Livre

1K/1S/3M – O seu cada um

09/11/2016

A nossa relação com a comida tem as suas peculiaridades, tal como o resto de nós e a relação que estabelecemos com tudo e todos, inclusive connosco mesmos. As nossas relações resolvem-se na cabeça, com a colaboração do coração, é certo, e da barriga, que é onde reside o desejo, mas é na cabeça que está a raiz de tudo o que influencia comportamentos. Cada um saberá a fórmula que melhor lhe assenta, desde que conheça os meandros pelos quais o nosso cérebro opera quando se trata de compensações e outras confusões.

Há a compulsão, que associo muitas vezes ao estar na cabeça e não no corpo todo, só estando na cabeça e dissociado do corpo para comer a uma velocidade quase supersónica sem darmos tempo à comida de chegar ao estômago, que é o sinal que nos diz que estamos satisfeitos, sem precisarmos de ficar tipo jiboia, atulhados até à boca do estômago e sem conseguirmos mexer-nos. A compulsão também pode ter a ver com a necessidade de preencher um vazio emocional qualquer, bem como aniquilar uma necessidade não satisfeita, não expressa e muitas vezes sequer conhecida. É preciso ir um pouco mais a fundo para trazer para a consciência qual a contrariedade, o que estamos a forçar-nos a fazer, que necessidade não se encontra reconhecida, permanecendo completamente desconhecida, daí a tentativa de preenchimento com comida que se revela infrutífera, para além de calórica e gordurosa. Por isso comemos tantas vezes até ficarmos a rebentar. Talvez seja este o meandro que nos impede de parar de comer, mesmo quando já estamos enjoados que nem uns perus porque comemos meia tablete de chocolate em alguns minutos, mas não descansamos enquanto não pomos fim à coisa, pois só de saber que ela existe à distância de meia dúzia de passos é o suficiente para nos atormentar. Não é à toa que o transtorno se chama obsessivo compulsivo. Para quem quer controlar o que come, e apesar da sensação jiboia ser horrível, e perdermos umas horas a tentar desencher, com café, remédios efervescentes para o estômago, charutos, cigarros, cigarrilhas e o diabo, é difícil acabar uma refeição sem essa sensação. É como se nos dissesse que continuamos com fome, não tendo. Mais difícil de acontecer com quem fuma. Para quem deixa de fumar os fins das refeições são um suplício, é normalmente aí que vem a vontade de doce. Eu compro quantidades industriais de descafeinado para mandar o recado ao cérebro a dizer que a refeição acabou.

Beber um litro e meio de água por dia numa garrafa de 50cl, enchendo-a três vezes, é, para mim, muito mais fácil do que beber diretamente de uma garrafa de litro e meio. Como é muito mais saboroso e producente beber água engarrafada do que água da torneira. Cada um com o seu cada um e nós devemos viver de acordo com o nosso modo de funcionar. E não com o que alguém determina que é certo. Isso só causa frustração e já sabemos onde acabamos por nos vingar.

*

Já sei que os 5 minutos de aquecimento são o tempo que levo de casa ao paredão, a pé. Chegando lá, ponho o temporizador para os 15 minutos, bloqueio o telefone e corro até apitar, o telefone, não eu. A amote já vem a ditar o ritmo desde casa. Desisti da aplicação dos 10k desde que se atrofiou toda da última vez que a usei, enganando-me e irritando-me além da conta. Toda a energia que me leva a irritação faz me falta nas pernas e nos pulmões. Também não estou nem aí para o nike+. Os meus joelhos já não eram grande coisa, depois de andar a correr desenfreadamente feita alucinada devem ter piorado. Ainda não fui vê-los, mas já os senti em pequenas corridas de um quarto de hora. E a subir escadas o resto do dia. Perder peso deve ajudar e muito à pressão nos mesmos, aguardemos pelas próximas semanas. Seja como for, cada um com o seu cada um, o meu lado competitivo, que tem ligação direta com o ego, quase me matou. Ficar no ego, na cabeça em geral, nunca dá bom resultado. Não quando é preciso estarmos também atentos ao corpo. Não quero saber quantas calorias perco, quantos KM faço, qual a média da passada. Já sei que consigo correr o que quiser, muito mais do que o que alguma vez imaginei. Que se lixe, vira uma neurose levada do diabo, deixa-me obsessiva e não estou para isso, acaba por me tirar o prazer da corrida, me deixar triste e frustrada e eventualmente levando a que me vingue onde não devo. Percebo se vou mais rápido ou mais lentamente pela distância percorrida, é simples e é o suficiente. Antes consistente do que desistente. Ou doente…

