Boys & Girls

20/07/2021

Sendo nós, Boys & Girls, tão diferentes, a perpetuação das espécies continua, para mim, a ser o mais insondável mistério do Universo.

Como sobrevivemos tanto tempo?

Since masculinity is defined through separation while femininity is defined through attachment, male gender identity is threatened by intimacy while female gender identity is threatened by separation.

Viver é uma esquizofrenia…

Aguentar casamentos, sem viver uma miséria emocional nem fazer da vida do outro um inferno, o maior dos desafios.

Adoraria, not sure I was ever up for the challenge.

Mesmo depois de ver um vídeo feito pelo meu irmão mais novo, sobre mais de 40 anos de vida em comum dos nossos pais.

Que me comove até aos ossos, ainda que o tenha visto dezenas de vezes.

Uma sucessão de fotos dos dois, acompanhada de uma música que conta histórias com rugas no rosto.

Como: ou era para toda a vida ou não me daria ao trabalho; ou o gajo estava à altura ou não trocaria liberdade e independência por vida familiar, é o que temos.

Endure

15/07/2021

We must learn how to endure existential solitude. Seeking other people for a quick fix is just the same as looking out for drugs, drinks, shopping, sweets, work, whatever takes your mind off your existential solitude… It is not even a quick fix, as it fixes nothing, it just postpones dealing with the matter, which will strike even harder next time. We are not always strong enough to endure in existential solitude, but we must try, whenever we are strong enough, to stay there, look it in the eye, and manage not to run away from it. Just cry it, as simple as that, cry it. It is not a matter of playing the victim, it is actually respecting the bit of you that is suffering, in need, neglected. Seeking other people for a quick fix is even worse sometimes, people can’t take their own existential drama, you can be sure they won’t take yours. They will not listen to you, they will offer some piece of advice not to deal with their own stuff, leaving you even lonelier. It is fair enough to believe they would honestly want to cheer you up, that is fine. What about when you don’t need cheering? What about when you only need someone to listen, to embrace whatever you’re dealing with without falling into the ego trap of giving you a solution. Or fake it with chocolate, cigarettes, joints or a beer. That is most likely the worst kind of loneliness. When you are not seen, considered, appreciated for who you are, your moment of existence, crying, sadness, impotence, confusion, fear, anger. And not even the biggest chocolate in the world would mend it. Chocolate not always replaces an embrace. Sometimes you just need someone to listen and hold you in their arms without a word, any sort of embarrassment, awkwardness, so that your split parts can be brought together. And there’s not that many people willing or able to do that for you.

Diários

13/07/2021

Tenho pena de não ter escrito diários, relatos, de viagens, dos dias de tédio, tormenta e paixões tórridas. Fotografias não chegam, por não dizerem tudo…

E de não ter guardado todas as cartas, apenas postais.

Diários, cartas e postais são excelentes repositórios de memórias, que tendem a confundir-se umas com as outras e com a forma como percepcionamos acontecimentos, momentos, sensações.

Diários, cartas e postais, muito mais do que objetos que trouxemos de viagens ou lugares especiais, ou fotografias, nas quais não pusemos datas muito menos identificámos os lugares de onde as tirámos, às vezes nem dos nomes que lhes escrevemos nas costas nos lembramos, mesmo que tenhamos uma cara para lhes associar, são o instrumento de trabalho de qualquer escritor que se preze.

Ainda que nos sirvamos da imaginação, da perceção, da sensação, das palavras, que manejamos a nosso bel-prazer, para compor uma história.

Ando obcecada com a verdade, quero saber a verdade sobre a minha história, esta em particular, que ando a contar há ano e pouco. Uma história cheia de devaneios, ilusões, fantasias, delírios, e pouquíssimos factos. Não por não querê-los, mas por não me lembrar. Não me lembro da ordem dos acontecimentos passados dois meses, o que fará passados 20 anos. Agarrar-me a factos sempre me protegeu, a verdade objetiva está nos factos, mesmo que não lhes conheçamos as razões. Contra factos, não há argumentos, subjetividade, perceção, vontade, projeção, ilusão.

