Vida

09/10/2019

Eu não tenho medo da morte. A morte vem e acabou, medo de quê? É por não se saber o que está do outro lado? Pelo medo do fim? Foda-se, ninguém quer saber. Além de que não há grande coisa que se possa fazer em relação ao destino de todos nós.

A vida é que me dá trabalho.

Um trabalho que ultimamente me tenho perguntado com demasiada frequência se vale a pena. É um exercício de masoquismo, este. Porque não me dá grande alternativa. A alternativa seria acabar com tudo, mas não acho que se justifique. Para tal, é preciso perder toda a esperança. Ou não dar aquele tempo suficiente para passar. Sair da espiral que leva ao abismo e que nos impede de ver mais longe. Que nos faz esquecer que não dura para sempre. E a esperança, que não faço ideia de onde vem porque na verdade não a sinto, sequer sei de quê, ainda mora aqui. Deve ser um instinto de sobrevivência qualquer a que a existência me obriga. Como se o cérebro, que durante o resto do tempo anda distraído com outra coisa qualquer, nomeadamente a atormentar-me, e todo o resto do corpo se juntassem para nos manter aqui, porque a vida é soberana e todo o tipo de merda que se diz a ver se evitamos lidar com ela, de verdade. E connosco, já que falamos nisso.

É muito bonitinho o que o Ricardo Araújo Pereira diz em relação ao humor e à morte. E daí, nesta parte, talvez seja em relação à vida. Vinha na mesma linha de discurso. O humor é uma forma de dizer à vida, depois de esta nos dar chapadas consecutivas, ou uma sova daquelas que nos deixa de cama três dias: não doeu…

E talvez seja disso que precise.

Não de uma provocação, no sentido de se não doeu vou bater até doer. Mas de uma manobra de diversão. Um não doeu silencioso, o suficiente apenas para distrair, para impedir a entrada na espiral. Como que um chega para lá no gajo que mora na nossa cabeça e que tem como função psíquica única desestabilizar-nos.

Digo muitas vezes, aos outros, principalmente, que o destruidor que mora em nós é só um. Que todos os outros são pró-vida. Que se todos se unirem, esse não tem poder algum.

As forças psíquicas, do pessoal que mora na nossa cabeça, têm o poder que lhes dermos. Nem sempre estamos disponíveis, atentos, alerta o suficiente para nos darmos conta dos seus tentáculos. Às vezes, quando damos por nós, o gajo já nos prendeu os braços e as pernas e está quase a chegar ao pescoço, pronto para nos estrangular.

É do que preciso lembrar-me, constantemente, de o pôr na ordem. Mandá-lo de volta para o lugar dele. E, acima de tudo, de que é só um. E cobarde, ainda por cima, como o são todos os que batem em quem já está no chão. Ou se aproveitam das fraquezas dos outros para se sentirem melhor na sua existência miserável.

Faço isto constantemente, em vez de dizer a verdade toda, arranjo sempre maneira de intelectualizar. Eu preciso de ter coragem para falar a verdade toda…

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