“Vamos mudar o mundo”

12/03/2018

Há uma frase de íman de frigorífico que diz: “toda a gente quer mudar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça”. E outra que diz: “Se queres mudar o mundo, começa por ti mesmo”.

Que resume a minha proposta

A de começar a mudança por nós mesmos, pela da união dos opostos em nós. Ou, pelo menos, tentar conviver de forma amena entre os mesmos. Parando de nos pormos num dos lados da barricada, “o dos bons”, e de projetar tudo o que consideramos de mal no mundo em quem está do outro lado, acusando-o do que é conteúdo psíquico nosso e para onde não temos coragem de olhar. 

Partindo do princípio de que tudo o que dizemos publicamente tem consequências, implica responsabilidade, que não basta lançar acusações ao vento, nas redes sociais, na internet. Há que ter a coragem de acusar formalmente, se for o caso. Ou de pensar duas vezes antes, olhando para dentro para avaliar qual a nossa quota de responsabilidade no que nos acontece. Não para nos culparmos, mas para tentarmos perceber o que precisa de crescer em nós. Que necessidade psíquica tem de ser satisfeita?

Pôr fim à cultura da vitimização

Sendo responsáveis para com os outros e não pelos outros.

A vitimização, própria e alheia, é uma manobra de poder, disfarçada de valores nobres como a compaixão e solidariedade, no sentido em que pode condicionar e manipular pessoas bem intencionadas ou infantilizar e controlar terceiros, em benefício próprio.

Não caindo na: “Ditadura dos falsos fracos”

Começando por nos expressarmos a partir do Eu, não do tu ou do vós, que implicam acusação e defesa. Ou uma troca de acusações eterna, não se chegando a lado algum. Falando a partir do sentimos de verdade, nos incomoda, pensando no para quê de determinada atitude – qual o objetivo que pretendemos atingir -, e eventualmente no porquê, qual a raiz do comportamento autodestrutivo.

Tomando consciência de nós mesmos, da nossa realidade interna.

Constatamos que o problema não está nos outros, mas em nós. E que só nós podemos resolver a nossa vida. Mesmo que tenha sido sofrida. De nada adiantam acusações e indignações. Não nos resolvem o problema, desviam-nos do mesmo. Pois: “Não importa o que fizeram connosco, mas o que fizemos com isso”. (Frase atribuída a Sartre e a Jung)

A consciência das nossas fragilidades faz de nós mais humanos, permitindo que falemos de um lugar mais amoroso, mais equilibrado, em vez de partirmos de uma posição de poder.

Um é oposto do outro

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” C. G. Jung

O autoconhecimento é, assim, a minha proposta de solução para mudar o mundo. Só uma maior noção de nós mesmos permite que tomemos consciência da nossa sombra, a integremos e paremos de a projetar no exterior. Ao mesmo tempo que paramos com a dicotomia, a dualidade que existe em nós, em que o que conhecemos de nós puxa para um lado idealizado de nós mesmos e o inconsciente tenta compensar essa polaridade da consciência à nossa revelia, fazendo-nos dizer e fazer barbaridades, convencidos de que estamos do lado certo da razão.

“Quando odiamos alguém, odiamos alguma coisa que faz parte de nós. O que não faz parte de nós, não nos perturba”. Hermann Hesse

O autoconhecimento é a única forma de acabar com as discussões circulares e as soluções de poder. Caso contrário, viveremos num Benfica x Sporting eterno, num debate Esquerda x Direita sem fim. Improdutivo e sem sentido, parece mais coisa de criança e adolescente que precisa de se afirmar do que de adultos que ainda por cima têm o poder de mandar no mundo.

A imagem do Tao representa os opostos em nós.

Para a psicologia, o derradeiro confronto para chegar a uma identidade completa e devidamente integrada é o que opõe masculino e feminino.