Arrependo-me de não ter escrito diários.

E desta minha impulsividade furiosa, que faz que deite fora documentos da minha história. Preciosos, que agora me ajudariam a pôr a cabeça em ordem e a dar tino a algumas emoções. Uma impulsividade de quem quer deter algum controlo sobre a vida, as emoções e o poder que estas têm sobre mim.

Para não voltar a sonhar.

O problema de deitar fora documentos da minha história é precisamente voltar a sonhar com o que e quem não devia. Numa tentativa de não cair em tentação, elimino vestígios do passado para não recordar, não voltar a sofrer, a enlouquecer por não saber, não entender, não viver, não esquecer.

O que acontece é precisamente o que quero evitar.

Como não me lembro, volto a cair no mesmo erro, na mesma conversa, nos mesmos velhos truques e armadilhas, orquestrados pelo meu próprio cérebro.

Num raro momento de discernimento, guardei cópias do que escrevi e tive o rasgo de inteligência de não as juntar a outras memórias, ou teriam tido o mesmo fim, o lixo. São esses bocados de memórias escritos em papéis aos quadradinhos, e cópias de cartas que enviei há mais de 20 anos, que agora me ajudam a pôr os pontos nos is, a conseguir enquadrar o tempo cronológico no mental e na perceção que tive de acontecimentos e das memórias que deles guardei. Era um tempo em que, achava eu, escrevia pouco e nada, apenas vomitava impropérios para conseguir ter alguma paz na cabeça e esperança no coração. Leio relatos em que digo que sim, escrevi imenso, no Verão de 97, mas não tenho quais quer registos físicos, exceto meia dúzia de páginas A4.

Queria que os olhos de quase meio século de hoje, ao ler o que as mãos de um quarto de século escreveram, fossem sábios o suficiente para não entrar em delírios românticos e ganhassem juízo. Quando me dei conta de que nem os olhos do ano passado o conseguem, assemelhando-se mais aos olhos sonhadores, esperançosos, puros, de uma miúda de um quarto de século do que aos de uma suposta sábia de meio século.

Como diria meu santo pai, não tenho juízo nenhum…

Ando a preparar-me para o meio século há uns três anos ou mais. Contente por ter uma idade que começa com um 4. Essa década em que ainda podemos permitir-nos iludirmo-nos um bocadinho em relação à vida e a nós mesmos. Tem sido um horror. São-me sempre muito dolorosos os anos que antecedem a entrada nas décadas. Estes conseguem ter sido os piores de todos. Quando chego lá, passa.

Já só faltam três meses e pouco…

Go England

03/07/2021

Sobre a Inglaterra: gosto de futebol, não de clubes. Por isso, e pela politicagem e a impunidade dos dirigentes desportivos, deixei de ver o campeonato nacional de futebol há anos. Só vejo Euros e Mundiais. Eventualmente, liga dos campeões, mas nem sempre me lembro.

Depois de Portugal, a minha equipa preferida é a seleção da Inglaterra. Sempre foi, sempre será. Façam o que fizerem.

Dos meus jogadores de futebol preferidos de sempre, o Gerard ocupa lugar cimeiro. Adoro o Gerard. Mas não é o único.

Jogue quem jogar, seja contra quem for. Mesmo que a equipa contrária seja a seleção de amigos, amantes, amores atuais e antigos. E tenho-os de todas as seleções do ocidente. Italianos, Alemães, Holandeses, Ingleses. Sou europeia e ocidental com muito orgulho. Faz parte da minha identidade, que honro como honro as minhas raízes lusitanas.

Inglaterra Sempre.

Podia ser pela minha paixão arquetípica pelo Reino Unido em geral – autores, escritores, poetas, argumentistas e dramaturgos, humoristas e músicos, aquele sotaque dá cabo de mim – mas não. Não só, pelo menos.

