1K/1S/3M – O Vacilo é o diabo…

12/12/2016

Nos grandes desafios, principalmente os que implicam esforço físico, mudança de hábitos e de comportamentos de sempre, há sempre o risco do vacilo. Enquanto vamos vendo resultados, vamos conseguindo, vamos andando, tudo são rosas. É quando não cumprimos um objetivo que o perigo espreita.

Há um predador que mora na nossa cabeça e se alimenta da nossa não vida. Que odeia os nossos sucessos, as nossas conquistas, os nossos esforços. E que nos adora amorfos e apáticos. Que adiemos a vida, que procrastinemos os sonhos, que nos auto-destruamos. É essa a sua atividade preferida. É astuto e ardiloso. Finge-se de morto a grande maioria do tempo até s apropriar de nós. Quando damos conta, já devorou um doce, ou vários, fumou dez cigarros, disse sabe deus o quê a quem, obrigando o resto do pessoal a viver com uma ressaca moral épica no dia seguinte. O diabo, literalmente…

Mesmo sabendo que é uma proposta, uma sugestão, sem garantia de sucesso, e por isso sem obrigatoriedade de espécie alguma. Quando nos propomos uma coisa e ficamos aquém, abrimos alas para que o nosso predador interno tome conta do leme, se instale, mande vir os foguetes e faça a festa. E é um instante enquanto não dá cabo de todo o esforço que andámos a fazer um mês inteiro. Às vezes, anos. A não ser que rapidamente cheguemos à conclusão de que gatilhos foram disparados.

A semana havia começado mal. Bem, com os anos do sobrinho mais novo. Carne e batatas fritas, um toco mínimo de um doce e a lembrança de que não tinha corrido o tempo a que me propus nessa segunda-feira, o objetivo para todo o mês de dezembro. Na quarta aconteceu o mesmo, por um minuto, nunca mais do que isso, e a consequente estragação à noite, perdido por cem, perdido por mil. Vacilo atrás de vacilo, espiral de vacilos, tudo o resto a escapar-se pelo ralo. E assim foi a semana toda. Sequer me medi. Seriam 7 dias para eliminar da cabeça e do calendário, não fosse este desaire ter-me ajudado a ver com toda a clarividência o que psíquica e emocionalmente me leva a querer fumar tudo quanto me aparece à frente, em determinados momentos, muito, muito específicos.

É uma forma de me conectar e me identificar também com o meu pai. É o que me instigo a fazer sempre que estou a violentar-me, a trair-me. Estando onde não quero estar, com quem não me apetece, a ouvir o que não quero. A não verbalizar o que deveria.

O nosso predador interno é exímio em descobrir brechas por onde entrar. As preferidas são quando somos acometidos de crises de fé. Não valho nada, não consigo, não chego, não sou suficiente. Mesmo que não o pensemos, conscientemente, muito menos o digamos. É aí que ele vem e nos prova isso mesmo, dominando-nos e quase nos fazendo acreditar nessa voz destrutiva, em detrimento de todas as outras.

Sou capaz de aviar um sopapo ou dois à próxima pessoa que me disser: deixar de fumar é só querer.

  • Tiago 13/12/2016 at 10:00

    Já falei que minha vontade de fumar era exatamente ter um momento de reflexão pra poder fugir daquele povo ali, daquele ambiente ali. Acho que seria o ideal se houvesse um outro substituto mais socialmente aceito que “vou ali fora fumar um cigarro”. Porque dizer: “preciso tomar um ar” já parece que você tá morrendo perto daquelas pessoas e não é exatamente essa a impressão que você quer causar. Sei lá. A gente podia ter liberdade pra poder dizer: “to meio cansado da cara de vocês agora e desse ambiente fechado, me dá cinco minutos lá fora que eu já volto.”

    • Isa 13/12/2016 at 12:11

      exatamente, só fumar um cigarro é aceite: um não aguento mais ouvir-te, deixa-me ir ali não pode…

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