Run

12/09/2020
Run não é, de facto, grande coisa.

Não me convencem os comboios, a miúda da Fleabag, o ele falar na Escócia assim que abre a boca, o cabelo ruivo, o sotaque. Nem o ela ser a bit chubby, o que me daria alguma esperança na humanidade.

E nem a Santa Apolónia chegaríamos, se acaso conseguíssemos sair do whatsapp, quanto mais da Gare do Oriente.

Aliás, nem de casa sairíamos. Porque o que acontece no fim da série é o que aconteceria na vida: Quem tem gente à espera nunca chega a sair, só finge que sai, só se ilude que tem essa coragem.

Para além de nunca sair completamente a perder.

E quem não tem só quer ter a certeza de que mesmo que não lhe tenham lido os livros, ouvido as palestras, conhecido a história, não seja esquecido, seja sempre uma incógnita, um: “e se”, uma vida não vivida e respetiva nostalgia.

A possibilidade, mesmo que só na cabeça. A fantasia…

Já que um tem de ficar nessa amargura, normalmente o mais sonhador, que o outro também sofra a consequência de uma responsabilidade que é dos dois. E, no caso, nem foi quem não tem nada a perder que começou a brincadeira.

Isso é o pior.

É fácil para quem tem para onde voltar, há uma sensação de segurança, de aconchego, de esperança, até. Ainda para mais se for para sempre. Sem brincar mais ao: quando voltaremos a ver-nos? Vamos manter-nos em contacto.

Para quem não tem para onde voltar, a não ser para si mesmo, é outra história. Não tem por onde fugir, escapes de filhos que lhe desviem as atenções da solidão, da desesperança, mesmo que nenhum crime tenha sido cometido. Dói-nos sempre não termos sido os escolhidos. Mesmo que tudo tenhamos feito para tal, inconscientemente, claro.

E mesmo que um escritor privilegie sempre a história, o livro, a criação.

Essa seria sempre a minha prioridade. O que não quer dizer que tudo o que se disse tenha sido mentira, uma artimanha, um ardil, um movimento calculado em busca de um pulitzer. No entanto, facilitaria a vida do outro, que não precisaria de assumir responsabilidades, apenas usar a fraqueza do adversário a seu favor, posando de vítima, de pessoa séria.

A minha voz de chamada não seria Run ou Come. Seria: Let’s…

E eu, sabendo de tudo, iria…

Closure

04/09/2020

No entanto, meu caro, é tão fácil cair, ceder à ilusão, querer tentar mais uma vez. Ignorando os corpos que entretanto se insuflaram, os cabelos que perderam a cor, que rareiam ou que desapareceram por completo, a vida que nos aconteceu. A nostalgia da vida não vivida é-nos quase insuportável. Só não o é mais do que a ausência de fecho, closure, como se diz em estrangeiro.

É importante o closure…

Por um lado, acaba com a ilusão, a esperança. Por outro, e como o próprio nome indica, põe um fim às coisas.

Talvez seja mais importante para as mulheres pôr um fim às coisas. Talvez porque para elas a esperança é maior, mais real, mais esperançosa, mais possível. Ao passo que para os homens é apenas mais uma oportunidade que deixam em pousio, para onde voltar quando a vontade aperta e a emoção, a distância, a vida que entretanto construíram, já os afastou do perigo da permanência.

Pelo menos nas suas cabeças…

Que se distraem rápido. Tão rápido e de forma tão eficaz que ignoram que o coração jamais esquece… E que a memória da alma é eterna.

As mulheres só avançam quando o que deixam para trás termina, nos seus corações, pelo menos. Por isso nos é importante o closure. Já os homens mantêm uma série de possibilidades em aberto, mesmo sabendo que não irão concretizá-las.

É uma tentação, meu caro, esse resgate de amores antigos.