É pela velocidade do jogo inglês, o facto de jamais em tempo algum jogarem à defesa, honrarem o jogo que criaram, serem fortes, velozes, com espírito vencedor, sem medos, nunca se encolhem nem baixam os braços.

Raçudos que só eles, com paixão, braveza e valentia.

Há muitos, muitos anos que espero por um Euro ou um Mundial para Inglaterra. E tenho sempre imensa pena que não cheguem lá. Espero que seja desta. E que o Pickford não se estique, pode deitar tudo a perder.

Que jogão de Inglaterra contra a Ucrânia.

Que façam o mesmo à Dinamarca, massacrem até à final. E que seja um jogão entre Itália e Inglaterra e que esta ganhe, para que se possa ouvir, em Londres e no mundo inteiro: It’s Coming Home.

Go England!

Atitude

28/06/2021

O que faltou ontem? Atitude.

Na vida, não gosto de comparações, de competitividade, porque acho sempre que há espaço para toda a gente, todas as características são um ativo, um bem necessário, e representam coisas que valorizo, dependendo das circunstâncias, do que se quer.  No entanto, e quando se trata de desporto, o objetivo é ganhar, sendo a competitividade inerente ao mesmo.

Vem isto a propósito do jogo de ontem.

De ouvir: deram tudo, não chegou, faltou sorte, eficácia, entre outras consolações.

Estava preparada para perder contra a Itália, não contra os marretas da Bélgica. “São o número 1 no ranking da FIFA”, avisam-me, como se isso me convencesse.

Não jogam nada. E nós perdemos contra eles.

Os campeões europeus em título, com jogadores de altíssimo nível, incluindo o melhor do mundo. De sempre.

Dar tudo não é chutar de qualquer maneira, para as nuvens, só para dizer que se deu tudo. Dar tudo é querer ganhar, fazer por isso, usar a cabeça e o coração. Acho que só usámos o coração, a paixão e a criatividade. Não chegou.

A oportunidade é só uma.

Quem ganha passa, quem perde sai. Se o objetivo é ganhar, há que fazer por isso. E, lamentavelmente, paixão só não chega. Por mais criativos que sejamos. Se a paixão e a criatividade conseguem esconder a técnica que permite a eficácia, então aí temos magia.

Não é segredo, já o tinha dito em relação aos escoceses

A criação e a paixão cativam-me muito mais do que a eficiência e a frieza da razão sem beleza, sem poesia, sem defeitos, até.

Mas paixão sem o equilíbrio da razão é tolice. Tal como razão sem paixão é uma chatice.

Depois de ver o jogo de hoje, entre a Espanha e a Croácia, não tive dúvidas: isto sim é um jogo digno de campeões. Espanha já foi campeã da Europa e do Mundo e a Croácia vice-campeã do mundo.

Atitude, concentração, vontade de vencer, fazer por isso.

Ambas o fizeram, com sangue nos olhos. Além de proporcionarem um espetáculo digno desse nome. Uma maravilha, nenhuma desistiu, lutou até ao fim, com cabeça, tronco, membros e paixão.

Ao contrário daquela chatice que foi o jogo de ontem.

Querem ganhar, não podem brincar, achar que são os reis da cocada preta, nunca dá resultado. Querem ganhar, defender títulos, têm de fazer por isso. Com atitude digna de campeões, sem medos, sem se encolherem, como fizeram contra os alemães, com inteligência e noção.

Fica para a próxima. Siga o Euro. Go England.

*Na imagem, Morata, que ainda por cima é giro que se farta, o miúdo.