Os homens têm um lado feminino inconsciente e as mulheres um lado masculino. Se ambos estiverem integrados, cumprem a função a que estão destinados, desempenhando o papel correspondente. Caso contrário, atrapalham-nos a vida e principalmente os relacionamentos. O que muita gente vê como autossabotagem não passa de desadequação de um dos personagens que habita o nosso inconsciente. Personagem esse que se encontra em desequilíbrio, por estar omisso ou a desempenhar um papel que não lhe cabe. Competindo em vez de colaborar para que o todo de nós atinja o propósito da sua alma.

A união de homens e mulheres em nome de uma causa comum, o bem-estar entre ambos os géneros, é crucial nesta fase do mundo ocidental, em que acusações de um lado e de outro poluem o ambiente, criando uma cultura de terror emocional que não vai levar a lugar algum.

Há alternativa à Idade Média

A união, em vez da troca de posições em que um dos géneros é chutado para a sombra e o outro domina. Por uma questão de consciência. Por um mundo melhor, mais equilibrado, mais ajustado. Pela amena convivência entre razão e emoção, masculino e feminino.

  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 12/03/2018 at 19:01

    É uma verdade irrefutável que o mundo tem que mudar através de uma mudança operada consciente e voluntariamente em cada um de nós. Foi essa a mensagem experiencial de Jesus, arriscando ao limite o que existe no Homem de capacidade de mudança. Cristãos ou não, todos sentimos que a mensagem de Jesus foi um facto marcante. Marcante para nós cristãos pelo que provou até à exaustão,: marcante para os seus degladiadores porque em dois mil anos não conseguiram abafá-la.
    Contudo, por mais que nos peses, Jesus não mudou o mundo! Criou um ideal da nossa relação com Deus, ideal que tem vindo a ser partilhado ao longo de todos estes séculos, mas que, tirando percentualmente raríssimas excepções, o mundo tem tido grande dificuldade em por em prática, embora teoricamente tudo procure encaminhar-nos para o Bem. E quando digo ‘Bem’ não estou a pensar em termos morais visto que Jesus, que eu saiba, não deixou outros perceitos morais para além de que amemos a Deus acima de tudo o mais e que amemos os outros como a nós mesmos.
    O primeiro mandamento está implícito no coração de cada homem. Seja qual for o nome pelo qual o nomeemos existe em todos nós um conceito de transcendência que, com a liberdade que nos assiste, podemos assumir ou rejeitar. Mas nem por isso Deus deixa de estar presente. O nosso consentimento é irrelevante, do mesmo modo que na existência admitamos ou não que os batimentos do coração são essenciais à vida: enquanto vivermos ele continuará a bater!
    O segundo mandamento, que é onde situa a sua – nossa, de todos nós – proposta é que nos amemos de tal modo, e conheçamos de tal modo o amor e a felicidade que nos proporciona, que desejemos transmiti-lo aos outros, para que eles não apenas no-lo devolvam mas, para que, acima de tudo, os espalhem e essa ‘evangelização’ nos devolva um mundo melhor.
    Não creio que haja alguém que conhecendo o Bem – e todos nós, mesmo os mais ‘desleixados’, sabemos distinguir o Bem do Mal, através do retorno que resulta da prática do mal – pratique voluntariamente, ainda quando racionalmente, actos, factos ou acções que sejam danosos para a Humanidade e para a sua envolvente. A maior parte das vezes é ‘um sem querer’ sem remédio.Mal fizemos, já está feito.E o que foi nem Deus pode fazer com que não tenha sido.
    O problema com que Jesus se debateu naquele momento histárico era um problema de poder. Do poder exercido pelos poderosos vs o poder dos fracos, como ele, que detenham, como ele, a noção exacta do seu ser, criado, único, livre, indestrutível.
    É óbvio que o poder dos fracos senhores desta certeza é muito superior ao poder dos fortes, cujo poder assenta inexoravelmente – diz-nos a História – em complicadas bases de medos, cumplicidades, estratégias, interesses partilhados difíceis de construir e não menos dificeis de destruir.