A esperança de que o que não conhecem de nós seja amado e reconhecido. Ou que o amor antigo e inocente seja suficiente para aguentar o que se descobre entretanto. E não é menos verdade o que diz, que se cristalizam. No entanto, a preguiça de começar tudo de novo é mais forte… E a ideia, ah, a ideia, a esperança, a vontade de sentir tudo aquilo… É o diabo para ignorar… Mesmo sabendo que se não foi forte o suficiente da primeira vez dificilmente o será da segunda, da terceira, às vezes até da quarta.

A esperança reside no coração das mulheres. É preciso uma fé inabalável para insistir em pôr filhos no mundo.

Dizia-me uma amiga galesa um dia destes que havia certos tipos de filmes que tinha deixado de ver. Tem mais juízo do que eu, que, desde que li o seu texto, fiquei cheia de vontade de ver a série…

Na zona

13/08/2020

A primeira vez que ouvi falar de zona, estar na zona, in the zone, foi numa das centenas de faltas feitas ao Cristiano, à entrada da área, e consequente livre direto. Pega na bola, põe-na debaixo do braço e, completamente alheado do que se passava à sua volta, os jogadores da equipa adversária em cima do árbitro, o desinço do costume que antecede um momento que pode ser de golo, põe-na na marca, dá três passos atrás, abre as pernas, olha a bola, o ângulo que quer dar-lhe, tenho a certeza de que ele vê a coisa toda acontecer antes de chutar, e chuta para golo.

E marca.

As imagens são incríveis. Ele não quer saber de nada. Não vê nem ouve. Câmaras, colegas, adeptos, críticas, insultos. Sequer a barulheira no estádio. Parece não estar ali. E não estava…

Estava na zona

Lembro-me de achar invejável aquela capacidade de concentração, com tanto que podia perturbá-lo, desconcentrá-lo.

Ontem, num filme bonitinho, com dois dos meus atores mais queridos, a Keira Knightley e o Mark Ruffalo, em que ela escreve letras de músicas, ouvi de novo. O amigo dela diz-lhe: isso é uma excelente frase para uma música que tu deverias escrever já. Atira-lhe um bloco e diz-lhe: Do it, you’re in the zone. Miseravelmente traduzido por: estás na onda. Os brasileiros têm um problema maior, já que a zona não é um lugar onde se recomende estar… A tradução à letra não é muito feliz, teria de se acrescentar algo para que fizesse sentido.

Zona de qualquer coisa.

Quando me lembrei de um filme belíssimo que tinha visto há dias, com o Russel Crowe, chamado pais e filhas, em que ele é escritor. E de ficar extasiada a olhar para ele a escrever, a casa num caos, a filha a precisar de cuidados, ele nem aí…

Se há atividade propícia à zona é a criatividade. E esse é o meu lugar preferido para estar. Na zona.

Onde mais nada existe a não ser a criação. O contacto com a fonte interna que jorra palavras, frases, ideias, imagens, até. De lugares onde nunca estive, com gente que nunca conheci. Acontece quando alguém me pede um texto. Ou para desenvolver uma ideia.

A zona é onde a magia acontece. E onde mora o artista que há em mim

Ao contrário do que se pensa, não é um alheamento, o desconectar do mundo comum, a entrada no mundo interno, perdendo o contacto com a realidade. Pelo contrário. Mais e maior contacto com a fonte da vida não há. E dificilmente haverá processo de que mais gosto.

O nascer de uma ideia, ver que se firma, outras ideias começarem a surgir, como pontos distintos e longínquos no mar…

E entrar na zona.

Entrar na zona é ver esses pontos aproximarem-se uns dos outros. E outros a nascer. É não pensar ou fazer outra coisa a não ser reunir tudo o que há para reunir sobre o tema. Sair para a rua e não ver ninguém, só as ilhazinhas a formarem-se no cérebro, os olhos no céu, as pernas que se movimentam sem consciência alguma, automáticas nos passos, a ideia a crescer, a formar-se, a dar lugar à pergunta: como unir tudo? Sem que seja necessariamente preciso um fim, basta um início, uma ideia, e deixarmo-nos entrar na zona. O todo de nós fará o resto… E o processo é a melhor parte…

Entrar na zona é uma forma de transcendência.

