Torpor

15/04/2019

A verdade, Dr. Jung, é que é difícil aguentar viver sem o torpor. O torpor que nos aplaca a existência e o facto de sermos banais, iguais a toda a gente, nem piores nem melhores, distinguindo-nos uns dos outros pelas escolhas individuais, conduzidas com mais ou menos consciência. E apenas nos destacamos por nos dedicarmos mais ao que nos propusemos vir fazer a este mundo.

Enquanto que na Europa os ladrões esperam que as pessoas saiam de casa para lhes assaltar o domicílio, ou fazem roubos por esticão, no Brasil, os bandidos fazem questão de nos obrigar a olhar para eles, para isso apontando-nos uma arma à cara, tal é a sua necessidade de reconhecimento. E o poder que adquirem forçando alguém a reconhecê-los.

A teoria não é minha, mas encaixa bem e faz sentido.

Não quero chegar a velha, espero não passar dos 70 ainda assim, a correr o risco de tossir um pulmão, andar com uma bomba de oxigénio agarrada ao nariz, perder resistência física além da inevitável. Por isso, deixei de fumar. Também me irrita a dependência que se perpetua num ato tão estúpido como o de fumar um cigarro. Isso do prazer é para os fortes. O comum mortal como eu é viciado em nicotina. Mas eu não quero o cheiro, os cinzeiros cheios, nada que tenha a ver com o ato exceto a sensação de acalmia que me dá quando acendo um cigarro e inalo o fumo.

Fumar, seja o que for, é uma forma de torpor. De entorpecermos as emoções com as quais não queremos, podemos ou conseguimos lidar. Mas há outras, dezenas de outras formas de torpor. Uma para cada preferência. Para cada composição química. E sempre em demasia, obsessiva e compulsivamente, claro. Comer (açúcar ou gordura), sexo, compras, álcool, drogas, trabalho, religião, jogo, exercício físico, excesso de exterior, de atividade seja ela qual for, comprimidos… No mundo moderno, telefones e tablets.

Filmes e séries…

Se é para entorpecer emoções, então que seja um método que não me faça engordar nem me dê de brinde um cancro de pulmão, uma artéria bloqueada, um by-pass. Que seja então um método, com o alto patrocínio do sistema nacional de saúde, que me bloqueie neurotransmissores que impeçam a conexão cerebral entre um veneno e a área do cérebro correspondente, que é ativada quando recebe esse estímulo e me dá a sensação errada de prazer, de acalmia. Até dá, mas é ilusória, porque um segundo depois, a carência duplica e é assim que os vícios se perpetuam. E que não me faça sentir zombie, de preferência. Um método em que me reconheça, ainda.

Vale então o esforço, pensará o senhor.

Valeria. Se conseguisse emagrecer e afastar para longe as crises de abstinência. Por poder ir presa ou levar uma chapada, tal é o efeito que a privação de nicotina, daí se vê o perigo do seu veneno, provoca em mim.

Substituímos então um entorpecente por outro, sabendo que de nada adianta se acaso não confrontarmos as nossas emoções.

Mas, fica sempre a pergunta: para quê? Mesmo considerando tudo de mau associado a um comportamento compulsivo que indica tudo menos prazer. Independentemente de aliviar, ou disfarçar, mitigar o vazio da ausência de reconhecimento, e de até isso ser temporário, às vezes até pior, quando paramos o vazio vem a duplicar. Para quê? Mesmo considerando a ressaca moral, o excesso de emoção, as dores de cabeça no dia seguinte, o mal-estar físico em geral, já para não falar nas quantidades absurdas de dinheiro deitado à rua. E, o pior de tudo, nos arrependermos quase imediatamente a seguir.

Para quê?

Qual é a virtude? A recompensa? O ato heróico? A palmadinha nas costas? Com ou sem testemunhas. Qual é o prémio de compensação, além da saúde? E da nobre virtude do sacrifício, deus nos livre.

Porque não assumimos simplesmente o que somos, uns agarrados, e vivemos com isso? Mesmo que venhamos a arrepender-nos no minuto seguinte em que matámos o bicho da carência?

Porque parece mesmo que a coisa deixa de estar debaixo do holofote da neurose e volta lá para o lugar dela quando nos dedicamos à nobre causa do torpor. E retorna assim paramos os entorpecentes. O torpor é a solução dos preguiçosos, mesmo que esse torpor pareça que estamos sempre ligados no 220v.

Não deixa de ser torpor.

Tal como não deixa de ser torpor o facto de não conseguirmos fazer nada. De sabermos o que temos para fazer e ainda assim não conseguirmos mexer-nos, quando nos livramos de um vício.

Sabemos que são os primeiros dias, apenas. Que ao fim de muito pouco tempo os sintomas físicos de abstinência estão resolvidos. O problema é o emocional. Que duvido que se resolva…

Dá para viver sem torpor sem termos vontade de nos matar? Sem correr o risco de vivermos num tédio sem fim? Ou é uma questão de escolha de forma de entorpecimento? Dá para arranjar uma solução de compromisso entre o torpor e o vício? Torpor só em casos de extrema necessidade? Ao fim-de-semana, para não comprometer o resto?

Para quem é obsessivo-compulsivo este método, em princípio, não funciona…

Pelo sim, pelo não, vou ampliar a fronteira da identidade. A identificação existencial com determinado comportamento, crença, é o que nos molda o comportamento e dita que tipo de torpor nos alivia o ego.

Não há intelectualização que nos safe, Dr. Jung…

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