Vazio

20/07/2018

Tenho ideia de nunca ter chegado a uma conclusão em relação a qual o melhor vazio: se ficar, se partir. Quando temos ou somos visita na casa de alguém e somo-lo por prazer, por gozo, por afeto genuíno. Quando ninguém se impede de fazer o que lhe apetece. E não chegamos a ser um peso na vida do outro, a que a cerimónia quase obriga. vazio

Talvez pudéssemos começar por aí.

Já que o peso só existe se não somos genuínos. Se deixamos de fazer uma coisa que é da nossa vontade, por estarmos em casa de alguém e de certa forma nos sentirmos moralmente coagidos a fazer o que o outro planeou. Ou a estar permanentemente com ele, já que nos acolheu na sua casa.

Já fui muito mais visita do que recebi visitas.

E achava sempre que partir era melhor do que ficar. Por causa das ausências de objetos que deixamos de ver entre os nossos. Dos lugares que visitámos juntos e que agora, sozinhos, nos parecem vazios, sem a mesma graça, monótonos, sem o diferente que acrescenta.

Também por causa da volta à realidade

Da qual ficamos sempre um bocadinho alheados, quem consegue, eu não só consigo como adoro, e que é sempre tão dura e tão sem graça. Depois da magia que acontece nos nossos olhos e nos nossos corações, quando partilhamos os nossos mundos próprios e os vemos acolhidos sem reservas pelo outro. De tão habituados estamos a falar para o vazio, que não nos responde nem nos acolhe, pelo contrário, nos isola ainda mais.

E chego à conclusão que é igual, que o que custa é a volta à realidade, a impossibilidade da concretude.

Os mais cínicos diriam que é por ter uma vida que não me preenche. Os mais racionais e lógicos que é o fim da ilusão a que nos votamos, mesmo com a realidade à espreita, a confrontar-nos.

Eu digo que é por viver cada dia como se tivéssemos toda a eternidade. Estar no momento, em cada momento. Na presença, no aqui, no agora. Sem amanhã, passado e apenas um bocadinho de futuro.

E sim, que a realidade é uma merda, dói em cada poro, mas é o que temos.

Apesar de não nos faltar quem nos ouça e nos acolha, fica sempre um vazio no lugar de quem se foi embora. E que não será preenchido por mais ninguém. Apenas disfarçado, camuflado, tapado com um monte de folhas e galhos secos. Pela vida de todos os dias e suas solicitações burocráticas, sem alma e com pouca cor. Que acaba por nos distrair do vazio. Sempre o mesmo… Até que a realidade nos salve, afinal…

Os vazios de mim acolhidos pelos mundos próprios dos outros tornam-se menos cheios.

error: Content is protected !!