Ler

27/06/2021

Tinha saudades de ler em português, quanto mais leio, melhor e mais fluido é o que escrevo. Vai daí, comecei a ler o Diário da Peste, do Gonçalo M. Tavares. Recomendado pelo João Miguel Tavares, uma noite destas, no Governo Sombra, que vejo mais para matar saudades do RAP do que por outra coisa qualquer. Todos uns vendidos, JMT, o menos vendido de todos. E CVM nunca me enganou. O livro era recomendado com um aviso: não ler tudo de uma vez, por ser pesado. Comecei e não parei mais.

Prefiro fazê-lo a ver o jogo da Holanda contra a República Checa.

Estou velha, recuso-me a chamar outro nome aos dois países que agora mudaram a sua identidade, como fazem os esotéricos. Admira-me que não escolhessem nomes de flores, em vez de Países Baixos ou Chéquia, que nome horroroso, valha-me Deus… E não obriguem os seus cidadãos a dizer gratidão em vez de obrigada.

O meu pai nunca chamou INATEL à FNAT, talvez fosse um idealista, como eu.

Ando cansada, a precisar urgentemente de férias, com sono e dores de cabeça todos os dias. Espero que seja por excesso de ecrãs, e não por causa de um tumor qualquer no cérebro. Não me apetece morrer já.

O cansaço típico dos introvertidos*

São demasiados estímulos durante o dia. Visuais, sonoros, demasiada gente durante demasiado tempo. Não vejo a hora de me mudar para o Alentejo. Já não tenho medo de ser uma velha solitária, que vai alugar os ouvidos das senhoras da farmácia por falta de companha, de ter quem me ouça e me abrace nos intervalos do desespero, da desilusão, da queda de um ideal.

Ideal de ego

Hei de vir aqui um dia falar disso.

Foi por um bom motivo, hoje, os sobrinhos que vejo de 15 em 15 dias e o viajante que voltou finalmente para casa. Mas os bons motivos não me mudam a natureza. Cheguei aqui e nem o jogo da bola consegui ver.

Não consigo mais escrever sentada à secretária, a olhar para o mar.

O trabalho de todos os dias acabou-me com o espaço da criação. Filhos da puta… Faço-o na chaise longue cor de laranja, que comprei para substituir o sofá de ferros. Dividi a sala mínima ao meio e este é agora o meu espaço de criação, entretenimento, diversão.

Até ir morar para o Alentejo, numa casa com uma sala enorme, um espaço aberto, tipo loft, com um mezanino, o farol possível, onde só eu entrarei.

Não são só os estímulos externos que me dão cabo da cabeça, me deixam os olhos pesados e num humor infernal. O meu inconsciente anda há uma semana a processar esse tal de ideal de ego, não posso infelizmente dar-me ao luxo de parar de trabalhar, e toda a minha energia física é sugada para esse nobre propósito, o de me permitir continuar. Para tal, tenho de deixar o inconsciente fazer o seu trabalho, no seu tempo, só então poderei voltar ao que vocês chamam vida.

Ninguém se-lo permite no Ocidente.

Onde as pessoas se definem pelo que fazem, a atividade tem de ser frenética, as mãos ativas e a cabeça deve manter-se ocupada. Como se o inconsciente não a ocupe que chegue. Contrariando instintos básicos de sobrevivência, forçando vontades, desejos que não se sentem e forças que se não têm.

Nem para a bola tem havido cabeça

A bola dos outros, bem entendido. Demasiados ecrãs, luz falsa, estímulo mortal. Mas terá de havê-la para voltar a correr. Deixa-me de bom humor, os músculos a doer e um rabo digno desse nome.

*Nem de propósito

Sex/Life

26/06/2021

Nunca sigo as “sugestões para ver agora”, da Netflix. Algum dia haveria de ser, aconteceu precisamente com Sex/Life.

O título é estúpido, ainda que, numa análise superficial, retrate a série.

No entanto, sabemos que o sexo, tal como tantos outros símbolos de poder e satisfação, é apenas isso, um símbolo. Algo maior se esconde por detrás dessa necessidade, desse desejo, dessa fonte de prazer.

