Not a Material Girl…

29/07/2020

Sou muito pouco apegada a coisas. Ao material. As coisas, na sua grande maioria, servem apenas para acumular pó e ocupar espaço. A liberdade para adquirí-las não preenche uma necessidade. Pelo contrário, as coisas acabam por nos prender. Por não sabermos o que lhes fazer, impedindo-nos muitas vezes de nos movimentarmos. Física e psiquicamente…

Ainda que não sejamos nós sem as nossas coisas

Quando estou fora de casa, as minhas coisas dão-me um certo conforto. Talvez simbolizem a necessidade de enraizamento. De pertencer ao lugar do mundo onde estou, enquanto não faço dele meu.

Os livros são basicamente a única coisa material a que sou apegada.

Nesta viagem no tempo, apercebo-me do que já há muito sentia e sabia. É-me muito mais importante o momento, a experiência, o sentimento, do que o material. O tempo que me dedicaram, que pensaram em mim ao ponto de me escrever uma carta, um postal, que recebi de todos os cantos do mundo.

Olho fotos antigas e pergunto-me porque terei dado aquela bolsa. Onde para aquela roupa. Raramente me arrependo, embora algumas me dessem um jeitão.

Mas não me arrependo de guardar cartas e postais com mais de 30 anos. E fotos. E bilhetes de concertos, cujo ano tenho de pesquisar na net por já não me lembrar…

O digital facilita a vida e poupa espaço em gavetas e estantes.

Mas não substitui, nem de perto nem de longe, o material. As memórias escritas em papel, em cartões postais – no tempo em que os havia aos montes, em bares e restaurantes, de borla. E, antes disso, se vendiam em bancas de jornal. – em fotografias impressas e em rolos fotográficos por revelar.

Descobri 4 no outro dia…

Levei-os ontem à Instanta. Não faço ideia de que ano serão e que fotografias neles se escondem. Descobrirei na sexta-feira. Temo não mais me lembrar das pessoas, dos lugares, dos anos, das circunstâncias…

Não sou, de todo, saudosista.

No entanto, tenho rido às gargalhadas a ler cartas antigas que o meu irmão e os meus amigos me escreveram enquanto estive no Luxemburgo. E partilhado com eles algumas delas.

Devia ser uma chata do caneco com isso. Vi algumas referências a pedidos para não ficar desapontada por não receber cartas grandes. Escrevia cartas enormes e esperava o mesmo de volta. A minha incontinência verbal vem de tenra idade…

Adorava receber cartas. E escrevê-las.

E o coração tem-se-me derretido com as cartas e postais dos amigos que fiz aos 17 anos, quando estive três semanas em Inglaterra e me apaixonava todos os dias, por três rapazes ao mesmo tempo.

Ontem, um dos miúdos com quem trabalho dizia que não ouvia determinada coisa há muitos, muitos anos. Referindo-se ao ano 2000.

E eu aqui a partir a cabeça a tentar lembrar-me o que andaria a fazer em 1986…

E onde param uma série de registos desse e de outros anos.

Em 2003, comecei a escrever em blogs e não tenho quaisquer relatos de viagem impressos desde então. Exceto da viagem que fiz aos EUA, em 2006.

Se um dia as plataformas desaparecem, há uma chatice qualquer, tudo se perde. Fotos, memórias, relatos, registos de vivências, de experiências, de sensações, de emoções.

Vou imprimir tudo…

Despedida

28/07/2020

Tudo me parece uma despedida.

Há uma urgência em deixar feito, escrito, fechado, resolvido, dentro do possível, sem pontas soltas, do meu lado, pelo menos, e atirado para o mundo.

Uma última oportunidade

Até então, as décadas sucederam-se sem tormentos de maior. Com a apreensão dos números com zeros, o medo da responsabilidade que vem com as datas redondas, não a querer… Nada como agora. Nem os 40…

Quando percebemos que já não temos a vida toda pela frente.

A impermanência dos 20s, de não saber o que fazer com a existência, de querer forçar uma série de caminhos, numa urgência social, parece, aos 40, quase um desperdício de juventude. A ansiedade da viragem para os 30, uma piada. De bom gosto, até.

Não esta…

Não é consciente, não sei porque o faço, de onde vem a urgência, a vontade de avançar sem pendências. A minha intuição deve saber, o meu inconsciente saberá certamente. Apenas me limito a não oferecer resistência. A fazer, fechar, deixar pronto.