A volta, às vezes, é feita pela praia, afastando-me do barulho dos carros a rasgar a marginal. Dá até para tirar os fones e ouvir as ondas, mesmo em modo Caraíbas landscape.

*

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Primeiro grande teste superado. Jantar em cada de mamis. Pulo o queijo e a broa, que normalmente já me deixam completamente atafulhada. A minha intenção era comer apenas uma sopinha, mas vejo lombo de porco no forno e já sei o que me espera, castanhas. Como três fatias mínimas e todas as castanhas que me cabiam, mais as dos miúdos, e salada, conseguindo resistir ao melhor arroz do mundo, o da minha rica mãezinha. Felizmente também tinha ervilhas, o que ajudou. Se fosse só de cenoura era o diabo. Tinha lá estado no sábado e mamãe apercebeu-se das minhas intenções, recusei uma fatia de bolo dizendo: não posso nem olhar para isso. Vai daí, não houve sobremesa no jantar familiar semanal. Os meus sobrinhos qualquer dia rifam-me. Tive pena do J, que não é nada doceiro, quando o vi agarrado a três bolachas digestive, coitadinho. O outro, que é doceiro como a tia e o avôzinho dele, estava distraído com um puzzle do faísca e não se queixou. Quando disse ao mais velho: estás a comer isso? Não quiseste línguas de veado, são muit’a boas. Respondeu-me que gostava mais das de gato, sensaboronas até dizer chega, digo eu, limitando-me a rir-me às gargalhadas, são muito menos doces.

*

O plano foi traçado e vou segui-lo até ao fim. À medida que for andando e perdendo, logo vou vendo o que farei. Nem ego nem emoção, conexão, equilíbrio, ambos, em amena e alegre convivência. So help me god. Para já, para já, sinto-me bem melhor, depois dos dois ou três dias de ressaca. Muito mais equilibrada, muito mais tranquila.

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  • Tiago 10/11/2016 at 13:30

    Eu já fui o doido das estatísticas. Usei muito o Nike+. E computava tudo que podia, quanto avançava e fica doido quando minha média de distância/tempo aumentava. Desde que retornei a correr desisti disso tudo. Arrumei um ipod pequenino, enfio no bolso e saio correndo, meio sem rumo, sem cronometrar nada de tempo nem distâncias. Tem me feito bem e sinto que evoluo a cada dia, o que é melhor do que pensar que ganhar um minuto por km é o objetivo da semana. Quanto as comidas me limito no dia a dia. Fui pros pães integrais, pra evitar os doces e etcs, fez efeito.Mas em dias especiais (leia-se almoço na casa da mãe) deixo a dieta de lado. =)

    • Isa 10/11/2016 at 13:36

      eu preciso de um alarme que me diga que corri 15 minutos, porque facilmente desisto, quando me começam a doer as costas, os joelhos, o diabo… :) e nesta fase tenho de ser radical, esta coisa do peso, nas mulheres, é o diabo, por causa da menopausa e o caneco e se não temos cuidado e temos tendência a descambar, que é o meu caso, em menos de nada viramos um paquiderme de pequeno porte :D

      • Tiago 10/11/2016 at 15:08

        Paquiderme de pequeno porte!!! kkkkkkkkkk
        As dores são terríveis. Mas sempre lembro de um ilustre desconhecido que diz que o corpo desiste antes da mente. Então continue que a mente aguenta. rs

        • Isa 10/11/2016 at 15:18

          é verdade, o corpo começa a reclamar um minuto depois de começar a correr :D

  • Tiago 10/11/2016 at 13:35

    Ah e que lugar lindo para se correr… Vou aí te visitar e correr contigo. =P

    • Isa 10/11/2016 at 13:37

      ahahahaha, vem :D

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