ser autodestrutivo que mora na cabeça de cada um de nós, o nosso predador particular.

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As associações que fazemos e/ou o que simboliza o cigarro ou o ato de fumar para cada um de nós é capaz de nos dar algumas pistas sobre o processo e a vontade individuais. Dei por mim a pensar nisso a sério, dado o descontrolo que se deu este fim-de-semana e acima de tudo os efeitos desse descontrolo durante dois, quase três, dias. Acho que ainda hoje os sinto… Uma violência… O preço que pagamos pelos excessos e carências vários é tanto mais alto quanto mais velhos vamos ficando. Lembro-me de uma frase mítica da Clara Ferreira Alves, que rezava assim: uma ressaca depois dos 50 é pior do que um ataque de sarna. No que acredito piamente e temo, daqui a uns cinco anos, levar uma semana para recuperar de um excessozinho inocente. A minha esperança é não mais precisar, que a idade me dê a condição dos velhos, a de dizer e fazer tudo o que me apetece, como os malucos. Sinto que estou no bom caminho.

Um cigarro é uma fuga, um vou lá fora e já venho, uma forma de os introvertidos voltarem a si, escaparem à pressão social, ao excesso de estímulo que é inevitável no convívio com gente, nos ambientes muito barulhentos ou luminosos, na presença de pessoas em demasia, mais que 5, às vezes, quando os espaços são muito pequenos. Barulho, luz, mais do que três a quatro pessoas a falar – para não ser radical, duas, na grande maioria do tempo, já é suficiente – são uma violência para um introvertido. Eu – cujos níveis de introversão vão subindo de forma avassaladora, achava que era por estar de luto, processo que implica obrigatoriamente uma reclusão, mas não, mas não… – começo a surtar, a ficar doida, a falar alto, a desatinar, a perder a paciência para tudo e para todos, principalmente para indecisões, lentidões, falta de objetivo, de foco, para gente tresmalhada. E sem me aperceber, o que é dramático. E para não o fazer, porque nem sempre dá e acima de tudo para não entrar num vórtice do qual me vou arrepender amargamente, as ressacas morais têm-se revelado bem piores do que as outras, se calhar fumo, ou como, mascarando uma necessidade com um falso conforto. A necessidade muito provavelmente é a de dar um tempo, ir ali, ficar comigo, reunir o pessoal, arranjar uma forma de consenso, equilibrar os níveis mentais de tolerância ao que acontece no exterior. Necessidade essa que nem sempre é clara, óbvia, precisamente por não estar sozinha, é sozinha que avalio e me dou conta das minhas necessidades do momento. Daí que nem sempre conheço os sinais que avisam: daqui a pouco vais-te passar, baza enquanto é tempo. É o meu curtíssimo limite para aguentar conversas de circunstância, espaços abertos e cheios de gente, espaços naturais amplos, vazios de gente e cheios da presença de deus são uma bênção, como são sempre todas as manifestações da natureza, mesmo as que assustam, fascinam-me, são-me magnéticas. Embora seja muitas vezes associado a um ato social, fumar um cigarro é um momento intimista, o que também é um perigo, quando a conversa é boa e a companhia melhor. É precisa alguma concentração, ao mesmo tempo que se pede uma entrega ao prazer, ao momento, ao privilégio da presença. E quando um copo de vinho acompanha uma conversa decente, a tentação torna-se enorme. Por fim, talvez seja a falta de concentração de corpo e mente no mesmo espaço. É quando a cabeça está noutro sítio qualquer e o corpo presente que nos tornamos ansiosos. E o resto da história é já sobejamente conhecida.

  • Helena Costa 04/10/2016 at 20:05

    Parei de fumar há 17 anos e a introversão não está entre minhas características. Mas me identifiquei imenso com seu texto, delicado e preciso. Parabéns por ele.
    Abraço,
    Helê

    • Isa 04/10/2016 at 20:58

      Obrigada, mas a definição de introversão a que me refiro é a da psicologia, não a que vem no dicionário… O que quer dizer que o que estimula, alimenta, nutre, mantém um introvertido vivo é o seu incrível mundo interno, ao contrário do Extrovertido, que se vê vivo, nutrido e tal com a interação com os outros. Estímulos internos versus estímulos externos. Os introvertidos não aguentam muita interação social e os extrovertidos não vivem sem ela. abraço :)

  • Beth Salgueiro 04/10/2016 at 22:34

    tenho vindo aqui com frequencia, gosto muito de ler coisas escritas com a alma portuguesa…
    beijo pra você!!

    • Isa 04/10/2016 at 22:36

      que beleza, querida :) bjo grande
      também te tenho lido :)

  • Tiago 06/10/2016 at 15:27

    E aí, eu que nunca fumei, mas sempre que pensei em fumar pensava em poder sair um pouco e ficar sozinho pensando sem ninguém falar na cabeça, finalmente encontrei alguém que descreva isso tão bem. Você e seus textos, sempre tão bons. =)

    • Isa 06/10/2016 at 15:38

      Engraçado falares nisso, querido Tiago, ontem uma amiga que nunca fumou dizia a mesma coisa. E que nunca tinha pensado nisso dessa forma, tal como outra, que fuma, e que também nunca tinha pensado nessa possibilidade. Pela parte que me toca, não sei se voltarei a conseguir encarar um casamento sem uma cigarrilha que me ajude a fugir do tumulto :) Bjo

      • Tiago 06/10/2016 at 17:35

        Casamento exige sim um “respiro” de vez em quando. O homem digital se enveredou pro vício dos games e eu posso estourar miolos por horas na frente da TV com meus pensamentos nas mais variadas coisas. =P
        Você deixou o Brasil definitivamente? Beijo querida.

        • Isa 06/10/2016 at 21:46

          Entendo te perfeitamente :). Sim, fixei-me na minha terra, perto do mar, longe do buliço da cidade, demasiados estímulos para a minha galopante introversão, e completamente anónima :) Não foi nada pensado, mas acabou por ser pelo melhor :)

          • Tiago 07/10/2016 at 15:30

            Vi uns posts falando de cidades portuguesas, fiquei com vontade de conhecer “a terrinha” como dizem no Brasil. Vou parar de te responder por aqui pra seus comentários não virarem um chat. :)

  • Isa 07/10/2016 at 21:59

    ahahahahahaha :D somos só nós aqui :) Bjo, vem sim, é linda a terrinha :D

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