A despedida de alguma coisa, alguéns, de mim, do mundo como o conheço, da vida como a vivi.

As memórias e as canetas e lápis de todas as cores espalham-se pelo chão da sala. Divididas por décadas, umas mais cheias do que outras. Anos inteiros, seguidos de ausências de registos.

Outros com registos demais.

Enquanto espero por fotografias de tempos dos quais mal me lembro, e ganho coragem para digitalizar e imprimir outras tantas, descubro cartas que nunca cheguei a enviar, fúrias antigas de amores que voltei a considerar. Esqueletos saltam dos armários, aproveitando o tempo que passou e a memória que se esvaiu, tentam resgatar o tempo perdido, agindo como se tivessem menos 20 anos, não tivessem aprendido nada, de nada tivesse valido. Uma surpresa. Não me lembrava de muita coisa, afinal. Escolhi, salvo raríssimas exceções, guardar na memória os momentos especiais.

Bons, únicos, verdadeiros, até.

Lembrava-me que havia deitado fora correspondência antiga, num momento de fúria, convencida de que seria suficiente para esquecer. Agora, tenho pena de não ter guardado. Ainda que fosse mais uma demonstração de um ciclo vicioso.

De neurose…

Que ora quebro, com autonomia, por vontade própria, sem precisar que o outro o oficialize.

Descubro o texto que escrevi no último dia da minha estadia no Luxemburgo, onde estagiei no Parlamento Europeu durante três meses, em 1997. Uma carta de despedida que fala de lugares de que já não me lembro. E de um bar chamado Scots…

Esta foto é desse dia…

Descubro que escrevo sempre mais quando viajo para fora dos lugares que já conheço. Que o desconhecido, a descoberta, me inspira mais do que qualquer outra coisa.

Que a magia não acabará enquanto tiver olhos que a acolham. 

Nos confins da memória

27/07/2020

Esta viagem no tempo, aos confins da memória, está a dar-me uma vontade de fumar levada do diabo.

Resisto…

Olho para o meu corpo, do qual sempre me queixei, sem motivo algum, vejo-o agora, e sinto uma certa mágoa do tempo. Da falta de esperança, de perspetiva, do facto de já não ter a vida toda pela frente muito menos o corpo que tinha aos 30 anos.

Vejo bilhetes de concertos sem ano, postais de músicos, ídolos da adolescência, outros tantos de amigos e uns quantos de recordações de lugares onde fui feliz, e os olhos marejam-se-me de nostalgia.

Logo eu, que nunca fui de olhar para trás, ficar presa ao passado, sequer cheguei aos 50…

Descubro palavras antigas cheias de ódio, de revolta, de dúvidas, incompreensões várias de coisas que nunca verbalizei, apenas escrevi, para livrar a consciência da tormenta da adolescência.

Releio declarações de amor ardente, para sempre, e outras tantas recebidas, de amor eterno, de relacionamentos não vividos, apenas imaginados e concebidos em palavras, escritas em cartões de vários lugares da Europa. E cartas escritas de pessoas que ficaram na memória de décadas felizes, mas não na vida de todos os dias.

Nada é para sempre…

Mas já foi, na época em que o tempo não passava, não se perdia, existia apenas no presente e se estendia sem fim, diante dos nossos olhos.

Fotos antigas dizem-me que sorria, quando era criança.

Não me lembro. Lembro-me de um mundo só meu, solitário e silencioso, a infância inteira até aos 11 anos. E lembro-me de alguma rebeldia na pré-adolescência, num colégio que frequentava só de meninas. E, constato agora ao rever fotografias abauladas pelo tempo, que, desde tenra idade, preferia a companhia dos rapazes.

Acho que só na adolescência valorizei a companhia feminina.

Releio cartas antigas e vejo como nos maltratávamos, devia ser das hormonas… Herdámos a falta de jeito das gerações anteriores para a manifestação pública de afetos.

Releio desabafos sobre pessoas que pareciam ocupar-me todo o tempo mental e já não faço ideia sobre quem escrevia. Penso no que era, no que fui, no que sou. Em quem foi e em quem ficou. Recordo a importância de uns e a insignificância de outros. Gente que não faz a mínima ideia que ficou na minha vida, nas minhas memórias, tal como eu não faço ideia em que memórias fiquei.

