Todos os tons de azul

03/07/2016

À hora em que se disputava a primeira final do campeonato europeu de futebol, o Alemanha x Itália, jogo dos quartos de final, estava na praia. Já de banho tomado, é certo, mas na rua, onde não havia televisões ligadas, empregados stressados, sequer um monte de bêbedos aos berros. Imperava inclusive um quase silêncio na Marina, onde parámos para beber um café que me havia de dar energia suficiente para voltar, tarde da noite, para Lisboa. Os eventuais espectadores do Alemanha x Itália estavam todos recolhidos e calados, o que dava para adivinhar o resultado, empate a zeros. Não perdi nada, portanto. Constou-me que foi um valente tédio e que também as equipas grandes jogam para os penalties. Não consigo entender. Ou se tem um guarda-redes que olha para a bola que é a única atitude lógica e que o faz atirar-se para o lado certo, ou os penalties são uma lotaria que mexe demasiado com os nervos de qualquer um para serem desejados, muito menos almejados. A Itália perdeu e hoje decide-se se a Alemanha joga a segunda final num dos jogos das meias finais, desta vez contra a França. A outra meia será disputada entre nós e o País de Gales, imagina…

Estava na praia, em Tróia, um paraíso a umas duas horinhas de Lisboa, talvez uma hora e meia, a única praia neste país a que vale a pena ir de carro. O trajeto é feito pelo meio de um pinhal, o piso é de areia, não há cafés, restaurantes, barulho de espécie alguma e, se não tivermos o azar de se plantar uma família a uns metros valentes de nós, mas chunga o suficiente para falar num tom que consigamos ouvir – é impressionante como atraio o povo que conversa aos berros em vez de se mexer e ir ter com as pessoas com quem quer falar – a única coisa que se ouve é o vento e as ondas, que são mínimas, apenas uma das enormes vantagens destas praias, que têm nomes, mas cujas divisões não existem, a natureza não as separa umas das outras, fazendo delas uma linha só, um dos seus inúmeros encantos.

Tróia é um aldeamento com imensas casas, um caos para parar, há dez lugares de estacionamento para 100 apartamentos, e uma extensão de praias que não acaba nunca mais. Mas o povo gosta mesmo é de ficar numa praia cheia de vento e de gente, sem piadinha nenhuma, arriscando-se a levar com o pessoal do kyte surf nas costas e o próprio kyte na cabeça. Juro que não entendo*. E não entendo principalmente tendo em conta a paz que se alcança ao guiar por aquela aridez, suficientemente húmida para ter árvores de folhas verdes e uma variedade de plantas considerável ao longo de todo o caminho, completamente selvagem, num silêncio em que quase dá para sentir a presença de Deus. Parar o carro na berma da estrada, andar uns metros debaixo de um calor considerável, seco, bom, e sentir que chegámos ao paraíso. Aquela visão do mar imenso e tranquilo à nossa frente, um autêntico oásis, é o suficiente para quase largar a correr, desfazer-me do que trago na mão, arrancar a pouca roupa que me resta e entrar naquela água de temperatura perfeita, nem quente, nem morna, nem fria demais. Contenho-me, ando uns metros, o suficiente para não ficar demasiado próximo da entrada, caso contrário, já sei o que me espera, e estou pronta para largar as tralhas.

Aquele mar, de todos os tons de azul, parece que estamos nas Maldivas, lava-me a alma. Acho que é a única água do mundo que aguento friazinha. Ao contrário de todas as outras, que, quando são frias, são-no em todos os momentos, quando entramos, enquanto lá estamos dentro e até sairmos, esta não. Depois de o corpo se habituar, parece que nos tornamos um só, nós e a água, à mesma temperatura, a mesma massa.

No céu não há uma única nuvem. Fico o tempo que for preciso até o meu corpo se habituar à temperatura, vou entrando devagar, tranquilamente, não há ondas que me surpreendam, o mar é seguríssimo, o calor abrasador e o vento não chega a fazer-nos desistir, absolutamente encantada com todos aqueles tons de azul e com a serra do lado direito, quase me convenço de que estou num país muito, muito distante. É por aí que me leva o nosso imenso mar azul, a coisa mais portuguesa que temos. Deixo chegar a água à barriga, não sem os arrepios devidos, e cá vai disto. Molho-me até ao pescoço e mergulho. Não consigo descrever o que é sentir a cabeça a entrar naquela água a não ser a de alma limpa, a sensação do corpo arrefecido no sol, até vejo melhor. E, juro, pela minha saúde, não tenho frio nenhum, apesar de o meu corpo dar sinais contrários. Uma sensação de renovação indescritível. A areia branca e fina é perfeita e o melhor mesmo é não haver ninguém em volta. Aquelas praias são o último paraíso na Terra, aquele mar, um milagre da natureza.

grandola

*Até entendo, na volta a casa é uma chatice para estacionar. E eu, que não tenho a mínima paciência para ficar parada no trânsito ou para dar voltas à vida à procura de um lugar para enfiar o carro, percebo perfeitamente que não se queira pegar no dito para ir à praia. É por isso que moro numa e frequento-a a pé, caso me apeteça, para quebrar um galho, porque estão 50º. Mas não me dou ao trabalho de fazer não sei quantos quilómetros, apanhar um barco, pagar uma fortuna por um fim-de-semana de praia se não valer a pena. E ali, ou em qualquer lugar do mundo, só vale a pena a praia que não me obrigue a olhar para o chão para ver onde ponho os pés, não vá pisar a cabeça de alguém, ou levar eu com uma bola na testa.

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