E poucas coisas me estimulam mais do que transcender…

Not a Material Girl…

29/07/2020

Sou muito pouco apegada a coisas. Ao material. As coisas, na sua grande maioria, servem apenas para acumular pó e ocupar espaço. A liberdade para adquirí-las não preenche uma necessidade. Pelo contrário, as coisas acabam por nos prender. Por não sabermos o que lhes fazer, impedindo-nos muitas vezes de nos movimentarmos. Física e psiquicamente…

Ainda que não sejamos nós sem as nossas coisas

Quando estou fora de casa, as minhas coisas dão-me um certo conforto. Talvez simbolizem a necessidade de enraizamento. De pertencer ao lugar do mundo onde estou, enquanto não faço dele meu.

Os livros são basicamente a única coisa material a que sou apegada.

Nesta viagem no tempo, apercebo-me do que já há muito sentia e sabia. É-me muito mais importante o momento, a experiência, o sentimento, do que o material. O tempo que me dedicaram, que pensaram em mim ao ponto de me escrever uma carta, um postal, que recebi de todos os cantos do mundo.

Olho fotos antigas e pergunto-me porque terei dado aquela bolsa. Onde para aquela roupa. Raramente me arrependo, embora algumas me dessem um jeitão.

Mas não me arrependo de guardar cartas e postais com mais de 30 anos. E fotos. E bilhetes de concertos, cujo ano tenho de pesquisar na net por já não me lembrar…

O digital facilita a vida e poupa espaço em gavetas e estantes.

Mas não substitui, nem de perto nem de longe, o material. As memórias escritas em papel, em cartões postais – no tempo em que os havia aos montes, em bares e restaurantes, de borla. E, antes disso, se vendiam em bancas de jornal. – em fotografias impressas e em rolos fotográficos por revelar.

Descobri 4 no outro dia…

Levei-os ontem à Instanta. Não faço ideia de que ano serão e que fotografias neles se escondem. Descobrirei na sexta-feira. Temo não mais me lembrar das pessoas, dos lugares, dos anos, das circunstâncias…

Não sou, de todo, saudosista.

No entanto, tenho rido às gargalhadas a ler cartas antigas que o meu irmão e os meus amigos me escreveram enquanto estive no Luxemburgo. E partilhado com eles algumas delas.

Devia ser uma chata do caneco com isso. Vi algumas referências a pedidos para não ficar desapontada por não receber cartas grandes. Escrevia cartas enormes e esperava o mesmo de volta. A minha incontinência verbal vem de tenra idade…

Adorava receber cartas. E escrevê-las.

E o coração tem-se-me derretido com as cartas e postais dos amigos que fiz aos 17 anos, quando estive três semanas em Inglaterra e me apaixonava todos os dias, por três rapazes ao mesmo tempo.

Ontem, um dos miúdos com quem trabalho dizia que não ouvia determinada coisa há muitos, muitos anos. Referindo-se ao ano 2000.

E eu aqui a partir a cabeça a tentar lembrar-me o que andaria a fazer em 1986…

E onde param uma série de registos desse e de outros anos.

Em 2003, comecei a escrever em blogs e não tenho quaisquer relatos de viagem impressos desde então. Exceto da viagem que fiz aos EUA, em 2006.

Se um dia as plataformas desaparecem, há uma chatice qualquer, tudo se perde. Fotos, memórias, relatos, registos de vivências, de experiências, de sensações, de emoções.

Vou imprimir tudo…

Despedida

28/07/2020

Tudo me parece uma despedida.

Há uma urgência em deixar feito, escrito, fechado, resolvido, dentro do possível, sem pontas soltas, do meu lado, pelo menos, e atirado para o mundo.