Permaneço, resisto ao tempo, ao espaço, à vida, e respetivas exigências.

E, talvez pela primeira vez, escrevo um texto sem conclusões que me acalmem a consciência e me aplaquem a vontade de fumar.

Escrever

26/07/2020

O livro que o Ricardo Araújo Pereira sugeriu no último Governo Sombra foi o Escrever, do Stephen King, finalmente traduzido. Disse, e bem, que não havia muitos livros sobre o tema traduzidos em português.

Mencionou o Cartas a um jovem poeta, do Rilke, que é belíssimo, o cartas a um jovem romancista, do Llosa, que não conheço, e o do Mário de Carvalho, que li por sugestão do Joel.

Também disse que para escrever era preciso ler. Ler mais e ler sobre escrever.

Gostei de o ouvir dizer que o fascina ler sobre o metier.

Coincidência ou não, e depois de um tempo obcecada por livros sobre escrever, nomeadamente por duas autoras de que gosto muito, a Natalie Goldberg e a Julia Cameron, voltei a esta e ao último que havia comprado nessa fase e no qual não tinha ainda pegado.

Não sei se The Vein of Gold é o melhor,

mas é seguramente dos que mais efeitos imediatos produz. E acrescenta uns pózinhos fundamentais à ideia de que para escrever basta ler.

Como já havia dito, a grande diferença entre elas é que a Julia é mais terapêutica na abordagem. E um dos exercícios que propõe, de onde os seguintes partirão, e que estou neste momento a fazer e me está a dar um gozo e um prazer indescritíveis, é a nossa linha do tempo narrativa.

Dito assim parece um bocado narcisista.

E se calhar é. Mas a verdade é que para escrever, criar em geral, é preciso ir lá atrás e contactar com momentos e palavras que fizeram precisamente que nos afastássemos do ofício criativo. Por vergonha…

É particularmente relevante a consequência que ela associa à vergonha: vício…

O RAP já contou várias vezes a história da avó lhe dizer que ele não tinha graça alguma, apesar de se rir com as coisas que ele dizia.

E isso poder ser um argumento válido. E que contraria este.

Mas também pode ser que ele tenha mais o que expressar, além do humor, e não o faça, por se achar ridículo, ou que, como ele já disse várias vezes, não tenha importância. Nomeadamente os sentimentos:

“Porque são meus e porque são sentimentos”.

A quantidade de coisas que atirámos para os cantos mais escuros da memória e que vêm à tona só de ler as palavras da Julia Cameron, e o poder que essas memórias têm de arrastar outras para a consciência, tem tanto de nostálgico, e de assustador, quanto de libertador.

Esse é o verdadeiro poder do contacto com a sombra

Não o de nos tornarmos sombrios, mas de nos libertarmos do seu subjugo. E assim conseguirmos chegar ao ser criativo que foi soterrado por críticas, desincentivo, gozo, desprezo.

Um criativo, um artista, é necessariamente ligado à criança que ainda mora nele. As crianças não têm medo nem vergonha das suas criações, da imaginação, das histórias que inventam. Não se preocupam com a veracidade, apenas com a expressão das suas ideias e emoções.

E é essa vergonha, que nos foi incutida, que precisamos de perder.

Ao revisitar a nossa linha do tempo narrativa, reconstruindo-a, podemos substituir palavras críticas por outras. Porque agora temos olhos e consciência para nos vermos de outra forma. Da forma que somos e não da forma como nos veem e que acreditámos ser o que constitui a nossa identidade.

Caso contrário, os exercícios criativos propostos pela Natalie Goldberg podem ficar por fazer. Por vergonha, bloqueio criativo e artístico. Cuja origem está lá atrás, no lugar que precisamos de revisitar e recriar.

Gostei mais de ler a Natalie, mas os exercícios criativos da Julia foram de longe os meus preferidos.

Os que me levaram para lugares incríveis, sensações boas, de plenitude, de conexão.

Ambas têm funções completamente diferentes, mas os dois modelos são fundamentais.  E nenhum é melhor do que o outro.

Rise and Shine

23/07/2020

Ainda não eram 9 da manhã e já tinha completado o treino diário de corrida e caminhada. Depois de ter trabalhado ontem até às dez da noite. Trabalhar com mercados cujos fusos horários são de oito horas tem estes reveses.

