Livre

1K/1S/3M – Crunchy and Cosy

10/11/2016

Diz-se em psicologuês que nós não temos o complexo, o complexo possui-nos, fazendo connosco o que quiser. É o que acontece com os vícios, não há racionalidade, força de vontade e autocontrolo que nos valham. Quando damos por nós, já comprámos o maço, já o abrimos e já estamos de cigarro na mão, o que nos impede de o devolver. E já que o comprámos e abrimos… Já que está ali… É o que acontece com drogas leves e pesadas. Basta ativar o monstro para que ganhe vida própria e, para além de nos possuir psiquicamente, possui-nos fisicamente. Ao pondo de sairmos ao frio, à chuva, à neve para ir buscar o que quer que seja que, achamos nós, nos acalma o nervoso.pao

Com o açúcar é mais ou menos a mesma coisa. Há quem diga que o nível de dependência é equivalente ao da cocaína. Nunca cheirei, não posso testemunhar. Mas sei que é grande. E sei que, como qualquer outro vício, o que custa são os primeiros dias. Não dá para olhar para as coisas, para passar por elas, sequer para nos lembrarmos que existem. À revelia do nosso ego, o nosso cérebro manda-nos imagens das coisas que gostamos a toda a hora. No meio de uma frase, de um texto, de uma tradução, do que for. Opera por caminhos misteriosos, levados do diabo, às vezes, e uma coisa é a dependência física, outra a emocional, que é a pior. Da física o nosso incrível corpo livra-se em três tempos. Da emocional é que é o diabo. A nossa cabeça pode ser o nosso maior inimigo e o nosso mais fiel companheiro.

Hoje fui a dois sítios onde normalmente a minha mão iria direitinha para um certo chocolate de cereais ou para um milka de morango, já saí de casa de propósito para comprar um milka de morango, exatamente como fazia com os cigarros (com a diferença que, no caso destes, saía às horas que fosse preciso, com os doces não), bem como para comer uma trança de noz ou um pastel de nata na padaria que fica colada à porta do meu prédio, interrompendo uma frase a meio… Com a agravante de também ter passado por um flockshock, posicionado estrategicamente junto às caixas do supermercado, onde a pessoa já acha que está a salvo por já ter resistido ao chocolate da entrada, o tal de cereais. Olhei par ele e nem tchum, nada, zero.

O vício do açúcar, apesar de mais acessível, porque legal e com uma variedade imensa de produtos à escolha, talvez seja mais fácil de contornar, usando e, quase me atrevo a dizer, abusando da proteína, que foi o que tinha acabado de consumir um pouco antes de sair. Fiz umas barras, mas como me distraí, não segui as instruções e acabaram por não sair barras mas apenas o conteúdo das mesmas. Como-as às colheres, uma chávena de café é mais do que suficiente para me saciar, é a dose certa, talvez até menos, uma colherzinha de sopa baste. E isto é praticamente um milagre.

Acabei de chegar da rua e a minha casa cheira a outono. Adoro entrar em casa das pessoas no outono, não há aroma mais acolhedor do que o de algumas comidas acabadas de sair do forno, se levarem cacau, tanto melhor. Acho que nunca gostei tanto de entrar em casa como hoje. E só me tem apetecido cozinhar, que é o que vou fazer assim que acabar este texto. Pão e granola. Nunca mais compro granola pronta na vida. Quem não conhece o prazer do crocante não sabe o que está a perder. Não gosto do sabor da quinoa, tostada quase como a seco.

Também me noto mais criativa e produtiva do que é normal, tenho uma mão cheia de textos para escrever e acho que a criatividade é capaz de estar diretamente relacionada com o consumo do açúcar. Comer, como fumar, são resultado de nos negarmos a seguir o impulso criativo que o nosso inconsciente faz o grato favor de atirar para a consciência. Toda a preguiça é autodestrutiva, todo o impulso criativo negado gera um comportamento autodestrutivo.

Não me custou nada, nada, não estender a mão para os chocolates. Amanhã faz uma semana.

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