Uma última oportunidade

Até então, as décadas sucederam-se sem tormentos de maior. Com a apreensão dos números com zeros, o medo da responsabilidade que vem com as datas redondas, não a querer… Nada como agora. Nem os 40…

Quando percebemos que já não temos a vida toda pela frente.

A impermanência dos 20s, de não saber o que fazer com a existência, de querer forçar uma série de caminhos, numa urgência social, parece, aos 40, quase um desperdício de juventude. A ansiedade da viragem para os 30, uma piada. De bom gosto, até.

Não esta…

Não é consciente, não sei porque o faço, de onde vem a urgência, a vontade de avançar sem pendências. A minha intuição deve saber, o meu inconsciente saberá certamente. Apenas me limito a não oferecer resistência. A fazer, fechar, deixar pronto.

A despedida de alguma coisa, alguéns, de mim, do mundo como o conheço, da vida como a vivi.

As memórias e as canetas e lápis de todas as cores espalham-se pelo chão da sala. Divididas por décadas, umas mais cheias do que outras. Anos inteiros, seguidos de ausências de registos.

Outros com registos demais.

Enquanto espero por fotografias de tempos dos quais mal me lembro, e ganho coragem para digitalizar e imprimir outras tantas, descubro cartas que nunca cheguei a enviar, fúrias antigas de amores que voltei a considerar. Esqueletos saltam dos armários, aproveitando o tempo que passou e a memória que se esvaiu, tentam resgatar o tempo perdido, agindo como se tivessem menos 20 anos, não tivessem aprendido nada, de nada tivesse valido. Uma surpresa. Não me lembrava de muita coisa, afinal. Escolhi, salvo raríssimas exceções, guardar na memória os momentos especiais.

Bons, únicos, verdadeiros, até.

Lembrava-me que havia deitado fora correspondência antiga, num momento de fúria, convencida de que seria suficiente para esquecer. Agora, tenho pena de não ter guardado. Ainda que fosse mais uma demonstração de um ciclo vicioso.

De neurose…

Que ora quebro, com autonomia, por vontade própria, sem precisar que o outro o oficialize.

Descubro o texto que escrevi no último dia da minha estadia no Luxemburgo, onde estagiei no Parlamento Europeu durante três meses, em 1997. Uma carta de despedida que fala de lugares de que já não me lembro. E de um bar chamado Scots…

Esta foto é desse dia…

Descubro que escrevo sempre mais quando viajo para fora dos lugares que já conheço. Que o desconhecido, a descoberta, me inspira mais do que qualquer outra coisa.

Que a magia não acabará enquanto tiver olhos que a acolham. 

Nos confins da memória

27/07/2020

Esta viagem no tempo, aos confins da memória, está a dar-me uma vontade de fumar levada do diabo.

Resisto…

Olho para o meu corpo, do qual sempre me queixei, sem motivo algum, vejo-o agora, e sinto uma certa mágoa do tempo. Da falta de esperança, de perspetiva, do facto de já não ter a vida toda pela frente muito menos o corpo que tinha aos 30 anos.

Vejo bilhetes de concertos sem ano, postais de músicos, ídolos da adolescência, outros tantos de amigos e uns quantos de recordações de lugares onde fui feliz, e os olhos marejam-se-me de nostalgia.

Logo eu, que nunca fui de olhar para trás, ficar presa ao passado, sequer cheguei aos 50…

Descubro palavras antigas cheias de ódio, de revolta, de dúvidas, incompreensões várias de coisas que nunca verbalizei, apenas escrevi, para livrar a consciência da tormenta da adolescência.

Releio declarações de amor ardente, para sempre, e outras tantas recebidas, de amor eterno, de relacionamentos não vividos, apenas imaginados e concebidos em palavras, escritas em cartões de vários lugares da Europa. E cartas escritas de pessoas que ficaram na memória de décadas felizes, mas não na vida de todos os dias.