O título Sex/Life implica uma escolha, abdicar de um em prol do outro.

Tão estúpido quando impraticável.

Também é estúpido porque a vida (Life) não é necessariamente o que a protagonista vive. Ainda que essa seja a escolha da grande maioria da população: casar, ter filhos, “assentar”. Como se fossemos todos iguais, quiséssemos as mesmas coisas. Como se esse fosse o desejo e a vontade de todos quantos moram na nossa cabeça. Se, com essa “estabilidade”, todas as outras vozes se calassem, as vontades se aplacassem, os desejos se silenciassem, conseguíssemos matar partes de nós.

Tempos houve em que as mulheres não tinham escolha. Sem pagarem um preço trilhardário por isso, a sua reputação fosse arruinada e a sua vida destruída. Hoje têm, ainda que o preço continue a ser alto… O que muitas não têm é essa coragem, essa força, essa determinação, essa convicção.

A vida é emoção e razão, cabeça e coração, aventura e calmaria, tormenta e bonança.

Comecei a ver ontem à noite, por mero acaso, e só descansei quando acabei, hoje, por volta da hora de almoço.

É viciante, não só pelo sexo incrível.

Todo voltado para o prazer feminino. Aliás, adorei essa parte, uma série protagonizada por uma mulher, de carne e osso, com desejos, fantasias, vontades, que não morrem depois de ter tido filhos.

Também não o é por causa de Brad, o rebelde de sorriso irresistível e sotaque quase perfeito.

Mas por retratar tão bem o tormento psíquico, e a falta de controlo a ele associada, sempre que o passado nos invade o presente e ameaça a vida de todos os dias, chata, sem emoção, aventura, arrepio na espinha e brilho nos olhos.

A vida funcional, segura, mas nada criativa.

Atrevo-me a dizer que sem criação não há vida, não uma digna desse nome, pelo menos.

Sonhadora e idealista, só ando aqui pela magia.

E quem não teve, ou tem, fantasmas do passado a visitá-la no presente, doidos para que os façamos sentir vivos outra vez, na segurança do marasmo do casamento de 20 anos e dos filhos adolescentes. Garantida a segurança e a estabilidade, por vezes, nem um trabalho novo, uma recolocação, uma mudança radical de vida e ainda mais poder satisfazem esse desejo tão humano de nos sentirmos vivos, cheios de energia, heróis, como se tivéssemos 30 anos outra vez. Ou 20…

Sem o corpo perfeito, muito menos imaculado.

Mesmo que, aos 50, as nossas aventuras tenham necessariamente de ser outras, que vamos descobrindo ao longo do caminho, ainda que a vontade seja sempre a mesma, a de nos sentirmos vivos.

Sentimo-nos vivos de formas diferentes, é para isso que serve o autoconhecimento, para sabermos exatamente o que nos faz sentir vivos sem nos destruir.

A série é tão boa, retrata tão bem o dilema, que vou vê-la outra vez, já de seguida.

Escrever noutra língua

23/06/2021

O problema de escrever noutra língua, mesmo para quem escreve, fala e trabalha o dia inteiro num idioma que não é o seu, e, quando acaba o dia de trabalho, ainda lê nessa língua, é não a sentir.

Ouço, escreve e falo inglês todo o santo dia.

O meu mercado de trabalho é o do Reino Unido, ainda por cima, o meu inglês preferido. E, ultimamente, tenho lido mais em inglês do que em português, infelizmente. O que faz do meu inglês mais rico e do meu português temporariamente mais desfalcado e menos fluido. Além disso, estou em contacto com alguns amigos com quem me comunico em inglês. Por isso, alguns textos têm saído, naturalmente, nessa língua. O livro que estou a escrever é, também ele, na língua de Shakespeare.

Sou das palavras

A minha formação original é em tradução, tenho por isso uma obsessão profissional pelo significado exato das palavras. Porque a expressão é uma prioridade e a forma como melhor me expresso é a escrever, essa obsessão é, também, pessoal.