Faz hoje uma semana que deixei de fumar, outra vez, e que voltei a correr. Naquele esquema corre anda corre. Todos os dias, apesar da aplicação que uso sugerir apenas três treinos por semana. Depois de já ter feito isto uma vez, a sensação inicial é de que custa muito menos.

Às vezes pergunto-me para que deixei de fumar. Qual é o problema de fumar?

Depois lembro-me que fumar não serve para nada. Não é um ato de prazer, sabe mal como o diabo, já que falamos nisso. É um hábito nojento e pestilento, não me dá o que espero. Pelo contrário, só me ilude, deixando-me na ressaca e na carência. De mau humor, dependente, sem autonomia.

Um falso preenchimento de um vazio existencial

É como comer o que não nos satisfaz, não nos alimenta. Ou andar com gajos que se relacionam com base no poder, conquistam e fogem, dão e desaparecem, deixando o outro à míngua, baseando as suas relações na escassez e não na abundância.

Que é como vive a maioria das pessoas

Há toda uma atividade a acontecer antes das 9 da manhã. Gente na praia, dentro de água, inclusive, a apanhar sol, num areal quase vazio. Tenho de arranjar maneira de levar uma toalha e umas havaianas para dar um mergulho no fim da corrida. O mar estava apetecível, tranquilo, sem ondas, um espelho.

Deixar de fumar devolve-nos energia física.

E o melhor a fazer é queimá-la. De forma produtiva, que nos satisfaça. Qualquer desporto cumpre a função. Correr tem de bónus uma sensação de liberdade enorme.

Na mesma proporção que o trabalho que fazemos apenas para pagar contas, ou para preencher em exclusivo uma necessidade de contributo social, no-la tira.

Passamos pelo menos metade das horas em que estamos acordados a trabalhar.

Ou fazemos algo que nos conecte verdadeiramente e preencha, de facto, vazios existenciais, ou a vida é uma sucessão de amarguras e frustrações. Reclamações e queixume. Vitimização e culpabilização do mundo pelo nosso infortúnio.

Eu aproveito as manhãs para criar, conectar-me com esse lado artístico.

A criatividade é das coisas que mais e melhor me preenche.

Ontem, aproveitei a hora de almoço, às seis da tarde, obviamente, já tinha almoçado à uma, para ir dar um ou dois mergulhos no mar. Voltei como nova.

Trabalhar é preciso, mas não pode tomar-nos todo o nosso tempo.

Nunca me imaginei fazer exercício físico de manhã. Gosto de acordar com tempo e de ter uma meia hora para mim antes de deixar que a vida aconteça. No entanto, amadurecer também é saber definir prioridades, adaptarmo-nos às condições externas, que saem fora do nosso controlo, não deixando que nos dominem, nos impeçam de fazer o que nos dá prazer mas também nos conecta.

Se não posso ir correr ao fim do dia, à hora mágica, que seja de manhã cedinho, antes do calor e das multidões.

Há imensa gente no paredão de manhã…

Pedras

19/07/2020

Sou capaz de ficar que tempos a olhar para a água a correr em rios, ribeiros e riachos. Cristalina, impermanente, em  sulcos, passando por cima de pedras e rochedos, livre, dentro das margens que a orientam na direção certa, por um espaço cada vez maior, até chegar ao mar e se libertar de tudo para sempre, na companhia de outras tantas águas, que entretanto se lhes juntaram, numa massa uniforme, onde mais nada se distingue. 

Tal como me fascinam as pedras, polidas pela água, que lhes dá um brilho especial, sequer se confundem com os cristais de areia refletidos pelo sol.

Fascinam-me em particular as pretas, brilham mais do que as outras, são às dezenas, de todos os tamanhos e formas, arredondadas ou achatadas, pelo contacto umas com as outras, e polidas nas extremidades pela água e a areia.

Fascina-me a sua permanência

A forma como a natureza se encarrega de adaptá-las, para que não se percam, não sejam levadas pelo mar, permaneçam na areia aos milhares, todas juntas, tornando-as inclusive mais bonitas, menos rústicas, protegendo-se umas às outras da força das marés.

Ambas me encantam

A água que corre livremente, indiferente aos obstáculos, não se deixando intimidar por eles, muito menos perde de vista o destino final.