Nada é para sempre…

Mas já foi, na época em que o tempo não passava, não se perdia, existia apenas no presente e se estendia sem fim, diante dos nossos olhos.

Fotos antigas dizem-me que sorria, quando era criança.

Não me lembro. Lembro-me de um mundo só meu, solitário e silencioso, a infância inteira até aos 11 anos. E lembro-me de alguma rebeldia na pré-adolescência, num colégio que frequentava só de meninas. E, constato agora ao rever fotografias abauladas pelo tempo, que, desde tenra idade, preferia a companhia dos rapazes.

Acho que só na adolescência valorizei a companhia feminina.

Releio cartas antigas e vejo como nos maltratávamos, devia ser das hormonas… Herdámos a falta de jeito das gerações anteriores para a manifestação pública de afetos.

Releio desabafos sobre pessoas que pareciam ocupar-me todo o tempo mental e já não faço ideia sobre quem escrevia. Penso no que era, no que fui, no que sou. Em quem foi e em quem ficou. Recordo a importância de uns e a insignificância de outros. Gente que não faz a mínima ideia que ficou na minha vida, nas minhas memórias, tal como eu não faço ideia em que memórias fiquei.

Permaneço, resisto ao tempo, ao espaço, à vida, e respetivas exigências.

E, talvez pela primeira vez, escrevo um texto sem conclusões que me acalmem a consciência e me aplaquem a vontade de fumar.

Escrever

26/07/2020

O livro que o Ricardo Araújo Pereira sugeriu no último Governo Sombra foi o Escrever, do Stephen King, finalmente traduzido. Disse, e bem, que não havia muitos livros sobre o tema traduzidos em português.

Mencionou o Cartas a um jovem poeta, do Rilke, que é belíssimo, o cartas a um jovem romancista, do Llosa, que não conheço, e o do Mário de Carvalho, que li por sugestão do Joel.

Também disse que para escrever era preciso ler. Ler mais e ler sobre escrever.

Gostei de o ouvir dizer que o fascina ler sobre o metier.

Coincidência ou não, e depois de um tempo obcecada por livros sobre escrever, nomeadamente por duas autoras de que gosto muito, a Natalie Goldberg e a Julia Cameron, voltei a esta e ao último que havia comprado nessa fase e no qual não tinha ainda pegado.

Não sei se The Vein of Gold é o melhor,

mas é seguramente dos que mais efeitos imediatos produz. E acrescenta uns pózinhos fundamentais à ideia de que para escrever basta ler.

Como já havia dito, a grande diferença entre elas é que a Julia é mais terapêutica na abordagem. E um dos exercícios que propõe, de onde os seguintes partirão, e que estou neste momento a fazer e me está a dar um gozo e um prazer indescritíveis, é a nossa linha do tempo narrativa.

Dito assim parece um bocado narcisista.

E se calhar é. Mas a verdade é que para escrever, criar em geral, é preciso ir lá atrás e contactar com momentos e palavras que fizeram precisamente que nos afastássemos do ofício criativo. Por vergonha…

É particularmente relevante a consequência que ela associa à vergonha: vício…

O RAP já contou várias vezes a história da avó lhe dizer que ele não tinha graça alguma, apesar de se rir com as coisas que ele dizia.

E isso poder ser um argumento válido. E que contraria este.

Mas também pode ser que ele tenha mais o que expressar, além do humor, e não o faça, por se achar ridículo, ou que, como ele já disse várias vezes, não tenha importância. Nomeadamente os sentimentos:

“Porque são meus e porque são sentimentos”.

A quantidade de coisas que atirámos para os cantos mais escuros da memória e que vêm à tona só de ler as palavras da Julia Cameron, e o poder que essas memórias têm de arrastar outras para a consciência, tem tanto de nostálgico, e de assustador, quanto de libertador.

