Tipo Sentimento

13/07/2017

Quando Salvador Sobral ganhou o festival, não faltou quem comentasse os gestos, os tiques, os trejeitos com que coreografava a música que interpretava. Numa entrevista de uma beleza indescritível, Salvador respondeu a esses comentários dizendo que havia descoberto que o corpo lhe dava coisas, lhe provocava sensações. Era essa a razão pela qual a sua performance em palco é tão diferente. E ele não está nem aí para o que os outros pensam dela.  sentimento

Sendo do tipo Sentimento, toda a vida me senti coagida a racionalizar emoções para poder validá-las.

Apesar de ser de um país manifestamente Sentimento, herdei o racionalismo dos gregos e sou fruto de uma cultura patriarcal. Para ajudar, sou a única menina entre três irmãos.

O masculino sempre imperou e o feminino nunca chegou a mandar lembranças.

Os sentimentos e as emoções foram sendo relegados para segundo plano, o que quer dizer que fui abafando a minha natureza. Nunca me tornei outra pessoa, ninguém se torna outra pessoa, mas quem era de verdade estava soterrado debaixo de intelectualidade, conhecimento, razão e lógica. Ainda que estas nunca, nunca se sobrepusessem ao sentimento. Podia até usá-las, mas no fundo, no fundo nunca me sentia bem ao fazê-lo, ao não dar prioridade ao Sentimento. Que por sua vez também me frustrava, por não achar maneira de não sofrer. O que conscientemente imperava era o intelecto, o cérebro, tudo o resto, incluindo o corpo, estava a serviço deste e quanto menos atrapalhasse melhor.

Precisei de mudar de país, de continente e de Hemisfério, de ir para o Brasil, para poder viver as minhas emoções e os meus sentimentos em paz.

Aprendi nas aulas de dança do ventre que não preciso de me encolher para respirar. Que os ombros podem ficar no lugar deles. E que o ar não necessariamente fica circunscrito ao diafragma e adjacências.

Anos depois, já noutras anDanças, num exercício que consistia simplesmente em respirar, deitada no chão, e concentrada única e exclusivamente no movimento da respiração, percebi claramente o que o Salvador queria dizer.

Três centros de decisão: desejo, emoção/sentimento e pensamento.

Considerando que:
– o desejo está representado na barriga, as emoções e os sentimentos no coração e o pensamento na cabeça;
– e que tudo, absolutamente tudo quanto fazemos tem forçosamente de passar por uma negociação com o ego;

Descobri que a cabeça perde muito do seu poder, restando-lhe apenas o de dizer sim ou não e esperar não ser apanhada desprevenida, na curva.

Comecei a respirar pela barriga e senti um canal entre esta e o coração, por onde o ar passava. Detinha-se no centro emocional de decisão e só depois subia à cabeça.

Há um desejo, que tem de passar pelo crivo do coração, para pessoas do tipo sentimento é obrigatório, este tem de saber se aguenta o embate. Só depois chega à cabeça, onde a negociação é feita. Sendo que dois dos três intervenientes no processo já aprovaram.

Se saltamos o coração, a cabeça, condicionada pelo coletivo e as regras sociais, trava os ímpetos e nada acontece.

Mas o desejo não desaparece…

É realmente a cabeça que tem a última palavra, porque é também ela que responde depois da concretização. É ela que encara a pressão externa e decide se é afetada ou não por ela, evitando ressacas morais por vezes mortais. Mas é o desejo quem tem a boa ideia e o coração que diz que pode ser. E, no meio disto tudo, convencer a cabeça é o mais fácil.

O difícil era dar atenção à barriga e ouvir o coração.

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