    Um homem sozinho, consciente da sua liberdade – ou pelo menos do seu livre-arbitrio, quando integrado numa sociedade organizada de que não quer, não deve ou não pode isolar-se – tem a força inamovível de um rochedo: delineia o seu caminho numa exigência de verdade, recusa todas as formas de atentados contra a alma com que o mundo o confronta diariamente. Mas onde encontramos essas pessoas? Muito raramente as encontramos porque ou o mundo as submerge na luta quotidiana pelo poder – e não me refiro ao poder das nações, dos estados, dos superiores hierarquicos, porque chega o poder dos relógios…-, ou são marginalizados, em maior ou menor escala, de acordo com o grau das suas ‘originalidades’ ou, no melhor, das concessões que fazem.
    A Civilização Ocidental, de raiz cristã, foi subtilmente moldando o exemplo da matriz às fragilidades humanas que lhe eram anteriores e à força da supremacia. Porque humanas, encontramos-las nas comunidades mais primitivas que, ainda na sua pureza, se orientam por naturais instintos de sobrevivência (vale a pena ler Heródoto que, embora as suas “Estórias” já decorram numa Antiguidade com elevado grau civilizacional, nelas sejam patentes as lutas pelo poder e a forma como o poder consegue atrair os fracos, mesmo quando esse poder lhes é contrário) – e criando mecanismos teóricos, com base na Religião, no Direito, na Política, que vão ‘podando’ desde muito cedo a veleidade de sermos diferentes ou de sequer o pensarmos.
    Não é por mal nem, creio, por questões de poder! A maior parte das pessoas não tem, efectivamente, poder nenhum nem o deseja! É apenas a facilidade do hábito, de dar continuidade aquilo que aprendemos e nos foi transmitido como a única maneira de estar no mundo. Isso é bem visível, a nível curricular, na Educação.
    As tentativas de alterações curriculares, agora a maior parte delas impostas pelo desenvolvimento científico e tecnológico, debatem-se com problemas quase de tipo medieval. Quem sabe uma determinada coisa, de uma determinada maneira maioritariamente aceite pela sociedade tem implícito, o poder de a tornar aceite! E este é um facto velho como o mundo! O conhecimento teorizado, seja qual for o tema, é, com os seus ‘ismos’, parente das ideologias.
    Daí que eu, com base nos meus oitenta anos, várias lutas e o consequente conhecimento do mundo (sempre insuficiente….) não creia que possamos mudar o mundo em sentido largo. Podemos, com empenho, sorte e boa-vontade, mudar o nosso pequeno mundo, aquele onde queremos viver as nossas vidas, aquele de que queremos fazer parte. Para isso é essencial conhecermos-nos e estarmos de bem com o que somos, ainda quando não tenhamos aprovação maioritária.
    Ganha-se muito em verticalidade e independência mas também se perdem, ou se dão de barato, coisas que para os outros são essenciais e para as quais nós nos estamos nas tintas. Pessoas muito próximas, que amamos ou com quem temos laços de amizade, vão, sem que nos apercebamos como, passando para a periferia desse nosso mundo que, podendo não ser o melhor, é o nosso. Impor aos outros seja o que for é mais do que um exercício de poder: é uma tremenda responsabilidade!
    Nem tudo o que ‘é bem’serve para todos. Da moral nem se fala! Como disse alguém, “ a pornografia é uma questão de geografia” e, como canta Liza Minelli no filme “Cabaret”, “Money makes the world go round” … e o mundo não pode parar.
    Curiosamente, e talvez seja pessimismo da minha parte, receio que o problema educacional, apesar dos muitos teóricos que se seguiram ao Spock aconselharem grande respeito pela criança e pelo desenvolvimento da sua personalidade, receio que tudo se esteja, subtilmente, a passar em sentido contrário. Hoje ser criança é um emprego! Depois dos colégios, da ginástica, do judo, do ballet, da equitação e outras actividades de acordo com as possibilidades das famílias ou das Juntas de Freguesia, não lhes sobra tempo para sonhar nem energia para contestar, devido à dependência em que naturalmente vivem.Limitam-se a exigir ‘coisas’ que, se possível, lhes são concedidas, se impossivel se transformam em ‘frustrações’.
    A falar verdade nunca percebi bem o que era isso das frustrações. Entendo-a sim na criança de cinco anos que, sozinho com a mãe em casa, foi dar com ela esfaqueada e se viu não só perante a impossibilidade de reverter a tragédia, como terá perdido toda a confiança num mundo de tal modo decepcionante. Tal como nós quando tomamos conhecimento destas notícias…

