Talvez o mundo esteja mesmo a mudar

25/02/2019

Talvez o mundo esteja mesmo a mudar, e os artistas da música e do cinema façam um pouco mais do que autodestruir-se, consumindo drogas e álcool até à morte.

Talvez por isso o Last Days do Gus van Sant seja uma chatice.

Sequer faz sentido no novo milénio, que já leva 20 anos, quase. Já não há paciência para o discurso do  desgraçadinho… Muito menos para o mutismo do desgraçadinho… E me custe tanto ver  Johnny Depp na situação em que se encontra. Envelheceu pessimamente…

A criatividade está diretamente relacionada com a ausência de freio, a escalpelização de dores, agruras, crises de identidade e este existencialismo que nos mata.

Tudo em prol de uma busca por um propósito maior.

Conseguido à custa de estupefacientes vários, que são bons porque nos conectam além do ego, abrem espaço para outros níveis de consciência. Mas que se tornam algozes, por nos fazerem cair na apatia, no miserabilismo, na autocomiseração, no vitimismo.   

Tornando-nos feios, decadentes, massacrados por anos de maus-tratos autoinfligidos.

E com uns dentes péssimos…

Talvez o glamour da decadência já não atraia tanto e os artistas modernos se voltem para causas nobres, como o ambiente, a politização, os direitos humanos, entre outras. Não para salvar o mundo, como o sem noção do Bob Geldof, mas para o tornar mais consciente. E usem a sua imagem para se associar a algo que o mude, fazendo com as suas vidas um pouco mais do que a criação e a dedicação à arte. Que já não é pouco. Mesmo que as causas não me digam grande coisa. E talvez os torne um bocadinho chatos, às vezes, por causa da perfeição que não existe em ninguém, nem mesmo no meu querido Sam Heughan.

Talvez os heróis sejam outros

Menos vítimas e mais proativos. Lembro-me dele, do Mark Ruffalo, do Leo Di Caprio. E tantos outros, que desconheço por não fazerem parte da minha geração. Na música vou descobrindo alguns, como os Cigarrettes After Sex, geniais, sem que com isso precisem de ser chatos, dramáticos. O sofrimento é bonito e tem o seu valor quando é genuíno, faz parte de um processo. Quando é dramático é só patético.

E a Lianne La Havas, a versão solar da Amy Winehouse.

Abro uma exceção ao génio Amy Winehouse, mas não a outras que artisticamente não valem um tostão furado e uma pessoa nem percebe bem como chegaram aonde chegaram.

Mesmo que atrasados mentais continuem a ser elevados a celebridades. Por não fazerem mais do que gritar e ajavardar na internet.

Talvez contradigam a tendência do cidadão comum para um narcisismo sem sentido, em que basta aparecer, fazer um stories sem conteúdo algum. Ao menos, o narcisismo da decadência tinha arte e conteúdo que justificasse. E no fundo tivesse a alma, a existência, como busca final. Ao contrário de agora, em que parece que só um ego chega. Como se não tivéssemos todos um… E uma necessidade gritante de o mostrar.

A comunicação também é diferente, basta pôr os olhos nos Muse, que dizem que o amor é a nossa resistência, sem deixarem de ser bons músicos, muito menos rebeldes. A agressividade raivosa e destrutiva, disfarçada de rebeldia, esteja ultrapassada, graças a deus.

Talvez vença o amor

Talvez a internet tenha isso de bom. Estão mais à mão de semear, são mais escrutinados. E por toda a gente, não apenas por um bando de paparazzi com sede de sangue. E isso os torne mais despertos, mais cuidadosos, mais conscientes da sua responsabilidade coletiva. Sem deixarem de fazer as suas vidas.

Também no desporto há uma preocupação com a imagem, a vida saudável. E só deus sabe o que me irritam os higienistas da saúde.

Talvez caminhemos para um mundo melhor, afinal. Quem diria. E quem não se adaptar, continuará a morrer. Sozinho, vítima apenas de si mesmo.

error: Content is protected !!