Esse é o verdadeiro poder do contacto com a sombra

Não o de nos tornarmos sombrios, mas de nos libertarmos do seu subjugo. E assim conseguirmos chegar ao ser criativo que foi soterrado por críticas, desincentivo, gozo, desprezo.

Um criativo, um artista, é necessariamente ligado à criança que ainda mora nele. As crianças não têm medo nem vergonha das suas criações, da imaginação, das histórias que inventam. Não se preocupam com a veracidade, apenas com a expressão das suas ideias e emoções.

E é essa vergonha, que nos foi incutida, que precisamos de perder.

Ao revisitar a nossa linha do tempo narrativa, reconstruindo-a, podemos substituir palavras críticas por outras. Porque agora temos olhos e consciência para nos vermos de outra forma. Da forma que somos e não da forma como nos veem e que acreditámos ser o que constitui a nossa identidade.

Caso contrário, os exercícios criativos propostos pela Natalie Goldberg podem ficar por fazer. Por vergonha, bloqueio criativo e artístico. Cuja origem está lá atrás, no lugar que precisamos de revisitar e recriar.

Gostei mais de ler a Natalie, mas os exercícios criativos da Julia foram de longe os meus preferidos.

Os que me levaram para lugares incríveis, sensações boas, de plenitude, de conexão.

Ambas têm funções completamente diferentes, mas os dois modelos são fundamentais.  E nenhum é melhor do que o outro.

Rise and Shine

23/07/2020

Ainda não eram 9 da manhã e já tinha completado o treino diário de corrida e caminhada. Depois de ter trabalhado ontem até às dez da noite. Trabalhar com mercados cujos fusos horários são de oito horas tem estes reveses.

Faz hoje uma semana que deixei de fumar, outra vez, e que voltei a correr. Naquele esquema corre anda corre. Todos os dias, apesar da aplicação que uso sugerir apenas três treinos por semana. Depois de já ter feito isto uma vez, a sensação inicial é de que custa muito menos.

Às vezes pergunto-me para que deixei de fumar. Qual é o problema de fumar?

Depois lembro-me que fumar não serve para nada. Não é um ato de prazer, sabe mal como o diabo, já que falamos nisso. É um hábito nojento e pestilento, não me dá o que espero. Pelo contrário, só me ilude, deixando-me na ressaca e na carência. De mau humor, dependente, sem autonomia.

Um falso preenchimento de um vazio existencial

É como comer o que não nos satisfaz, não nos alimenta. Ou andar com gajos que se relacionam com base no poder, conquistam e fogem, dão e desaparecem, deixando o outro à míngua, baseando as suas relações na escassez e não na abundância.

Que é como vive a maioria das pessoas

Há toda uma atividade a acontecer antes das 9 da manhã. Gente na praia, dentro de água, inclusive, a apanhar sol, num areal quase vazio. Tenho de arranjar maneira de levar uma toalha e umas havaianas para dar um mergulho no fim da corrida. O mar estava apetecível, tranquilo, sem ondas, um espelho.

Deixar de fumar devolve-nos energia física.

E o melhor a fazer é queimá-la. De forma produtiva, que nos satisfaça. Qualquer desporto cumpre a função. Correr tem de bónus uma sensação de liberdade enorme.

Na mesma proporção que o trabalho que fazemos apenas para pagar contas, ou para preencher em exclusivo uma necessidade de contributo social, no-la tira.

Passamos pelo menos metade das horas em que estamos acordados a trabalhar.

Ou fazemos algo que nos conecte verdadeiramente e preencha, de facto, vazios existenciais, ou a vida é uma sucessão de amarguras e frustrações. Reclamações e queixume. Vitimização e culpabilização do mundo pelo nosso infortúnio.

Eu aproveito as manhãs para criar, conectar-me com esse lado artístico.

A criatividade é das coisas que mais e melhor me preenche.