Num primeiro momento, não me preocupo muito com as repetições, mais frequentes quanto menor é o vocabulário.

O importante é a expressão. O polimento vem depois.

Acontece-me muito estar a escrever, o fluxo de consciência bom e a recomendar-se, e saírem-me expressões, alojadas num canto inacessível da minha cabeça, diretamente para o papel. Já devo tê-las ouvido numa música ou num filme, ou lido num sítio qualquer que a minha consciência não registou, e por isso não as reconhece, recebendo-as com surpresa, mas o meu inconsciente sim.

Não as reconheço, só sei que me soam bem.

Uma busca rápida nas dezenas de dicionários online, cujos links guardo com o fervor de uma devota, ou mesmo diretamente no motor de busca, confirmam-me se a expressão é aquela e se quer dizer exatamente o que pretendo.

Adoro quando acontece

Quer dizer que existe uma ligação emocional àquela palavra ou expressão, que, se sai sem esforço e ainda por cima do inconsciente, é porque consigo senti-la.

Com a cabeça, o coração e a alma.

Podemos ter preferências por certas palavras, a forma como soam quando as dizemos, ouvimos e no-las dizem ao ouvido. Mas só seremos bem sucedidos a escrever noutra língua quando, além de conhecermos o significado das palavras, conseguimos senti-las verdadeiramente. Saber quais são adequadas num determinado contexto. Desaconselhadas, de mau gosto ou até mesmo proibidas. Que impacto o seu uso tem na cultura específica daquele local ou classe social.

Jamais me atreveria a tentar publicar o meu livro sem que fosse revisto por um nativo.

Por sabê-lo muito mais pobre do que seria, se acaso fosse bilingue e morasse na Escócia. Por outro lado, quem o rever não sabe o que quero transmitir, não sente o que eu sinto, não conhece a minha história.

Podemos tentar explicar o sentido de uma palavra ou expressão, aconteceu-me isso com as tradutoras dos meus dois primeiros livros. Mas a literatura está na tradução da palavra pela palavra correspondente noutra língua, não pela sua explicação.

As explicações entram no campo da razão, da cabeça, a literatura fala outra linguagem…

O Cristiano

16/06/2021

Ontem, depois de ter perguntado a um amigo alemão se estava em Munique para o jogo contra a França, ele perguntou-me se estava em Budapeste, sendo eu uma fã incondicional do Cristiano.

Não sou o tipo de fã que o segue para todo o lado, tenho mais que fazer, mas o Cristiano está na minha bucket list de gajos.

O meu amigo não me fez a pergunta, mas eu respondi-me na mesma.

O que faria caso alguma vez tivesse a oportunidade de conhecer Cristiano Ronaldo?

Muito provavelmente ficaria muda, sem reação, incapaz de falar, como me aconteceu com o RAP e eventualmente aconteceria com o Sam Heughan. Ou o Johnny Depp, o De Niro… Fico muda perante as pessoas cujo desempenho admiro muito.

Ao Cristiano, esperava sentir-lhe aqueles abdominais, tirar uma foto com ele e, se me fosse concedida uma pergunta só, acho que queria saber como consegue gerir as emoções, o ego, manter-se minimamente equilibrado ao ponto de permanecer no topo dos atletas de alta competição por tantos anos.

Não há maior e mais planetária figura do que ele.

É preciso uma grande estrutura psíquica, e, obvio, estar muito bem acompanhado, para não se perder.

Não conheço ninguém como ele. Do seu tamanho, que não tivesse sucumbido a fraquezas várias como álcool, drogas, abuso de poder. Acabando por destruir a sua vida. Embora tenham tentado fazê-lo por ele tantas e tantas vezes.

Acho que é por saber muito bem o que quer, de onde vem, quem ele é. Ainda assim, seria essa a pergunta que lhe faria.

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