Woodstock e Christiania

19/08/2019

Na passada sexta-feira, a RTP 1, por ocasião dos 50 anos do festival, passou um documentário sobre Woodstock.

Não sobre os concertos, mas sobre a organização do mesmo, mostrando como a coisa correu do lado de fora do palco.

Gostei tanto que apelei aos valores de Woodstock

E ao facto de precisarmos de os resgatar. O de senso de comunidade, de entre-ajuda, de paz, em vez de guerra…

Movidos pelo extremo, a sombra, do patriarcal, o militarismo, espelhado na guerra do Vietnam, os jovens, principalmente homens, que não tinham outro destino a não ser a guerra, faziam o melhor que podiam, repetindo, até à exaustão:

Make love not war

Um dos que ficou para o fim, depois de três dias de relativa alienação, intuía e bem como iria ser difícil a volta à realidade. Ao mundo apolíneo como o conhecemos.

Onde existem regras e hierarquia.

Hoje, na RTP 2, passou, às 16 horas, um documentário sobre os filhos de Christiania, a comunidade hippie dinamarquesa, que se formou em Copenhaga, nos anos 70.

Um mundo à parte onde vivem famílias inteiras completamente à margem do sistema.

Que acabou por atrair todo o tipo de gente que não se encaixava. Incluíndo toxicodependentes e malucos. por transmitir a ideia de que ali se podia tudo.

Como não se chamava a polícia, os próprios moradores acabavam por expulsar os agarrados de lá. Atiravam-lhes as coisas pela janela, limpavam e desinfectavam o espaço, que ficava pronto para outra.

Quando lá estive, em 2002, já não havia os problemas que trouxeram os anos 80 e o consumo de heroína.

Sequer violência, aparentemente.

O que vi era uma comunidade de gente que parecia ter parado no tempo. E, por mais que os ideais hippies sejam também alguns dos meus, rapidamente cheguei à conclusão que não resultaria, para mim, pelo menos, que preciso de um certo conforto para viver. Nomeadamente, de água quente para tomar banho…

E da minha privacidade assegurada

Quatro anos mais tarde, no sul da Índia, voltei a ter a mesma sensação: moraria aqui, numa casa na árvore, sem ninguém que me chateie, com vista para uma praia de água morninha. Com a mesma velocidade que o pensava, me arrependia. Ao ver uma mulher, com uma moca daqui até à lua, e um bebé de um ano, completamente nu, que se espolinhava num chão de areia, sem o mínimo de condições.

A história dos filhos dos hippies que nunca se contou é protagonizada por três dos filhos de Christiania. Duas mulheres e um homem. Nenhum deles me parecia feliz…

Os que ainda podem, chegam a confrontar os pais em relação ao que os obrigaram a viver, as ausências que sentiram e a exposição a que estiveram sujeitos. E que inclui seringas usadas, violência, lixo e toda a sorte de malucos.

Liberdade não implica ausência de responsabilidade

Uma delas diz que, à conta da liberdade que quiseram viver, acabaram por perder o contacto com a realidade. esquecendo-se deles mesmos, de cuidarem uns dos outros, inclusive dos próprios filhos. Ideais (matriarcais) pelos quais supostamente se moviam e que os levaram a Christiania

Um dos sinais de complexo materno é o consumo de drogas…

Neste documentário, os filhos testemunham na primeira pessoa como a ausência total e absoluta de patriarcal pode ser prejudicial. No sentido de falta de regras, limites, que dão a uma criança sensação de segurança. E condições básicas de saúde e higiene.

O problema não é o patriarcal e/ou o matriarcal, é o excesso de um e de outro.

É a ausência de equilíbrio entre essas duas forças. De Alteridade, a amena convivência entre os opostos. O matriarcal que, integrado, inclui nutrição, afeto, cuidado, aceitação; e o patriarcal, integrado, regras sociais, limites e orientação.

E viva a RTP 2, que quase todos os dias me surpreende com a sua sempre excelente qualidade.

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