E as pedras, que escolheram ficar umas com as outras, adaptando-se aos elementos que, inclusive, as aperfeiçoaram, sem arestas ou vincos nas superfícies. Às vezes, têm um risco branco ou dois, fazem lembrar gatos, ou doninhas, sem o cheiro pestilento destas.

As águas fundem-se numa massa indistinta, sem qualquer tipo de peculiaridade.

As pedras juntam-se, sem perderem a sua forma, a sua identidade, embora adaptadas. Para que consigam sobreviver à pressão que exercem umas sobre as outras, à areia e ao vento. E à água do mar, que lhes dá um brilho especial, parecem de veludo, que perdem quando lhes pego e as trago para casa.

Talvez as ponha dentro de água, só para as ver brilhar.

Descubro que este é o terceiro texto que escrevo com o título: pedras.

E que cada vez gosto mais delas.

 

Reino Unido 🇬🇧

18/06/2020
É conhecido o meu fascínio e encantamento pelo Reino Unido.

Começou na infância, com a literatura, e o futebol… Continuou na adolescência, com bandas de música, sentido de humor e mais literatura, e rapidamente se estendeu aos filmes e séries. E a mais literatura, que comecei a ler no original antes dos 30, com sotaque e tudo.

Já aqui escrevi vários textos sobre isto.

Falei inclusive na minha fase: ler tudo quanto havia de dois ou três autores britânicos de eleição. Foi o Mike Gayle que me fez começar a ler em inglês. Até lá, tinha um bocado de preguiça. E nunca mais parei.

Essa fase passou e vieram outras

Ontem, por mero e fortuito acaso, assisti a mais um filme baseado numa história do Nick Hornby, no canal Hollywood.

Quando, no início de um filme, vejo o Pierce Brosnan, no topo de um edifício em Londres, pronto para se atirar dele abaixo, vou querer saber porquê…

Só depois descobri que a Long Way Down era baseado numa história do Nick Hornby

O que me agrada no cinema britânico, seja inglês, escocês, galês ou irlandês, é a crueza, a possibilidade real de todas aquelas personagens serem pessoas. Os temas, os argumentos e a forma como são construídos, as opções de twist quase sempre inesperadas e surpreendentes. Muito raramente previsíveis.

Que é também o que me agrada no cinema europeu em geral

Embora ultimamente ande com preguiça para ver filmes noutras línguas. Porque o sotaque britânico continua a dar-me fornicoques, é afrodisíaco, que hei de fazer… Ao ponto de, no meu trabalho, ter a oportunidade de o ouvir, não com tanta frequência quanto gostaria, e pensar algumas vezes que só pode ter sido criado por Deus, de tão perfeito. Quando são homens, juntam-se-lhes as vozes graves, a educação, a paciência, a gentileza, a humildade, e a coisa corre às mil maravilhas. Sorrio muito mais, tenho uma paciência infinita e até o meu tom de voz muda, suaviza.

É lindo de se ver…

O filme de ontem é sobre o suicídio, tema que me é muito caro, e agradou-me por isso. O realismo das personagens, as suas complexidades, torna a história quase verdadeira. Já que o tema não é tratado de forma Hollywoodiana, como se a vida fosse um eterno filme da Disney, ou da Hallmark, todos iguais, zero profundidade, todos perfeitinhos, todos infantilizados, que por mais que alimentem a fantasia de uma vida sem agressões, sem conflitos de maior, sem fúrias, deixam um rasto de frustração gigantesco.

É isso. Os filmes e séries europeus, do Reino Unido em particular, são mais adultos, menos fantasistas, mais realistas.

E o de ontem só o confirma

Acho que é precisa imensa coragem para criar personagens como as do Nick Hornby. E um dia gostaria de lá chegar.

Agora, vou à procura dos que ainda não vi.

É assim que funcionam as obsessões. Se desconstroem símbolos de conteúdos inconscientes e arquetípicos que precisam de ser integrados na consciência. Com a persona devidamente protegida.

Não sendo suficiente, e contrariamente a tudo o que tenho vindo a pensar sobre residência permanente, sou capaz de lá voltar para estudar. Não a Londres, que já tenho a minha dose de cidades grandes, mas à Escócia…

A primeira viagem não foi suficiente…

O aval dos mestres

15/06/2020

“It is the truth, a force of nature that expresses itself through me—I am only a channel— … I can imagine myself in many instances where I would become sinister to you. For instance, if life had led you to take up an artificial attitude, then you wouldn’t be able to stand me, because I am a natural being. By my very presence I crystalize; I am a ferment.