Ontem, aproveitei a hora de almoço, às seis da tarde, obviamente, já tinha almoçado à uma, para ir dar um ou dois mergulhos no mar. Voltei como nova.

Trabalhar é preciso, mas não pode tomar-nos todo o nosso tempo.

Nunca me imaginei fazer exercício físico de manhã. Gosto de acordar com tempo e de ter uma meia hora para mim antes de deixar que a vida aconteça. No entanto, amadurecer também é saber definir prioridades, adaptarmo-nos às condições externas, que saem fora do nosso controlo, não deixando que nos dominem, nos impeçam de fazer o que nos dá prazer mas também nos conecta.

Se não posso ir correr ao fim do dia, à hora mágica, que seja de manhã cedinho, antes do calor e das multidões.

Há imensa gente no paredão de manhã…

Judy

22/07/2020

O filme sobre Judy Garland, a atriz que faz de Dorothy, a miúda da rua dos tijolos amarelos, no feiticeiro de Oz, e que cobre os últimos anos de vida de Judy, não é sobre a ascensão e queda de uma estrela. Muito menos sobre decadência, prepotência, arrogância, megalomania, sense of entitlement, sobre uma miúda que não cresceu.

É sobre vulnerabilidade

Que pode vir disfarçada de agressividade, arrogância, crítica, cobrança, reclamação, medo, resistência, recusa, carência, descaso, destrato, amargura, vitimização, queixume, consumo excessivo de álcool, drogas, cigarros.

Também é sobre o desejo de conexão

De sermos lembrados, de ficarmos aqui, mesmo que os nossos corpos se findem, as nossas almas voem pelas galáxias e adormeçam nas nuvens. Desejo esse com ligação direta à vulnerabilidade.

Uma Renée Zellweger magnífica

Apesar de ter tudo para se salvar sozinha, e como quase todas as mulheres, Judy procura a salvação no masculino, no relacionamento com Mickey Rooney.

O que não dá certo…

Porque nenhuma relação de co-dependência dá certo… No que um relacionamento idealmente deveria consistir: crescimento mútuo dos envolvidos. Com responsabilidade individual pela própria vida.

E não o impedimento do crescimento

Judy arruina a sua última oportunidade em Londres, com uma série de concertos agendados e dos quais mal dá conta, insultando o público de todas as formas possíveis, chegando atrasada e destratando-o, e à banda, à frente de todos.

Ainda em Londres, percebe que nem com os filhos poderá ficar.

Tendo uma última hipótese de redenção

Depois de um último concerto absolutamente desastroso, em que o público não perdoou e lhe atirou de tudo para o palco, ninguém pode tudo… Lonnie Donegan, que a substitui na série de concertos ainda agendados – e depois de Judy lhe pedir, sentindo que não voltará – dá-lhe a oportunidade de cantar, pela última vez, num palco.

Encarando a banda com humildade, a verdadeira vulnerabilidade só é levada a sério assim, e o próprio público,

Judy arrasa na primeira música.

Ovacionada de pé, decide continuar, com Somewhere over the rainbow, que a imortalizou. Uma música sobre o caminho, que tem de ser o que é de facto significativo, e a esperança.

Não conseguindo continuar, e numa manifestação de vulnerabilidade autêntica, comovendo-se, talvez por já não acreditar nas palavras que cantava, perdendo a esperança por completo, é ajudada por dois fãs, que se levantam e a substituem, cantando a letra que todos conhecem.

O público junta-se e Judy tem o fim que justo, em glória.

Depois de achar que já tinha perdido tudo, o marido Mickey, os filhos que ficaram nos Estados Unidos, e a vida artística.

Morrendo seis meses depois dos concertos de Londres.

Num mundo em o jornalismo literário, que conta histórias de vida, parece ter acabado, resta-nos ter esperança nos argumentistas com veia de documentaristas.

Judy é um filme brilhante, merece todos os prémios. E Renée Zellweger teve, nos últimos Oscars, a consagração há muito devida.

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