    • Isa 12/03/2018 at 23:12

      Este era um desafio proposto já não sei por quem. Tínhamos de escrever uma proposta para mudar o mundo e a que ganhasse iria apresentá-la ao Guterres, nos EUA. E seria publicada pela revista Egoísta.

      Esta foi a minha proposta, não custa dinheiro algum, não tive de inventar a roda, mas dá um trabalho do caneco e talvez por isso tenha sido ignorada, por não ser um produto não apelar ao consumismo, ao glamour, ao bem na fotografia. O desgraçado do Gandhi andava enrolado em lençóis pela Índia, temo o pior para a minha vida… :))

  • Ana 12/03/2018 at 22:26

    Achei curiosa a frase “Para a psicologia, o derradeiro confronto para chegar a uma identidade completa e devidamente integrada é o que opõe masculino e feminino”. Isto escrito assim, dá a ideia de que é uma conclusão assente e consensual entre os psicólogos… Não tenho pretensão de conhecer tudo o que foi dito e escrito por todos os autores, mas posso dizer-lhe que em 20 anos de psicologia (5 de habilitação académica e 15 de exercício profissional, sem nunca ter deixado de estudar) nunca vi tal coisa referida em lado algum…

  • Isa 12/03/2018 at 23:03

    Aqui, quando se fala em Psicologia, deve ler-se: psicologia analítica. Talvez não tenha ouvido porque Jung infelizmente continua a ser ostracizado entre os académicos e os freudianos.

    PS: Não dá ideia de nada, eu só sou responsável pelo que escrevo, não pelo que se interpreta.

  • Ana 13/03/2018 at 00:33

    Bem… Imagino que quem escreve deseje ser corretamente interpretado, portanto fica o comentário. Se se trata do Jung, trata-se do Jung. Não de todos os psicoterapeutas, e ainda menos de todos os psicólogos. Creio que a maioria dos psicólogos não utiliza esses conceitos, nem se revê nessa afirmação.

    • Isa 13/03/2018 at 10:59

      Em momento algum falei em psicólogos, sequer de terapeutas. E a psicologia não é exclusivo dos psicólogos, é de quem a estuda, tendo ou não o título. E aqui que ninguém nos ouve, quero lá saber do que a maioria dos psicólogos pensa.

  • Ana 13/03/2018 at 14:31

    Então, aqui que ninguém nos ouve, aqui vai a minha interpretação (e agora é mesmo interpretação…): Quando se trata de legitimar ou credibilizar uma afirmação, a psicologia dá imenso jeito. Quando se trata de responder por essa afirmação, o que dá jeito é não ser psicóloga.

    Já que fala da questão do título, acho que a importância desse título passa mesmo por aí: obriga a responder pelo que se diz e pelo que se faz perante os clientes, perante os pares, e perante a sociedade em geral.

    Da minha parte, fiquei esclarecida. Agradeço a oportunidade que me deu de expor a minha opinião (com a qual, evidentemente, fará o que quiser).

  • Isa 13/03/2018 at 14:43

    Olhe, sabe o que é mais importante do que o título? Fazer terapia. Se quiser, marcamos uma consulta.

  • Ana 13/03/2018 at 15:06

    Hahahahaha… Não obrigada. Se sentir necessidade, não me faltam referências. De profissionais crediveis ;)

    • Isa 13/03/2018 at 15:09

      Se não acha credível o que aqui se escreve, o que é que passa a vida aqui a fazer? Se quiser umas aulinhas de Jung, também se arranja.

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