The unconscious of people who live in an artificial manner senses me as a danger. Everything about me irritates them, my way of speaking, my way of laughing.”

Poderia ter sido eu a dizê-la, esta última frase. Ipsis verbis

Foi Carl Gustav Jung, o meu mestre maior.

Nunca, nunca mais posso esquecer-me que não há outro que me salve. Nenhum outro. A não ser ele.

Não adianta procurar a salvação fora de nós. Só cá dentro, onde o numinoso toca primeiro a alma e depois o coração. Numa fração de segundo imperceptível ao tempo humano, do relógio, o meu arqui-inimigo Cronos.

Não há nada mais verdadeiro do que a alma e o coração.

Detox Redes Sociais

11/06/2020

Faz amanhã uma semana que desativei todas as minhas redes sociais, twitter, instagram e facebook.

O mundo anda um lugar muito pouco recomendável e as redes sociais infrequentáveis. Quando dei por mim a entrar na loucura coletiva, na esquizofrenia generalizada, ainda que numa tentativa de ser uma voz de lucidez, achei que o melhor que tinha a fazer era dar um tempo.

Antes de enlouquecer de vez.

As redes sociais não são representativas do mundo lá fora, são piores. E não sei o que mais me incomoda, se os tolinhos do pensamento positivo, se os meros observadores que se entretêm com a ausência de razão e filtro alheios, se os propagandistas do regime, se os adolescentes de mais de 40 anos que acham que têm de escolher um lado, seja ele qual for, normalmente o que fica bem na fotografia, se os raivosos.

Parece impossível, mas o mundo está infinitamente pior do que durante o Estado de Emergência.

Por um lado, não deixa de ser surpreendente que a primeira coisa que as pessoas fazem depois de ficarem enfiadas em casa 2 meses é sair à rua e partir tudo.

Por outro, é bastante óbvio: consequência de limites e restrições à liberdade forçados. Impostos. Ler Mais…

Independência ou morte

27/05/2020

A ilusão da democracia, do partido político, do clube de futebol, da religião, da ciência, dos números, dos astros, do comunismo, do socialismo, do fascismo, da ditadura, do poder, do controlo, da opinião, da participação, do dinheiro, da moda, da beleza, do desporto, da comida, do álcool, das drogas, do sexo, do que funciona, do que não funciona. Da guerra e da paz. Da luta, da batalha. Da ordem e do caos. Da posse. Do ego, da sombra e da persona. Do cinema, do teatro, da dança, da arte em geral, dos livros. A ilusão da cultura. A ilusão do ter e do ser, do conhecimento e dos factos. A ilusão da vida e da morte, da depressão e da tristeza, da alegria e da euforia. Da família, dos irmãos, dos filhos, dos pais, dos netos. A ilusão da maturidade e da eterna juventude. Da fuga. Da presença e da ausência. Da distância e da proximidade. A ilusão do medo, da ignorância. Da saúde e da doença. A ilusão da vida saudável e da vida desregrada. A ilusão do compromisso e da liberdade, e da falta dela, a sua maior aliada. Da dependência e da independência, que pode ser a forma mais básica de dependência… A ilusão da agressão e da passividade, da coragem e da manipulação. Da bondade e da maldade. Da inocência. A ilusão dos heróis e dos vilões, dos fracos e dos fortes, dos bonitos e dos inteligentes. A ilusão da roupa espalhada pela sala e da cozinha arrumada, da pasta de dentes amassada e direitinha. A ilusão do cliché, do diferente. A ilusão dos amantes e a do casamento. Do acordo e do desacordo. Da solidão e da companhia. Das rotinas e dos dias sempre diferentes. A ilusão da esperança, dos dias melhores. A ilusão do dever e a do prazer. A ilusão das causas e a de um ideal. A ilusão dos ímpetos. Da estabilidade, da segurança, da rotura. Da destruição e da construção. A ilusão do conflito e da mudança. A ilusão da permanência e da partida. A ilusão do outro, a nossa própria ilusão, sobre nós e sobre o outro. A ilusão da influência. A ilusão suprema, a ilusão da (nossa) importância… Message in a Bottle, 2011.

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