Trabalho

06/10/2017

A cada vez que um jogador de futebol dizia que agora era trabalhar, ou que tinha trabalhado muito para chegar até ali, o meu pai, que não era propriamente um ignorante, com o maior desprezo deste mundo, dizia: trabalhar, trabalhar. Tu sabes lá o que é trabalhar. Isso é lá trabalho.

Como se dedicar horas e horas sem fim a uma mesma tarefa não fosse trabalho.

Para ele, e para muita gente, o trabalho é algo de que não se gosta, tem de ser chato, de que temos de reclamar, de o odiar. Tem de ser racional e intelectualmente importante… Faça a sociedade girar, de forma objetiva. Algo que se faz com esforço, que obriga a sair de casa, a estar num escritório, ou numa obra, ou no campo a partir pedra, cedo. Que tem hora para começar e para acabar. Tempo esse que é ditado por alguém fora de nós. Por um chefe, um prazo, o trabalho que se acumula, o facto de estarmos horas enfiados numa sala, o horário do sol.

Ou não é trabalho

Por outro lado, os criativos, os artistas, muitos dos académicos, até serem professores e enquanto estão no ramo da investigação, e até os desportistas não são muitas vezes dignos do epíteto de trabalhadores. Os artistas então são acusados de tudo e mais alguma coisa. De preguiçosos, de loucos, de bêbedos, drogados, alucinados, gente que vive fora da realidade, chulos, entre outros mimos. trabalho

Como se a criação aparecesse por obra e graça do espírito santo.

Não implicasse horas e horas sem fim de trabalho. Braçal e outro.

Todas as horas do dia de um criativo, todas, são dedicadas ao seu trabalho. Que, para ser digno de alguma nota, tem por trás milhares de páginas deitadas fora, fortunas em materiais, horas a decorar texto, a ensaiar, a gravar. Depressões, dores de cabeça, frustrações, dúvidas matadoras, persistência, isolamento.

E o que dizer dos desportistas? Os atletas? Gente que faz da atividade física profissão? Só quem faz desporto com regularidade e observa as mudanças no corpo sabe olhar para outro e fazer uma pequena ideia das horas sem fim que passa a exercitar-se. Não há genética, alimentação, idade, operações plásticas, photoshop que disfarcem, escondam, favoreçam.

É trabalho. Muito e diário.

E uma gestão emocional que um trabalho mecânico talvez não exija. Ou um trabalho por conta de outrem. Em que a gente fecha a porta e acabou. São 5 horas por dia, ou 6.

Aqui não. É, como já disse, uma luta constante contra a vontade de desistir. Já para não falar na gestão da crítica, da exposição, a que a grande maioria não está sujeita.

Não iria tanto pelo sucesso dos fracassos criativos, mas pela resiliência em sobreviver-lhes. Em insistir e persistir. Em melhorar, aperfeiçoar. Em trabalhar em cima de uma crença, uma vontade, uma coisa que não tem corpo nem forma, que muitas vezes nem remunerada é. Quase um permanente salto de fé. Com toda a gente, fora e dentro da nossa cabeça, a criticar, a desvalorizar, a puxar a corda para o lado mais fraco.

Não há ninguém bem sucedido que não o diga: muito, muito, muito trabalho. Mesmo que seja bem-disposto, se ria, faça piadas, esteja de bem consigo e com o mundo.

A successful creative career is always built on successful creative failures. The trick is to survive them.

Artist’s Date 276/365 – Paint your Bathroom (a casa não é minha, não posso. Nem quero…)

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